Ressaca eleitoral: da euforia à frustração

Ressaca eleitoral: da euforia à frustração. Quatro brasileiros observam o Congresso Nacional em Brasília ao pôr do sol, em meio a materiais de campanha eleitoral espalhados pelo chão.

E a ressaca moral? O que realmente fizemos para transformar o Brasil?


Por Paulo Cavalcanti

A eleição terminou. Uns comemoram, outros lamentam. Há quem tenha acordado nesta segunda-feira com a sensação de vitória, acreditando que agora o Brasil vai melhorar, há também quem tenha despertado decepcionado, preocupado com o futuro e convencido de que o país tomou o caminho errado.

Ocorre que, independentemente do resultado e de em quem votamos, precisamos levantar cedo, trabalhar, pagar nossas contas, cuidar de nossas famílias e enfrentar as dificuldades de sempre. Afinal, todos nós continuamos com a mesma identidade: somos brasileiros.

Essa é a nossa ressaca moral eleitoral. Depois de meses de campanhas, promessas, acusações, discussões e conflitos, a disputa chegou ao fim, mas a realidade continua. E é exatamente aqui que retomo a reflexão feita na última sexta-feira: a eleição acaba, a conta fica.

O vencedor conquistou o direito e assumiu a responsabilidade de governar; cabe a nós, cidadãos, acompanhar esse mandato, fiscalizar suas decisões e cobrar resultados.

A euforia dos vencedores e a frustração dos derrotados

Depois de uma eleição polarizada, uma parte da população comemora como se tivesse vencido uma guerra, enquanto outra se comporta como se tivesse perdido o próprio país. Uns acreditam que tudo vai melhorar. Outros temem que tudo vá piorar.

A democracia, no entanto, não pode ser compreendida como uma disputa em que apenas um lado representa o Brasil. O país não pertence ao candidato vencedor, ao partido que o elegeu nem aos eleitores que votaram nele; também pertence àqueles que escolheram outra opção, aos que votaram em branco, anularam o voto ou não compareceram às urnas.

Continuamos compartilhando o mesmo território, as mesmas instituições, os mesmos direitos e deveres e, principalmente, os mesmos desafios.

A criança que precisa aprender a ler não pergunta em quem seus pais votaram. O paciente que espera atendimento no hospital não deixa de precisar de cuidados porque seu candidato perdeu. O empresário que enfrenta juros elevados, dificuldades financeiras e insegurança jurídica não terá seus problemas resolvidos simplesmente porque seu candidato venceu. E o trabalhador que precisa de emprego, renda e segurança continuará dependendo de uma economia capaz de gerar oportunidades.

As necessidades dos brasileiros não mudam de acordo com o resultado das urnas.

E a nossa ressaca moral?

A ressaca mais importante desta manhã é aquela que nos leva a olhar para nossas próprias atitudes.

Durante meses, encontramos tempo para discutir política, encaminhar vídeos, compartilhar notícias, defender candidatos, atacar adversários e tentar convencer amigos e familiares. Alguns chegaram a romper relações por causa de suas preferências eleitorais.

Quanta energia mobilizamos nessa disputa! Uma energia que também poderia ser direcionada aos problemas concretos da sociedade.

Agora, eu lhe pergunto: quantas vezes participamos de uma reunião da associação de moradores do nosso bairro? Quantas vezes procuramos saber como a prefeitura utiliza o dinheiro que arrecada? Quantas vezes acompanhamos o trabalho dos vereadores, deputados e demais representantes eleitos? Quantas vezes nos organizamos para cobrar uma escola melhor, um posto de saúde funcionando, mais segurança ou a solução de um problema da nossa comunidade?

Somos capazes de passar horas discutindo sobre um candidato que talvez nunca tenhamos encontrado pessoalmente, mas muitas vezes não dedicamos alguns minutos a acompanhar uma decisão que afeta diretamente a rua onde moramos.

Será que não estamos dedicando mais energia à defesa de quem deseja o poder do que à fiscalização de quem o exerce?

Essa distância entre o debate eleitoral e a nossa vida cotidiana precisa ser superada.
Quem ganhou a eleição não ganhou um cheque em branco Vencer uma eleição não significa receber autorização para fazer o que quiser.

O poder político, em uma democracia, tem origem no povo. Os eleitos recebem uma responsabilidade temporária, submetida à Constituição, às leis e aos mecanismos de controle.

E existe uma questão fundamental que precisamos compreender. O dinheiro que sustenta o Estado vem de todos nós. Sem exceção! Desde quem recebe o Bolsa Família até aquele que paga as maiores quantias de Imposto de Renda, todos participamos, direta ou indiretamente, do financiamento do Estado.

Quando compramos alimentos, roupas, combustível e medicamentos ou contratamos serviços, pagamos tributos embutidos nos preços, além daqueles recolhidos diretamente.

É com essa arrecadação, somada a outras receitas públicas, que são financiados os serviços, os investimentos e a própria estrutura estatal.

Portanto, quem venceu a eleição não recebeu um patrimônio particular para administrar, mas a responsabilidade de gerir recursos públicos que pertencem à sociedade.

E isso precisa ficar muito claro: o direito de cobrar e fiscalizar não depende do candidato em quem votamos. A responsabilidade de fiscalizar não é apenas da oposição. É de todos nós!

A democracia não pode funcionar como uma torcida de futebol, na qual defendemos tudo o que nosso time faz e condenamos tudo o que vem do adversário.

Aqui, quando o Brasil perde, todos nós sofremos as consequências.

Precisamos substituir a fidelidade incondicional a pessoas pela fidelidade aos princípios, às instituições e aos interesses legítimos da sociedade.

Afinal, o que estamos esperando?

Durante as campanhas eleitorais, ouvimos promessas de desenvolvimento, emprego, saúde, educação, segurança e melhoria da qualidade de vida.

Agora precisamos compreender como elas poderão ser cumpridas.

De onde virá o dinheiro? Quais serão as prioridades? Que metas serão estabelecidas? Como os resultados serão acompanhados? E como cobraremos os compromissos assumidos?

Essas perguntas não podem desaparecer depois da apuração dos votos. Ao contrário, precisam orientar o acompanhamento de todo o mandato.

É isso que defendo quando falo em desenvolver a Inteligência Cidadã. Precisamos compreender o funcionamento do Estado, conhecer nossos direitos e deveres, acompanhar os orçamentos públicos, fiscalizar as decisões governamentais e ocupar os espaços democráticos de participação.

Não é necessário ser especialista em economia, direito ou administração pública para começar. Basta reconhecer uma verdade muito simples: se somos nós que pagamos a conta, temos o direito e a responsabilidade de acompanhar como o nosso dinheiro está sendo utilizado.

O Brasil não precisa de mais torcidas. Precisa de cidadãos organizados!

Uma sociedade desorganizada dificilmente consegue exercer, de maneira contínua, a força necessária para defender seus interesses coletivos.

Individualmente, podemos reclamar, protestar e demonstrar indignação. Mas, quando nos organizamos, podemos transformar insatisfações em propostas, reivindicações em ações e participação em resultados.

É nesse sentido que venho defendendo a Consciência Cidadã Participativa Transformadora: uma consciência que começa pelo sentimento de pertencimento, reconhece responsabilidades e se concretiza em ações organizadas.

Precisamos fortalecer associações comunitárias, entidades empresariais, organizações da sociedade civil, conselhos e movimentos de cidadania.

Precisamos construir uma cultura de participação que não dependa das eleições para existir.

E aqui está outra questão fundamental. Não precisamos concordar sobre tudo para defender interesses comuns.

Podemos pensar de maneira diferente sobre política, economia, religião e tantos outros assuntos. Podemos escolher candidatos diferentes e continuar unidos na defesa das necessidades que afetam a todos nós.

A divergência política não pode destruir a nossa identidade coletiva de brasileiros.

Não falta ao Brasil capacidade de mobilização. A eleição mostrou que ela existe.

O desafio é transformar a mobilização eleitoral em participação permanente.

A eleição terminou. E agora?

Talvez você esteja feliz com o resultado. Talvez esteja decepcionado. Ambos os sentimentos são legítimos. O importante é não permitir que a euforia transforme ninguém em defensor incondicional de um governante, nem que a frustração nos conduza ao desânimo, ao ressentimento ou ao abandono da vida pública.

E quero deixar uma reflexão: você terá coragem de criticar o candidato em quem votou com a mesma honestidade com que criticava o adversário?

Se não tiver, será que não está abrindo mão de algo muito mais importante do que a vitória eleitoral: sua própria consciência, sua identidade e sua liberdade de pensar?

O Brasil continuará precisando de cidadãos capazes de questionar, acompanhar, participar e cobrar.

Nenhum governante, por mais competente que seja, conseguirá sozinho transformar um país cuja sociedade não reconhece sua própria força e responsabilidade.

Da mesma forma, nenhum resultado eleitoral retira de nós o direito de continuar lutando pelo país que desejamos.

A verdade inconveniente desta segunda-feiras

Ontem, milhões de brasileiros foram às urnas para escolher quem deverá governar o país. Hoje, precisamos compreender que nossa responsabilidade não terminou com o voto.

A eleição definiu quem recebeu os votos necessários para vencer, mas não decidiu o que cada um de nós fará a partir de agora.

Essa é a diferença entre ser apenas eleitor e exercer verdadeiramente a cidadania.

O eleitor escolhe seus representantes. O cidadão consciente escolhe, acompanha, questiona, cobra e participa.

A euforia vai passar. A frustração também. Mas a educação das crianças, a saúde das famílias, a segurança das ruas, a sobrevivência das empresas, os empregos e a qualidade dos serviços públicos continuarão dependendo das decisões tomadas e da nossa capacidade de acompanhá-las e fiscalizá-las.

E nunca é demais lembrar: ninguém deixou de ser brasileiro porque seu candidato perdeu. E ninguém se tornou mais brasileiro porque seu candidato venceu.

Continuamos todos brasileiros, compartilhando os mesmos problemas, os mesmos desafios e as consequências das decisões de quem governa.

Se ontem tivemos disposição para lutar pela vitória de um candidato, por que não podemos ter, a partir de hoje, a mesma disposição para lutar pelo bem-estar de todos os brasileiros?

Precisamos reconhecer que nossa força não termina na urna. É justamente depois dela que a cidadania precisa se manifestar.

A democracia não começa nem termina em Brasília. Ela se constrói todos os dias, onde vivemos, trabalhamos e convivemos.

Nenhum país evolui além da inteligência de seus cidadãos.

Não precisamos esperar a próxima eleição para começar. O futuro do Brasil é da nossa conta. E ele começa agora!

Pau na Máquina!



Sobre Pau na Máquina!

A coluna “Pau na Máquina!” é uma pílula de motivação. Inspirada pelo bordão icônico de Paulo Cavalcanti, essa coluna traz reflexões motivacionais e filosóficas. Aqui, cada texto é um convite para sair da zona de conforto, enfrentando de frente as realidades da vida com coragem e determinação. Motivação é sinônimo de movimento, de arregaçar as mangas e fazer acontecer. “Pau na Máquina!” é para quem acredita que, com atitude e resiliência, é possível transformar a nossa realidade.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *