Na ONU, São Tomé e Príncipe exige justiça climática em vez de caridade

Na ONU, São Tomé e Príncipe exige justiça climática em vez de caridade

São Tomé e Príncipe está situado no meio do Golfo da Guiné sendo um santuário verde reconhecido como Reserva da Biosfera da Unesco. O arquipélago é considerado um paraíso de biodiversidade banhado pelo oceano Atlântico. 

Nas margens do Estado insular, ondas trazem tanto a maré como o impacto de grandes guerras travadas a milhares de quilômetros, a fatura da crise do clima e os efeitos das emissões que a ilha nunca produziu, segundo a chefe da diplomacia. 

Injustiça silenciosa de nações insulares

Em entrevista à ONU News, a ministra são-tomense dos Negócios Estrangeiros, Ilza Maria dos Santos, menciona “ a injustiça enfrentada pelas nações insulares”: aqueles que menos contribuem para o caos global são os que pagam o preço mais alto.

“Nós participamos muito pouco na produção dos alimentos que contribuem para danificar o nosso meio ambiente, mas nós sofremos, é claro, com as consequências cada vez mais gravosas. Então, aqui é o apelo e a nossa esperança que a comunidade internacional olhe para a proteção ambiental e olhe para a vulnerabilidade dos pequenos Estados que são altamente endividados e que tenham outros desafios internos que os seus próprios orçamentos não conseguem dar resposta.” 

Em Nova Iorque, a ministra realçou ainda que quando conflitos eclodem noutros continentes, a inflação dispara nos mercados de São Tomé e Príncipe. 

Transportes e comida

A dependência global dos combustíveis fósseis transforma as guerras no exterior em crise imediata para as famílias são-tomenses, encarecendo os transportes e a comida. 

“O impacto direto desde o início é o aumento do preço do combustível, que impacta diretamente na nossa capacidade comercial, é claro, os transportes aumentam, o preço da mercadoria a nível mundial aumenta e em São Tomé e Príncipe a inflação dispara. Nós dependemos muito da energia fóssil e o aumento do preço do combustível no mercado internacional é claro que impacta diretamente na vida econômica e social da população.”

Para a ministra, quando o clima mostra a sua fúria, como nas inundações que arrasaram a zona norte do país em 2021, o desafio colossal não é apenas limpar a destruição. O rastro de destruição deixado pelas enxurradas, há quase cinco anos, exigiu uma mobilização financeira de mais de US$ 33 milhões. 

Muito além da infraestrutura rompida, a catástrofe dizimou lares, arruinou a estação de água e estrangulou as cadeias de abastecimento, paralisando a economia rural.

A representante são-tomense disse que o verdadeiro desafio é lutar contra um sistema financeiro internacional que mantém portas fechadas, bloqueando o acesso vital a ferramentas como o Fundo de Perdas e Danos e o Fundo Verde.

Apelo por parcerias estratégicas

No entanto, a narrativa que a ministra traz ao mundo nas Nações Unidas supera a de vitimização. É uma exigência de reconfiguração do xadrez global. O arquipélago não pede caridade, mas exige dignidade e mais colaboração.

“Por isso, nós pensamos que a cooperação bilateral pode ser uma das vias. Mas tratando-se de um problema global, a comunidade internacional tem aqui um papel muito importante e como disse bem, nós participamos muito pouco na produção dos alimentos que contribuem para danificar o nosso meio ambiente. Mas nós sofremos, é claro, com as consequências cada vez mais gravosas. Então, aqui é o apelo e a nossa esperança que a comunidade internacional olhe para a proteção ambiental e olhe para a vulnerabilidade dos pequenos Estados que são altamente endividados e que tenham outros desafios internos que os seus próprios orçamentos não conseguem dar resposta para que os ajude a superar esses problemas que são causados pelas alterações climáticas.”

São Tomé e Príncipe exige uma mudança de paradigma: a comunidade internacional precisa parar de olhar os pequenos Estados insulares apenas pelas lentes da vulnerabilidade e começar a reconhecer o seu imenso potencial.

© FAO/Eduardo Soteras
Dependência global dos combustíveis fósseis transforma as guerras no exterior em crise imediata para as famílias

O arquipélago já está fazendo a sua parte. Mesmo sufocado pelo endividamento e com orçamentos limitados, o país avança com a criação de oito novas áreas de proteção marinha. 

A ministra apresenta a nação santomense como verdadeira guardiã de um patrimônio natural da humanidade. Ao lutar para preservar os ecossistemas contra a elevação do nível do mar, o país acaba protegendo uma comunidade global que, paradoxalmente, tem falhado em protegê-lo.

Ultimato ao multilateralismo e à diplomacia

A ministra Ilza Maria dos Santos sublinhou em seu discurso que diante da escalada das crises humanitárias e climáticas, o multilateralismo tem a obrigação de funcionar. Problemas globais exigem respostas globais urgentes.

Ela reforçou que a paz deve prevalecer sobre os conflitos não apenas por um imperativo moral, mas porque a estabilidade é a base essencial para promover o desenvolvimento econômico capaz de salvar vidas.

Enquanto o oceano ameaça invadir seu território, São Tomé e Príncipe lança uma “boia de lucidez”, destacando aos líderes globais que a humanidade compartilha o mesmo barco. A condição é que todos aprendam a remar em conjunto, ou naufraguem todos na mesma tempestade. 

Para a ministra, o momento atual exige trocar donativos por parcerias estratégicas, e os discursos vazios pela ação climática real.



Fonte ==> Gazeta

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