O Wollying na era digital

Myrinha Vasconcellos em ambiente corporativo durante reunião híbrida, cenário que representa o WOLLYING e a exclusão psicológica velada no trabalho.

Como o trabalho híbrido sofisticou a violência psicológica velada.

A transformação digital acelerou os modelos de negócios, eliminou barreiras geográficas e consolidou o trabalho híbrido como uma realidade definitiva. No entanto, a mesma tecnologia que confere agilidade aos processos corporativos também serve como pano de fundo para a sofisticação de comportamentos invisíveis.

Longe dos olhos dos gestores e dos canais oficiais de denúncia, a hostilidade psicológica mútua migrou para as telas. Esse desdobramento contemporâneo da exclusão e do silenciamento sistemático nos bastidores do mercado atende por uma expressão necessária: WOLLYING: Fenômeno Social.

Para compreender a transição dessa dinâmica do ambiente físico para o virtual, é preciso recorrer à ciência do comportamento. A psicologia social conceitua a agressão relacional intragênero, como uma violência que prescinde da força física, operando por meio da destruição sutil de reputações e do isolamento social dentro do mesmo grupo de gênero.

No ambiente analógico, ela dependia da proximidade cênica: o olhar de desaprovação na mesa de reuniões ou o cochicho no corredor. No ecossistema digital, contudo, o fenômeno desmaterializou-se, tornando-se mais dissimulado e de difícil rastreio pelas ferramentas tradicionais de compliance.

O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han, ao analisar as patologias da era digital em suas obras, aponta que a hiperconexão virtual paradoxalmente isola os indivíduos. Atrás de uma tela, as interações humanas perdem a empatia imediata, criando o ambiente perfeito para que a desumanização opere sem fricção.

No cotidiano corporativo, esse isolamento digital se manifesta na exclusão deliberada de profissionais de grupos secundários de mensagens, no silenciamento estratégico durante chamadas de vídeo, onde a fala de uma colega é ignorada ou cortada, e no “esquecimento” planejado de incluir determinadas colaboradoras em e-mails cruciais de tomada de decisão. Trata-se de uma intimidação sistemática que não deixa marcas físicas, mas que aniquila a autoconfiança de quem a sofre.

Ignorar a mutação digital dessa agressão relacional é um erro grave de governança. De nada adianta as organizações celebrarem indicadores de diversidade em seus relatórios de sustentabilidade se os seus bastidores digitais toleram o boicote passivo-agressivo. O esgotamento gerado por esse isolamento invisível sabota a inovação, eleva os índices de absenteísmo e drena o capital intelectual feminino das empresas. O que se passa nas frestas das ferramentas de comunicação corporativa impacta diretamente o valor de mercado das organizações.

Frente a essa complexidade, a resposta mais eficaz reside na educação e no fortalecimento coletivo. O Instituto Quais de Mim Você Procura (IQDM), sustentado por uma rede viva de mais de 1.700 mulheres, atua ativamente na linha de frente desse diagnóstico. O foco do Instituto é promover a conscientização contínua de sua comunidade, capacitando as mulheres a identificarem e desarmarem essas dinâmicas de exclusão, seja no escritório físico ou nas plataformas virtuais.

Ao lançar luz sobre o WOLLYING e tratá-lo firmemente como o fenômeno social que ele é, o IQDM reafirma que a construção de um ambiente de trabalho sustentável exige, acima de tudo, o resgate da ética e da segurança psicológica em todas as suas dimensões — inclusive nas digitais.


Escrito por
Myrinha Vasconcellos


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