Nem todo sofrimento faz barulho: reconhecer os sinais também é uma forma de cuidado

Leandro Alfredo Nicoladeli

No Setembro Amarelo, o psicólogo clínico Leandro Alfredo Nicoladeli destaca a importância da identificação precoce, da prevenção e de ações concretas de saúde mental, especialmente por meio da psicoterapia.

Há pessoas que continuam trabalhando, respondendo mensagens, cuidando da casa e cumprindo todos os compromissos. Por fora, a vida parece seguir normalmente. Por dentro, porém, algo já não está bem. O sono deixa de descansar, a disposição diminui, o corpo começa a reclamar e aquilo que antes era simples passa a exigir um esforço cada vez maior.

Nem sempre esse sofrimento encontra palavras. Às vezes, aparece em um “estou cansado” repetido todos os dias. Em outras, no afastamento de pessoas queridas, na irritação constante ou na sensação de que é preciso dar conta de tudo, mesmo quando já não se sabe como.

É sobre essa dor, muitas vezes silenciosa, que o Setembro Amarelo também precisa falar. Mas a conscientização não termina em reconhecer que alguém está sofrendo. Ela precisa ajudar a identificar sinais, compreender quando procurar ajuda e mostrar quais caminhos de cuidado podem ser construídos.

Setembro amarelo

Para o psicólogo clínico Leandro Alfredo Nicoladeli, a prevenção em saúde mental envolve justamente essa atenção antes que o sofrimento se agrave. A psicoterapia pode fazer parte desse processo ao oferecer um espaço profissional para compreender o que está acontecendo, reconhecer padrões e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com as dificuldades.

Quando a vida continua, mas algo pede atenção

Uma das dificuldades de perceber o sofrimento emocional é que ele nem sempre interrompe a rotina. Muitas pessoas seguem produzindo, estudando e assumindo responsabilidades enquanto convivem com ansiedade persistente, esgotamento, alterações no sono ou perda de motivação.

Com o tempo, é possível que esses sinais sejam incorporados ao cotidiano. O cansaço vira “fase”, a falta de energia parece apenas consequência do trabalho e o desconforto emocional acaba sendo deixado para depois.

Isso não significa que toda mudança seja sinal de um transtorno. Significa que aquilo que persiste, causa sofrimento ou começa a prejudicar a vida merece ser observado com atenção.

Mudanças importantes no comportamento, isolamento, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações persistentes no sono e na alimentação, dificuldade de concentração e sensação frequente de desesperança são exemplos de sinais que podem indicar a necessidade de avaliação profissional. Quando alguém fala sobre morte, manifesta desejo de desaparecer ou demonstra que não consegue mais suportar a própria dor, a situação exige atenção ainda mais cuidadosa.

Na prática clínica de Leandro, questões como ansiedade, esgotamento emocional e manifestações psicossomáticas fazem parte das demandas acompanhadas. Sua trajetória, iniciada após a graduação em Psicologia pela PUC-PR, em 2005, também inclui formação em Psicoterapia Corporal, Hipnose e Psicomotricidade, conhecimentos que contribuem para uma compreensão integrativa do indivíduo.

Prevenir também é agir antes da crise

A prevenção não depende apenas de grandes intervenções. Ela pode começar quando uma pessoa percebe que não está conseguindo lidar com determinadas situações e decide procurar ajuda, em vez de esperar que o sofrimento se torne insuportável.

No âmbito da psicoterapia, esse cuidado pode envolver a identificação de fatores que contribuem para o sofrimento, a compreensão de emoções e comportamentos, o reconhecimento de padrões que se repetem e o desenvolvimento de recursos para enfrentar situações difíceis.

Também pode incluir a construção de estratégias para lidar com o estresse, estabelecer limites, melhorar a comunicação nos relacionamentos e reconhecer necessidades que vêm sendo deixadas de lado. Essas ações não seguem uma fórmula única: são construídas conforme a história, as demandas e as condições de cada paciente.

A psicoterapia também pode ajudar a perceber quando outros cuidados são necessários. Em determinadas situações, o acompanhamento psicológico pode ser articulado com avaliação médica, psiquiátrica ou outros serviços de saúde, respeitando as necessidades de cada caso.

Psicólogo Leandro Nicoladeli

A pergunta que pode abrir uma conversa

Quando alguém próximo demonstra que não está bem, nem sempre é fácil saber o que dizer. Existe a vontade de ajudar, mas também o receio de tocar em um assunto delicado.

Muitas vezes, a tentativa de oferecer uma solução rápida acaba produzindo o efeito contrário. Frases como “você precisa ser forte” ou “tem gente passando por coisa pior” podem fazer com que a pessoa se sinta ainda menos compreendida.

Acolher não exige ter todas as respostas. Pode começar com uma pergunta sincera, com disponibilidade para ouvir e com o cuidado de não transformar a dor do outro em comparação.

Quando há sinais de sofrimento importante, porém, a escuta precisa vir acompanhada de atitudes concretas. Incentivar a busca por atendimento, ajudar a encontrar um profissional, oferecer companhia e manter contato são maneiras de transformar preocupação em cuidado. Se houver risco imediato de suicídio, a pessoa não deve ser deixada sozinha, e é necessário procurar um serviço de emergência.

Essa escuta também faz parte da proposta clínica de Leandro. O trabalho parte do acolhimento, da compreensão da história de vida e da construção conjunta do processo psicoterapêutico. Em vez de tratar o paciente como alguém que apenas recebe orientações, a proposta é reconhecer sua participação ativa nas decisões relacionadas ao próprio cuidado.

O corpo também participa dessa história

Há momentos em que o sofrimento aparece antes no corpo do que nas palavras. O sono muda, a alimentação se altera, a tensão se acumula e o organismo parece acompanhar aquilo que a pessoa ainda não conseguiu elaborar.

Isso não significa que sintomas físicos devam ser automaticamente atribuídos às emoções. Eles precisam ser avaliados de maneira adequada. Mas considerar a relação entre corpo e mente pode ampliar a compreensão do que alguém está vivendo.

A formação de Leandro em Psicoterapia Corporal e Psicomotricidade contribui para essa perspectiva integrativa. Em seu trabalho, a atenção não se limita a um sintoma isolado, mas considera também a rotina, as emoções, os relacionamentos e a história de cada paciente.

Duas pessoas podem atravessar situações semelhantes e reagir de formas muito diferentes. Por isso, o cuidado não precisa seguir um roteiro igual para todos.

O que a psicoterapia pode ajudar a construir

A psicoterapia não precisa ser procurada apenas quando a pessoa já não consegue continuar. Ela também pode ser um espaço de prevenção, autoconhecimento e acompanhamento diante de dificuldades que começam a afetar a qualidade de vida.

Ao longo do processo, paciente e profissional podem identificar situações que intensificam o sofrimento, compreender respostas emocionais e comportamentais e construir estratégias mais adequadas para lidar com elas. O acompanhamento também permite observar mudanças ao longo do tempo e reavaliar o cuidado quando necessário.

Para Leandro, essa construção precisa respeitar a singularidade de cada pessoa. Não se trata de oferecer respostas prontas, mas de compreender o que aquela experiência significa para quem a vive e quais possibilidades de cuidado fazem sentido para sua realidade.

Pedir ajuda não precisa ser o último recurso

O Setembro Amarelo amplia uma conversa necessária, mas o sofrimento emocional não acompanha o calendário. Ele pode surgir em qualquer mês, em qualquer fase da vida, inclusive quando tudo parece estar bem aos olhos dos outros.

Procurar psicoterapia não exige esperar uma crise. O acompanhamento pode oferecer um espaço para compreender emoções, reconhecer padrões de comportamento, refletir sobre relações e encontrar maneiras de lidar com momentos difíceis.

Para quem sente que vem adiando esse cuidado, talvez a pergunta não seja “será que meu problema é grave o suficiente?”, mas “o que eu preciso compreender sobre o que estou vivendo?”.

Leandro realiza atendimentos presenciais em Curitiba e também online, possibilitando o acompanhamento de pessoas em outras regiões do Brasil. Seu trabalho é voltado à construção de um espaço de escuta, respeito e participação, no qual cada paciente possa olhar para a própria experiência sem a exigência de ter tudo resolvido antes de começar.

O Setembro Amarelo termina, mas a necessidade de ser ouvido não. Reconhecer sinais, procurar ajuda e construir formas de cuidado são atitudes que podem acontecer durante todo o ano. E, às vezes, o primeiro movimento é justamente permitir que aquilo que vem sendo carregado em silêncio encontre um lugar para ser dito.

Atendimentos e informações: leandroalfredonicoladeli.com

Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento intenso ou em risco imediato, procure um serviço de emergência. As Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) oferecem atendimento gratuito e funcionam 24 horas por dia.

No Brasil, o CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188.

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