Luas de Netuno colidiram no passado, indica James Webb – 03/08/2026 – Ciência

Imagem do planeta Netuno mostrando sua coloração azul intensa com faixas claras e uma mancha escura visível no hemisfério superior direito. O fundo é completamente preto, destacando o planeta.

Novas observações de algumas das luas e dos anéis de Netuno forneceram evidências de uma catástrofe ocorrida há bilhões de anos nas imediações do planeta mais distante do Sistema Solar. Esses sinais estão descritos em um estudo publicado no último dia 29 na revista Science Advances.

Pesquisadores utilizaram o Telescópio Espacial James Webb, da Nasa, para examinar a composição de três das pequenas luas internas de Netuno —Proteu, Larissa e Galateia— e de seus anéis internos. Eles detectaram minerais argilosos. O material, rico em magnésio, já havia sido encontrado no planeta anão Ceres, que orbita no cinturão principal de asteroides entre Marte e Júpiter, e em alguns meteoritos.

“Esses minerais requerem contato prolongado entre água líquida e rocha para se formarem”, disse a cientista planetária Ryleigh Davis, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade da Califórnia em San Diego (Estados Unidos). Ela é a principal autora do novo estudo e trabalhou nele enquanto estava no Caltech

“As próprias luas são pequenas e frias demais para que essa reação química tenha ocorrido no local, então a argila teve que vir de outro lugar, do interior profundo de um mundo antigo muito maior”, explicou ela.

“A descoberta desse material nas luas internas de Netuno aponta para um evento catastrófico no passado do planeta, que destruiu um mundo antigo e expôs seu interior profundo, enquanto as pequenas luas e os anéis que vemos hoje se formaram a partir desses destroços”, disse Davis, que trabalhou no estudo quando estava no Caltech.

Ela e os demais autores do estudo afirmaram que o responsável por esse cataclismo parece ser Tritão. Maior lua de Netuno, antes o satélite se encontrava mais distante no Sistema Solar, em uma região chamada Cinturão de Kuiper.

Segundo eles, em algum momento durante os primeiros bilhões de anos depois da formação do Sistema Solar, há cerca de 4,5 bilhões de anos, a atração gravitacional de Netuno capturou Tritão.

O satélite é um pouco maior que Plutão, outro habitante do Cinturão de Kuiper, embora seja menor que a Lua da Terra.

Após ser capturado, as próprias forças gravitacionais de Tritão agitaram as luas originais de Netuno e fizeram com que a maioria delas colidisse entre si. Então, as atuais luas internas do planeta acabaram se formando a partir de alguns dos detritos resultantes.

“O interior das grandes luas geladas normalmente fica permanentemente oculto de nós, enterrado sob espessas camadas de gelo de água e acessível apenas por meio de modelos e inferências. As luas internas de Netuno podem ser o único lugar no Sistema Solar onde podemos observar diretamente esse material, porque esse evento catastrófico basicamente virou esses objetos do avesso”, disse Davis.

Tritão é a única lua grande do Sistema Solar que orbita na direção oposta à rotação de seu planeta. Esse fato fornece mais evidências de que o satélite foi capturado após se formar em outro lugar, em vez de ter se formado como uma das luas originais de Netuno.

Os outros três grandes planetas gasosos —Júpiter, Saturno e Urano— possuem, cada um, um sistema de grandes luas que se formaram ao redor deles, orbitando em uma trajetória aproximadamente circular na mesma direção em que o planeta gira.

“Netuno é o único planeta gigante do Sistema Solar sem um sistema ordenado de grandes satélites regulares”, afirmou Davis. “Portanto, Netuno acabou tendo um intruso capturado dominando seu sistema de satélites, em vez da família ordenada de luas que vemos nos outros planetas gigantes.”

Tritão representa mais de 99% da massa de todo o sistema de satélites de Netuno —suas luas e anéis.

A história das luas de Netuno, segundo Davis, é um lembrete de que o Sistema Solar tem uma história violenta. “É um exemplo vívido de como um único evento aleatório pode alterar fundamentalmente a arquitetura de um sistema planetário.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

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