Bennu: da dádiva do conhecimento ao risco da destruição

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Na mitologia grega, Prometeu rouba o fogo dos deuses e o entrega à humanidade. O fogo é, ao mesmo tempo, uma dádiva e um perigo. Ele permite o surgimento da civilização, mas também pode destruí-la. Hoje vamos conhecer um asteroide que parece carregar essa mesma dualidade: Bennu, que ao mesmo tempo é considerado um dos asteroides mais perigosos que conhecemos, também pode nos ajudar a encontrar a resposta para uma das questões mais antigas da humanidade: a origem da vida na Terra. Poucas rochas espaciais escondem, ao mesmo tempo, tanto perigo e tanto conhecimento. 

Com cerca de 500 metros de diâmetro, Bennu pertence à categoria dos chamados NEOs, a sigla em inglês para “asteroides próximos da Terra”. Atualmente é considerado um dos mais perigosos pelo Sentry, o sistema da NASA que monitora os riscos de impacto de asteroides com nosso planeta.

Asteroide Bennu registrado pela Sonda OSIRIS-Rex – Créditos: NASA

Sua história começou em 1999, quando foi descoberto pelo projeto LINEAR, um programa dedicado à busca de objetos potencialmente perigosos para a Terra. Inicialmente ele recebeu a designação provisória 1999 RQ36. Seu nome definitivo surgiu apenas em 2013, após um concurso promovido pela Sociedade Planetária, quando a NASA se preparava para enviar a sonda OSIRIS-Rex até o asteroide.

O estudante, de apenas nove anos, Michael Puzio, sugeriu Bennu, em referência à divindade da mitologia egípcia de mesmo nome e que é representada por uma garça. Segundo Puzio, a sonda OSIRIS-Rex, com seus painéis solares abertos e braço robótico estendido, se assemelhava com a ave mitológica em voo, se preparando para pousar.

Mas o que torna Bennu tão especial para merecer ser estudado de perto?

Desde que foi descoberto, esse asteroide se tornou alvo preferencial de estudos. Ainda em 1999, durante sua aproximação da Terra, Bennu foi extensivamente observado pelos radiotelescópios de Arecibo e Goldstone. As imagens de radar e os estudos espectrográficos revelaram um asteroide carbonáceo, com cerca de 500 metros e formato de pião. 

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Uma compilação de imagens de radar do Benu, à esquerda, e um modelo 3D correspondente, à direita – Crédito: Michael C. Nolan / Arecibo Observatory

Os pesquisadores acreditam que ele seja um fragmento remanescente dos primeiros momentos da formação do Sistema Solar. Quando o Sol começou a produzir calor, cerca de 4,5 bilhões de anos atrás, parte da nuvem de poeira que o circundava foi derretida, mas na região onde Bennu se formou, a temperatura não era tão alta, apenas o suficiente para derreter o gelo. A água agregou as partículas de poeira formando uma espécie de argila, que preservou praticamente intacta, a química da nuvem primordial de onde se originaram os planetas e luas do nosso Sistema Solar. 

Bennu é formado principalmente dessa argila, mas não é uma massa coesa e homogênea. Ele é o que os astrônomos chamam de “pilha de entulhos”, um amontoado de rochas de diferentes tamanhos unidas pela gravidade. Bennu é provavelmente o resultado de uma colisão ocorrida bilhões de anos atrás no cinturão principal, entre Marte e Júpiter. Com o passar do tempo, os fragmentos desse impacto se aglomeraram formando o asteroide. Perturbações gravitacionais acumuladas ao longo de vários milhões de anos alteraram sua órbita até colocá-lo nas proximidades do nosso planeta. 

Seu formato semelhante a um pião, se deve à sua rápida rotação, gastando apenas 4,3 horas para completar uma volta em torno de si mesmo. A força centrífuga gerada faz com que os fragmentos que o compõem se acumulem mais em sua região equatorial. Durante o período em que a Sonda OSIRIS-Rex orbitou Bennu, chegou a registrar que o asteroide perde material para o espaço, provavelmente pela intensidade da força centrífuga gerada por sua rotação. Mas essa foi apenas uma das descobertas realizadas pela Missão da NASA, que transformou Bennu em uma celebridade científica.

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Registro do asteroide Bennu ejetanto partículas para o espaço – Crédito: NASA

Lançada em 2016, a missão OSIRIS-REx tinha um objetivo ambicioso: visitar o asteroide, coletar material de sua superfície e trazer essas amostras para a Terra. A espaçonave chegou a Bennu em dezembro de 2018 e passou quase dois anos estudando o objeto em detalhes sem precedentes.

A missão mapeou toda a superfície do asteroide, analisou sua composição química, mediu sua estrutura interna e, em outubro de 2020, realizou a etapa mais importante da missão. Seu braço robótico tocou a superfície de Bennu e coletou material suficiente para ser armazenado em uma cápsula de retorno. Em setembro de 2023, essa cápsula pousou com sucesso no deserto de Utah, trazendo para a Terra as amostras do asteroide, que já vêm revelando descobertas extraordinárias. 

Além de minerais formados na presença de água, os cientistas encontraram uma grande variedade de compostos orgânicos, incluindo aminoácidos e outras moléculas que são fundamentais para a formação da vida. Isso não significa que Bennu contenha vida ou evidências dela. Mas indica que os ingredientes desta receita, podem ter sido trazidos do espaço, e entregues em domicílio por asteroides como o Bennu. 

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Cápsula de retorno de amostras da OSIRIS-Rex com fragmentos do asteroide Bennu – Crédito: NASA

Bennu preserva em seu amontoado de rochas espaciais, registros de uma época anterior ao surgimento dos oceanos, dos continentes e das primeiras formas de vida na Terra.  Estudar suas amostras é como abrir uma cápsula do tempo com mais de quatro bilhões e meio de anos. Nos traz a dádiva do conhecimento, mas como o fogo de Prometeu, também representa o risco da destruição. 

Estudos da sua evolução orbital mostram que a partir do final do próximo século, Bennu inicia uma série de 157 aproximações perigosas do nosso planeta. O risco acumulado de impacto é inferior a 0,06%, mas por ser um asteroide de 500 metros, com potencial destrutivo equivalente a 100 mil bombas como a de Hiroshima, é um risco que não pode ser desprezado. Por isso, Bennu atualmente é o segundo asteroide na tabela de risco do Sentry, atrás apenas do 1950 DA. 

Se atingisse nosso planeta, Bennu poderia gerar consequências extremamente graves em escala regional e continental. Não seria nosso fim, mas certamente seria uma das maiores catástrofes enfrentadas pela civilização humana.

Talvez seja essa dualidade que faz de Bennu um asteroide tão fascinante. Ele nos lembra que essas rochas espaciais são muito mais do que potenciais ameaças. Elas são testemunhas da formação do Sistema Solar e arquivos naturais que preservam informações sobre os processos que deram origem aos planetas e, talvez, da própria vida aqui na Terra.

E assim como o fogo de Prometeu, Bennu nos oferece o conhecimento sobre nossas origens, mas que também nos lembra da responsabilidade de proteger o nosso futuro. Porque compreender o Universo não é apenas descobrir de onde viemos. É também aprender a preservar o único lar que conhecemos.  

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Fonte ==> Olhar Digital

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