Em 10 de agosto de 2025, um ponto no sudeste do Alasca entrou para a história. No fiorde Tracy Arm, um deslizamento de terra desencadeou o segundo maior tsunami já registrado. A onda alcançou 481 metros de altura, segundo um estudo publicado nesta quarta (6) na revista Science.
Para ter uma dimensão do que a marca representa, o edifício mais alto da cidade de São Paulo, o Platina 220, tem 172 metros de altura, e o Cristo Redentor, no Rio, meros 38 metros.
O fiorde fica dentro da Floresta Nacional de Tongass. Ali há uma estreita enseada marítima cercada por penhascos de granito, cachoeiras e geleiras. O local é um destino turístico popular. Mas, como o tsunami ocorreu no início da manhã, não havia navios de cruzeiro ou outras embarcações por ali e ninguém ficou ferido.
O tsunami avançou pelo fiorde, arrancando violentamente a vegetação das íngremes paredes rochosas. O deslizamento de terra que o causou está ligado, segundo cientistas, às mudanças climáticas. A geleira que sustentava a montanha recuou em razão do aumento das temperaturas, deixando a rocha sem apoio.
“O fato de o deslizamento ter ocorrido tão cedo foi uma sorte inacreditável. Da próxima vez, e haverá uma próxima vez, talvez não tenhamos tanta sorte”, disse o geomorfologista Dan Shugar, da Universidade de Calgary (Canadá), autor principal da pesquisa.
Sem fotografias ou gravações de vídeo do tsunami, os cientistas reconstruíram os eventos com base em dados de satélite e sísmicos e, também, de fotos aéreas feitas posteriormente. Além disso, eles estiveram no local e colheram relatos de pessoas que estavam nas proximidades na época.
Tracy Arm está a cerca de 80 km ao sul de Juneau, capital do Alasca. O fiorde tem aproximadamente 40 km de extensão e 1 km de largura, com penhascos ao redor de mais de mil metros de altura.
Os pesquisadores determinaram a altura da onda medindo onde a vegetação havia sido arrancada, causando uma série de cicatrizes nas paredes rochosas. A onda subiu tão alto porque o imenso volume de água deslocado pelas rochas no deslizamento foi comprimido através de um espaço confinado.
“A vegetação completamente arrancada, como uma marca de banheira ao redor do fiorde, é provavelmente a diferença mais marcante em como o fiorde aparenta agora em comparação com o ano passado, a menos que você estivesse mergulhando e pudesse ver o enorme depósito [de rochas] no fundo do oceano”, disse Shugar.
“A vegetação arrancada forma basicamente uma linha muito nítida, abaixo da qual há apenas rocha, sedimentos e alguns tocos de árvores, e acima da qual está a floresta virgem, intacta como estava em 9 de agosto, antes do tsunami. Como dois mundos diferentes”, disse Shugar.
Em torno de 64 milhões de metros cúbicos de rocha desmoronaram em um minuto. Isso equivale a 24 vezes o volume da Grande Pirâmide de Gizé, segundo o geofísico da University College London e coautor do estudo, Stephen Hicks.
“Esse colapso gerou uma onda sísmica observada ao redor do mundo”, afirmou Hicks.
Algumas ondas ficaram presas no fiorde, causando uma oscilação da água (tecnicamente, chamada de seiche) que durou vários dias e criou uma onda sísmica distinta, de acordo com o geofísico.
Um tsunami semelhante gerado por deslizamento de terra no fiorde Dickson, na Groenlândia, em 2023, culminou em uma onda de cerca de 200 metros de altura e um seiche.
Tsunamis são ondas gigantes causadas por terremotos ou erupções vulcânicas no fundo do mar ou por deslizamentos de terra. O mais alto já registrado —de 520 metros— também foi um evento localizado, na baía de Lituya, no Alasca, em 1958, depois de um deslizamento de terra.
Em mar aberto, o fenômeno pode percorrer grandes distâncias e causar danos costeiros devastadores e perda de vidas. O tsunami de 2004 no oceano Índico, provocado por um terremoto, matou cerca de 230 mil pessoas e atingiu 51 metros em Sumatra. O de 2011 no Japão, também decorrente de um terremoto, matou mais de 15 mil pessoas e chegou a cerca de 40 metros.
“Tsunamis causados por grandes terremotos ocorrem porque uma falha na crosta rompe o fundo do mar, provocando o deslocamento vertical da água acima dela. No caso de eventos de deslizamento de terra, é o colapso de material de cima da água para dentro da água que cria a onda”, afirmou Hicks.
Os dados sísmicos mostraram que havia sinais de alerta antes do deslizamento de terra em Tracy Arm. “Descobrimos que o deslizamento foi precedido por cerca de uma semana de pequenos terremotos indicando fraturas na massa que no fim deslizaria. Isso nos dá uma possível esperança de desenvolver sistemas de alerta e previsão, em conjunto com outras observações”, disse Hicks.
Fonte ==> Folha SP – TEC