Descoberto novo gênero de caranguejo a 1.730 m na amazônia – 16/04/2026 – Ciência

Caranguejo marrom com corpo largo e achatado, exibindo duas grandes garras abertas e oito pernas finas e articuladas, posicionado sobre fundo preto.

Uma expedição a um dos lugares mais isolados da amazônia revelou um novo caranguejo-de-água-doce que vive a 1.730 metros de altitude.

O animal foi batizado de Okothelphusa trefauti —o nome do gênero vem de “Oko”, que significa caranguejo no idioma ianomâmi, e “thelphusa”, como são chamados os caranguejos-de-água-doce, e a espécie homenageia o herpetólogo Miguel Trefaut Rodrigues, que liderou a expedição.

O espécime estava no segundo maior pico do Brasil, na serra do Imeri, localizado no estado do Amazonas, na fronteira com a Venezuela e Guiana, atrás do pico da Neblina.

A descoberta, descrita na última sexta-feira (10) na revista Zootaxa, não se resume a uma nova espécie. Também levou a um novo gênero de caranguejo da família Pseudothelphusidae que inclui diversos crustáceos na América do Sul em riachos montanhosos. No caso do Brasil, são 30 espécies conhecidas, com 16 delas vivendo acima de 300 metros de altitude.

Na análise, liderada pelo zoólogo Marcos Tavares, professor do MZUSP (Museu de Zoologia da USP), os novos achados corroboram a inclusão do caranguejo em um gênero novo —algo considerado mais raro na taxonomia.

Segundo Tavares, representantes de Pseudothelphusidae são relativamente bem conhecidos, mas há ainda muitas espécies endêmicas de cumes, pouco estudadas justamente pela dificuldade de encontrá-las. “A localidade [do Imeri] é muito pouco conhecida, e são raras as chances de obter registros de lá.”

Durante a expedição, feita em 2022, a equipe de cientistas —da qual Tavares não participou— fazia a coleta de girinos no córrego na mata de altitude quando encontrou três indivíduos de caranguejo: um macho e duas fêmeas (uma juvenil). Os espécimes foram levados para a coleção de carcinologia (estudo de crustáceos) do MZUSP, a maior da América Latina em termos de diversidade de espécies.

Tavares conta que, ao receber esse material, notou que estava diante de algo incomum: era um provável Microthelphusa, gênero usado para classificar provisoriamente espécies cujos integrantes ainda geram confusões e incertezas em sua classificação taxonômica. “Não era evidente de imediato que se tratava de um gênero novo. Mas, conforme o estudo avançou, ficou claro que era muito diferente de tudo que já se conhecia.”

Embora o novo animal se pareça externamente com espécies do gênero Microthelphusa, uma análise da morfologia e de dados genéticos mostrou que ele é uma linhagem distinta. O estudo também levou à reclassificação de duas espécies venezuelanas que antes eram classificadas como Microthelphusa: O. marahuacaensis e O. guaiquinimaensis.

“Todos os estudos taxonômicos [de definição de espécies a partir da comparação morfológica] do grupo são baseados no estudo dos órgãos masculinos, chamados de gonópodos. Por isso foi uma sorte muito grande eles terem encontrado um exemplar macho.”

Diferentemente das lagostas (outro grupo de crustáceos decápodes), os caranguejos possuem um abdômen extremamente reduzido e dobrado sob o corpo, sem função de locomoção —nos machos, os apêndices abdominais são modificados para a inseminação e recebem o material espermático por meio de um duto ligado à gônada, que se abre externamente na base do último par de patas.

“Esse apêndice abdominal masculino, cuja função é exclusivamente reprodutiva, é de grande relevância para a classificação das espécies por apresentar características específicas de cada táxon”, explica.

Ainda de acordo com ele, O. trefauti não vive o tempo inteiro dentro d’água, pelo contrário: ele teria um hábito de rastejar em ambiente terrestre e por pequenas galerias, e se alimenta de pequenos invertebrados, como larvas de insetos, e outros invertebrados aquáticos.

Como os Pseudothelphusidae possuem desenvolvimento direto, sem fase larval, a sua dispersão é limitada, e o grupo concentra muitas espécies endêmicas, muitas vezes restritas a um único cume.

A descoberta reforça o papel das áreas de altitude da amazônia como refúgios de biodiversidade ainda pouco conhecida —e vulnerável.

Segundo o pesquisador, mudanças ambientais como o desmatamento e o aquecimento global podem afetar diretamente esses habitats isolados, aumentando o risco de extinções locais antes mesmo que novas espécies sejam descritas.

“Esses encontros são raros e muitas vezes fortuitos. E justamente esses ambientes estão entre os mais ameaçados pelas mudanças climáticas”, diz.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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