Startup Day em Sorocaba mostra que inovação também é feita de pessoas | ASN São Paulo

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Foi nesse contexto que as trajetórias de Marília Lara, fundadora da Stattus4, e Janaine Nascimento, CEO da Hoff Analytics, ganharam protagonismo. Atuando em setores tradicionalmente masculinos, como saneamento básico e construção civil, elas mostraram como tecnologia, propósito e coragem podem caminhar juntos.

“Eu sempre quis uma empresa que fizesse sentido”

Marília costuma brincar que empreende desde criança. Filha de empresário, cresceu entre reuniões, decisões e o cotidiano de uma empresa familiar. Mas foi ainda na infância, durante os debates da Eco 92, que algo se fixou de forma definitiva: a ideia de que empresas poderiam e deveriam gerar impacto positivo. “Eu sempre pensava que queria ter um negócio em que, quanto melhor ele fosse, melhor ele faria para o mundo”, contou durante o painel.

Marília Lara, fundadora da Stattus4

Essa convicção se tornou a base da startup que ela fundou ao lado do sócio e marido, Antônio Oliveira. A proposta era ambiciosa desde o início: usar inteligência artificial para combater o desperdício de água, um problema estrutural que afeta cidades inteiras e milhões de pessoas. Quando a empresa começou, ainda em meados da década passada, falar em inteligência artificial aplicada ao saneamento parecia algo distante, quase abstrato.

O primeiro grande desafio foi cultural. Explicar o que a empresa fazia exigia quase uma aula introdutória. “As pessoas achavam que inteligência artificial era coisa de filme. Ninguém acreditava que um sistema pudesse analisar dados e gerar decisões práticas”, relembrou. A dificuldade era ainda maior por atuar em um mercado altamente tradicional, formado majoritariamente por empresas públicas, onde o risco costuma ser evitado.

A tecnologia desenvolvida pela startup funciona a partir da análise de dados de pressão, vazão e ruídos captados diretamente na rede de distribuição de água, permitindo identificar vazamentos invisíveis a olho nu. Marília costuma explicar a solução de forma simples: é como um “Shazam de vazamentos”, capaz de reconhecer padrões sonoros típicos de perdas antes que elas se tornem grandes problemas. Hoje, estima-se que cerca de 40% da água tratada no Brasil se perca no caminho entre a estação e a torneira.

O sistema, que utiliza sensores instalados nos hidrômetros e um banco com milhões de amostras sonoras, consegue reduzir em até 70% as perdas de água e diminuir drasticamente o tempo de detecção de falhas. Vazamentos que antes poderiam levar meses para serem localizados passam a ser identificados em poucos dias. A tecnologia já é aplicada em cidades do interior paulista, como Votorantim, Jundiaí e Itapetininga, além de estar presente em outros estados e países.

Mas, para Marília, o impacto nunca esteve restrito ao produto. Ao longo da conversa, ela ampliou o conceito, falando sobre cultura organizacional, diversidade e responsabilidade social. Com uma equipe de cerca de 40 pessoas, a empresa busca refletir internamente a sociedade que existe fora dela, com equilíbrio de gênero na liderança, presença significativa de pessoas negras e LGBTQIA+ e políticas de equidade salarial.

Essa visão foi colocada à prova durante a pandemia, quando a empresa perdeu cerca de 70% do faturamento. “Tecnicamente, eu fali. Só não contei para ninguém”, contou, sem romantizar o período. A travessia foi possível pela relação construída com a equipe, pela confiança mútua e por decisões difíceis tomadas com transparência. “Se não fosse o compromisso das pessoas, a empresa não teria atravessado aquele momento.”

Em janeiro deste ano, a startup ganhou reconhecimento internacional ao vencer o Prêmio Zayed de Sustentabilidade, em Abu Dhabi, na categoria água, recebendo US$ 1 milhão para ampliar o alcance da solução. Para Marília, o prêmio simboliza mais do que uma conquista financeira: representa a validação de uma trajetória construída com persistência, propósito e impacto concreto.

Ao longo da jornada, ela também falou sobre um desafio menos visível, mas constante: a autossabotagem. Deu nome à voz interna que insiste em questionar, diminuir e cobrar perfeição, a “Sandra”. Aprender a conviver com essa voz, segundo ela, foi tão importante quanto aprender sobre tecnologia ou mercado. Parte desse processo veio ao se cercar de outras mulheres empreendedoras. “Empreender é muito solitário. Ter com quem dividir faz toda a diferença.”

Apostar tudo e construir o caminho

A trajetória de Janaine Nascimento começa longe do universo das startups. Com carreira consolidada no mercado imobiliário, ela acumulava experiência e estabilidade quando decidiu, ao lado do marido, mudar completamente de rota. A motivação veio da percepção de um problema recorrente na construção civil: empresas investiam tempo, energia e recursos sem saber exatamente para quem vender.

Janaine Nascimento, CEO da Hoff Analytics

A decisão de empreender foi radical. Janaine abandonou a segurança de uma carreira estruturada para apostar todas as fichas em um negócio ainda em construção. “Não existia plano B. A gente confiou no sonho e foi”, relembrou. O risco era alto, especialmente em um setor marcado por ciclos longos, baixa digitalização e resistência à mudança.

Foi a partir dessa dor concreta que nasceu a Hoff Analytics, startup criada para transformar dados públicos, registros de obras e informações dispersas em inteligência de mercado. A plataforma monitora construções, reformas e projetos em todo o país, organizando essas informações para que empresas identifiquem oportunidades, entendam o estágio de cada obra e avaliem o potencial de consumo envolvido.

No início, o desafio não era apenas técnico, mas de credibilidade. Janaine ouviu repetidas vezes que a ideia era inviável. “Diziam que era impossível, que se grandes empresas nunca tinham feito aquilo, uma startup também não conseguiria”, contou. A virada veio com uma escolha estratégica que exigiu firmeza: a Hoff Analytics nunca ofereceu testes gratuitos. Cada prova de conceito foi paga. “Se não paga, não valoriza. E quando testaram, viram que funcionava.”

Com o avanço da tecnologia, a plataforma passou a ser utilizada também para projeções de consumo e planejamento industrial, ajudando empresas a tomar decisões mais eficientes, reduzir desperdícios e otimizar investimentos. Aos poucos, a solução se consolidou em um mercado tradicional, mostrando como dados bem organizados podem transformar a lógica de decisão de um setor inteiro.

Durante o painel, Janaine falou de forma aberta sobre algo que raramente verbalizava: nunca havia se enxergado como uma empreendedora de impacto. Para ela, impacto estava associado a causas ambientais ou sociais explícitas, distantes da realidade de uma empresa de dados voltada ao mercado da construção civil. A fala veio sem defesas, quase como uma constatação sincera.

Foi nesse momento que a troca entre as duas ganhou outra dimensão. Marília interveio para apontar aquilo que, muitas vezes, quem está dentro da operação não consegue ver. Falou sobre escolhas, sobre o tipo de empresa construída, sobre as pessoas que Janaine lidera. Mostrou que impacto também está na forma como decisões são tomadas, equipes são estruturadas e relações de trabalho são conduzidas.

A reflexão ressoou. Janaine passou a reconhecer que o alcance da Hoff Analytics ia além da tecnologia e do produto final. “Impacto não é só o que a empresa entrega para o mercado. Está nas pessoas, nas escolhas, na forma de liderar”, afirmou.

Hoje, a Hoff Analytics conta com uma equipe majoritariamente feminina, com mulheres ocupando posições estratégicas e de liderança. Janaine explicou que essa configuração não nasceu de um plano desenhado desde o início, mas de decisões feitas ao longo do caminho. Foi em espaços de troca como o painel do Startup Day que ela passou a olhar para esse cenário com mais intencionalidade. “Às vezes a gente acha que impacto é só ambiental, mas esquece que ele também está nas relações humanas.”

Mais do que um painel

A conversa foi marcada por escuta, reconhecimento e generosidade, elementos que só se sustentam em ambientes de confiança. Um espaço onde vulnerabilidade não aparece como fraqueza, mas como ponto de partida para enxergar a própria trajetória com mais clareza.

Ao longo da manhã, o Startup Day funcionou como um ponto de encontro entre diferentes perfis do ecossistema, reunindo empreendedores, especialistas e instituições em torno de discussões sobre inovação, crescimento e sustentabilidade dos negócios. A programação evidenciou que o desenvolvimento de startups vai além da tecnologia e do mercado, passando também pelas pessoas, pelas relações e pela forma como essas conexões são construídas.



Fonte ==> Sebrae

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