Projeto busca ampliar o repertório da saúde pública, tornando-a capaz de acolher modos de cuidado plurais

Projeto busca ampliar o repertório da saúde pública, tornando-a capaz de acolher modos de cuidado plurais

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Na encruzilhada entre saúde pública, antropologia, saberes tradicionais e práticas desenvolvidas por comunidades geralmente marginalizadas, o projeto “Cosmopolíticas do cuidado no fim-do-mundo” é uma ousada experiência de pesquisa científica e ação social. Coordenado pelo professor José Miguel Nieto Olivar, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), e apoiado pela FAPESP, o projeto articula seis eixos de investigação (chamados de “parcelas”) em territórios distintos, promovendo o encontro entre saberes hegemônicos e não hegemônicos, instituições acadêmicas e coletivos populares, modos de viver e modos de resistir.

“Nosso objetivo é prestar atenção e levar a sério formas de cuidado elaboradas por grupos historicamente tratados como ‘outros’. Mais do que um inventário de práticas, trata-se de um desafio epistemológico: como repensar a própria ideia de saúde, seus paradigmas, seus sistemas, seus sujeitos?”, resume Olivar.

A Parcela 1, da qual faz parte a pesquisadora Elizângela da Silva Costa, volta-se para as práticas de cuidado das mulheres indígenas de São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro. “Eu fiz uma caminhada muito grande para chegar aqui”, afirma Costa, indígena da etnia Baré e doutoranda na FSP-USP com a orientação de Olivar.

Durante a pandemia, as mulheres indígenas de seu território assumiram papel central na proteção da comunidade em uma grande campanha, chamada “Rio Negro, nós cuidamos”, que mobilizou saberes ancestrais além de todo o repertório de conhecimento médico do “mundo branco”. Começou em 2020 com a aparição dos primeiros casos no Rio Negro, e antecipou e complementou a vacinação. “Foi nesse contexto que recuperamos o nosso Kariamã, o ‘Cesto de Saberes’ que recebemos no Ritual da Moça Nova, por ocasião da primeira menstruação”, conta a pesquisadora.



A pesquisadora Elizângela da Silva Costa trabalha com as práticas de cuidado das mulheres indígenas de São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro. Indígena da etnia Baré, ela é doutoranda na FSP-USP (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

O Kariamã, ela explica, é um repositório ao mesmo tempo material e simbólico que as mulheres carregam. Inclui objetos e também conhecimentos sobre as roças, as plantas, os ciclos da natureza e do corpo humano. “Eu chamo isso de ‘SUS vivo’ ou ‘SUS da floresta’. Nossas roças, quintais, margens de rio e florestas são as nossas prateleiras de medicamentos”, diz.

Entre as plantas utilizadas, ela menciona a carapanaúba (Aspidosperma carapanauba Pichon), a saracura-mirá (Ampelozizyphus amazonicus) e a resina de xicantá (Trattinnickia glaziovii Swart), todas elas com propriedades anti-inflamatórias. Nos rituais de cura, também é central a prática do benzimento, que tem origem no mito de Amaro, uma entidade mitológica feminina, associada à fertilidade e ao cuidado, que criou o cosmos a partir do caos, e, por meio de suas ações, originou as plantas, os animais e os humanos. Assim como outras narrativas da cultura Baré, o mito de Amaro perpetua saberes e valores sobre a relação entre humanos e o que no mundo não indígena se entende como a natureza.

Apesar de décadas de cristianização e da forte presença evangélica em algumas comunidades, as práticas tradicionais persistem, muitas vezes de forma velada. “Se você perguntar se tem pajé, as mulheres dizem que não. Mas, entre elas, sim, fazem benzimentos, usam plantas, cuidam com o que aprenderam”, afirma Costa.

A Parcela 1 também investiga a violência sofrida por essas mulheres. Costa relata os impactos exercidos pelas missões religiosas e pelo regime militar, no passado, bem como pela violência obstétrica, pela exploração sexual, pela exploração do trabalho e pelo racismo estrutural, no presente. “Nós promovemos a saúde por meio de nossa luta contra a violência, mas também por meio das roças, da pesca, da culinária, do artesanato, da preservação de nossas línguas”, ela sublinha.

Se no Alto Rio Negro o cuidado da saúde passa pelas roças, no Alto Solimões ele tem como centro de gravidade um terreiro, que sintetiza tambor de mina, umbanda e candomblé, e transformou uma mulher trans em mãe de santo. Este é o foco da Parcela 2, da qual faz parte Michel de Oliveira Furquim dos Santos, que investiga a produção de redes de acolhimento por e para pessoas LGBTQIA+ em terreiros de umbanda em Tabatinga, no Alto Solimões, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

Santos, também doutorando na FSP-USP com a orientação de Olivar, investiga os modos de cuidado praticados por uma comunidade religiosa de matriz afro-brasileira, marcada pela presença de homossexuais, pessoas trans e travestis. “É uma rede de cuidado muito peculiar, que inclui o corpo e o espírito, a alimentação e a sexualidade, o dinheiro e o prazer”, diz.

O Terreiro do Pai Jairo, em Tabatinga, reúne cerca de 60 pessoas. Mas chega a ser frequentado pela cidade toda, inclusive por católicos e evangélicos, em ocasiões especiais. Dele derivaram outros terreiros, como o da Mãe Dany Salles, em Benjamim Constant, e os de outros pais e mães de santo, como Mãe Samara. Ela é uma das personagens centrais da pesquisa de Santos. “Por meio do trabalho sexual, Samara juntou dinheiro, e, segundo diz, orientada por sua guia, a Pomba Gira Maria Padilha, veio para São Paulo para ‘fazer o corpo’, isto é, colocar silicone, colocar próteses. Depois, voltou para lá, cumpriu todas as obrigações rituais e se tornou mãe de santo”, relata o pesquisador.

E acrescenta: “Samara não abre mão do erotismo. É travesti, é prostituta, é macumbeira, é mãe de santo, tudo junto ao mesmo tempo. Em São Paulo, é muito difícil encontrar uma mulher trans mãe de santo. Mas, no Alto Solimões, isso acontece. E as ‘entidades’ não fazem distinção de gênero ou orientação sexual. Quando perguntei sobre o assunto a uma delas, ‘incorporada’ em um praticante durante o ritual, ela me respondeu: ‘isso é um problema dos humanos’”, conta Santos.

O Terreiro do Pai Jairo acolhe as pessoas mais diversas, como uma travesti venezuelana que estava sem ter para onde ir e recebeu quarto, banho e alimentação. Além de espaço ritual, o terreiro é também um lugar de circulação de saberes e mediação com o sistema de saúde, proporcionando a quem o frequenta testes rápidos de HIV e visitas de profissionais do SUS.

A terceira parcela do projeto mergulha no universo das trabalhadoras sexuais e das redes autônomas de cuidado e proteção criadas por elas. “O Brasil tem um dos movimentos de trabalhadoras sexuais mais antigos e articulados do mundo, com mais de 40 anos de história”, informa Olivar. Esse movimento gerou associações, formas de linguagem, estratégias de visibilidade e práticas de cuidado que se tornaram referência internacional.

Durante a pandemia de COVID-19, a equipe do projeto, em parceria com o Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos e Saúde da População LGBT+ (NUDHES), coordenado pela professora Maria Amélia Veras, realizou um levantamento de mulheres em situação de prostituição em diferentes Estados brasileiros. “O que vimos foi a potência de uma rede que, mesmo à margem, cuida de si como o Estado jamais cuidaria”, afirma Olivar. Em São Paulo, o trabalho se articula com o Coletivo Mulheres da Luz e com a Associação Mulheres Guerreiras; no Rio, com o Coletivo Puta Davida.

A Parcela 3 também realizou investigações em Manaus, onde nunca houve uma pesquisa sistemática sobre trabalho sexual. Outra vertente estuda a memória familiar do cuidado em contextos de estigma. Uma estudante de graduação da FSP-USP está reconstruindo, por meio de conversas com sua tia, ex-trabalhadora sexual, os vínculos afetivos e de proteção que moldaram sua infância. “Essa aluna passou por processos muito difíceis na infância, e foi a tia, negra, prostituta, estigmatizada, que cuidou dela. Então, ela está trabalhando a partir dessa memória, tentando pensar todas essas questões e como foi justamente essa tia que ‘a humanizou’”, comenta Olivar.



Vilma Martins, presidente da Associação Mulheres do Grupo de Agricultura Urbana (GAU) no bairro União de Vila Nova, extremo leste de São Paulo (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

A quarta parcela articula meio ambiente, segurança alimentar, conflito por terras e práticas agroecológicas em contextos urbanos e amazônicos. Um de seus núcleos está em São Gabriel da Cachoeira, onde a doutoranda Júlia Camanho acompanha uma associação indígena Tuyuka que fornece alimentos para programas de alimentação escolar, entre outros. “É uma experiência concreta de soberania alimentar a partir de um sistema agrícola tradicional do Rio Negro”, descreve Olivar. A produção de alimentos, no entanto, é atravessada por pressões e conflitos: demandas institucionais de escala, limites territoriais e relações familiares complexas.

Já na cidade de São Paulo, a pesquisadora Júlia Kaori Tomimura investiga práticas de agroecologia urbana entre mulheres nordestinas na zona leste, que cultivam hortas em terrenos disputados, enfrentam cortes de água e constroem redes solidárias para manter o cultivo vivo. A Parcela 4 também conta com a colaboração do professor Leandro Giatti, da FSP-USP, com investigações sobre migração e meio ambiente, e busca tensionar a forma como a saúde ambiental é tradicionalmente compreendida, inserindo nela os elementos da exclusão urbana, da luta por território e da vida periférica.

A saúde de pessoas privadas de liberdade e de seus familiares é o foco da quinta parcela. Aqui, a parceria se dá com movimentos abolicionistas penais, especialmente em Manaus e São Paulo. Uma das referências teóricas importantes para esta parcela é o abolicionismo penal da filósofa e ativista norte-americana Angela Davis (nascida em 1944), que, principalmente em seu livro Are Prisons Obsolete?, propõe a abolição do sistema prisional como forma de transformar profundamente as estruturas de poder e violência da sociedade. O trabalho da geógrafa norte-americana Ruth Gilmore exerce também importante influência.

A Parcela 5 pesquisou, especialmente, as omissões do sistema de saúde diante da população carcerária. A mestranda Milena Novais investigou como a maternidade de mulheres presas ou de mães de presos é atravessada pela violência institucional. E a doutoranda Beatriz Oliveira Santos estuda os impactos da alimentação fornecida nas prisões, frequentemente deteriorada, como instrumento de punição. Sua pesquisa busca mostrar como o controle da comida passou a ser uma nova forma de castigo”, relata Olivar.

A produção acadêmica sobre o tema é escassa: um levantamento realizado por Oliveira Santos mostrou que a maioria dos estudos vem da área do direito, com quase nenhum aporte da nutrição ou da saúde coletiva. Ela foi vencedora do Prêmio Carolina Bori a jovens cientistas, justamente com seus trabalhos de graduação e seu projeto de doutorado.

O aporte empírico dos cinco eixos converge para a Parcela 6, que funciona como espaço teórico e propositivo do projeto como um todo. É ela que provoca perguntas e problemas e é nela que se consolidam os aprendizados das demais parcelas e se busca intervir nas práticas e currículos da Faculdade de Saúde Pública.

Nessa parcela, os estudantes José Farias dos Santos Júnior e Daniela Damasceno, que adotou o nome artístico de Helena Silvestre, desenvolvem pesquisas sobre racismo estrutural e pensamento negro radical a partir de autores como Aimé Césaire, Frantz Fanon e Denise Ferreira da Silva. Helena Silvestre, artista periférica ligada à Escola Feminista Abya Yala, articula práticas comunitárias de cuidado nas periferias paulistanas.

“A ideia é mostrar que existem formas de saúde que nascem fora do sistema, mas que têm enorme capacidade de gerar vida, acolhimento e resistência. Todas as parcelas contribuem para um mesmo objetivo: deslocar e multiplicar o ponto de vista da saúde pública. A saúde pública no Brasil possui um valor social inestimável. O SUS, criado pela Constituição de 1988, é uma instituição essencial que precisa ser defendida, atualizada e pluralizada em seu valor público. Mas seus paradigmas ainda operam dentro da lógica da colonialidade e da homogeneização. O projeto busca ampliar o repertório da saúde pública, tornando-a capaz de se reinventar a partir de modos de existência e de cuidado plurais. Queremos contribuir para o entendimento de que o universal é algo verdadeiramente ‘pluriversal’”, sintetiza Olivar.

Informações detalhadas sobre o projeto e as produções teóricas resultantes da pesquisa podem ser acessadas em: cosmopoliticasdocuidado.fsp.usp.br/.





Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *