Saúde Pública
Novo centro apoiado pela FAPESP buscará soluções para reduzir impacto do uso de drogas em espaços públicos
Iniciativa é uma parceria da Universidade de São Paulo com a Fundação em colaboração com as secretarias estaduais de Saúde, Desenvolvimento Social e Segurança Pública e com a Prefeitura de São Paulo
Saúde Pública
Novo centro apoiado pela FAPESP buscará soluções para reduzir impacto do uso de drogas em espaços públicos
Iniciativa é uma parceria da Universidade de São Paulo com a Fundação em colaboração com as secretarias estaduais de Saúde, Desenvolvimento Social e Segurança Pública e com a Prefeitura de São Paulo
Zago, presidente da FAPESP: CCDs são uma maneira de unir esforços entre academia, governo e empresas em projetos orientados para a resolução de problemas apresentados pela sociedade (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)
Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – O Centro de Ciência para o Desenvolvimento – Cenas Abertas para o Uso de Drogas foi lançado ontem (26/03) em cerimônia na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da Universidade de São Paulo (BBM-USP). O projeto reúne universidade, governo e sociedade para avaliar políticas públicas e buscar soluções que reduzam os impactos da dependência química em espaços públicos, como as cracolândias. A iniciativa é fruto da parceria entre FAPESP e USP, com apoio das secretarias estaduais de Saúde, Desenvolvimento Social e Segurança Pública e da Prefeitura de São Paulo.
O projeto de pesquisa terá duas fases. Primeiro, os pesquisadores vão analisar políticas públicas dos últimos cinco anos sobre o tema no intuito de fazer um mapeamento qualitativo. A partir desse trabalho inicial, será feito um estudo prospectivo e quantitativo focado nas causas do uso de drogas em espaços públicos para então buscar soluções e propostas para novas políticas públicas.
“O CCD é um bom exemplo de engajamento da ciência e da universidade na avaliação e formulação de políticas públicas para o benefício da sociedade”, disse Amâncio Jorge de Oliveira, coordenador do Cenas Abertas para o Uso de Drogas e pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da USP.
Virtudes e desafios
Para Oliveira, a grande virtude do novo CCD está na multidisciplinaridade, ao integrar pesquisadores e gestores públicos envolvidos em temas como saúde, assistência social, segurança pública e recuperação urbanística. “Acreditamos que o êxito no enfrentamento dessa temática tem proporcionalidade direta com essa integração entre as diferentes áreas envolvidas”, disse.
Mas a integração também é um dos principais desafios do novo centro. Será necessário, por exemplo, integrar os bancos de dados de Saúde e Segurança Pública. “Essa tarefa é essencial para o aumento da capacidade analítica, o que vai permitir um estudo profundo da causalidade do problema no nível individual e agregado”, pontuou.
Os Centros de Ciência para o Desenvolvimento operam em modelo de cofinanciamento: para cada R$ 1 solicitado à FAPESP, uma contrapartida idêntica é aportada pelas entidades parceiras. O financiamento é de longo prazo – por até cinco anos – e os resultados devem promover o avanço no conhecimento e proporcionar a melhoria das políticas públicas.
“A política pública precisa de pesquisa aplicada para o seu aprimoramento. Mas para que a pesquisa aplicada funcione a administração pública precisa se organizar internamente. Isso inclui o aprimoramento do cadastro público em saúde, mas também o uso sistemático de bases de dados para criar um ambiente favorável à ciência. Com esse projeto teremos uma política importantíssima para a assistência social a partir de evidência, de estudo de dados e de informação”, afirmou Andrezza Rosalém, secretária de Estado de Desenvolvimento Social.
Rosalém contou que, além do CCD Cenas Abertas para o Uso de Drogas, a secretaria apresentou outros seis projetos para outros CCDs com o objetivo de criar um grupo de desenvolvimento social baseado em evidências. “O objetivo é aprimorar os serviços existentes e transformar as políticas de assistência social em um benchmark [referencial] mundial nos próximos cinco anos”, afirmou.
Unindo academia, governo e sociedade
Iniciado em 2019, o programa dos CCDs da FAPESP já criou 83 centros em diversas áreas do conhecimento, especialmente saúde e acessibilidade, com investimento de R$ 570 milhões.
“O programa dos CCDs é hoje o maior de ciência aplicada a políticas públicas no Brasil, devolvendo à sociedade os investimentos em pesquisa”, contou Marco Antonio Zago, presidente da Fundação, durante a cerimônia.
Zago explicou que, com a pandemia, houve uma queda na submissão de projetos, que só voltou a subir em 2022. “Isso resultou em um acúmulo de recursos que ficaram guardados e estão sendo usados para a criação dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento, uma maneira de unir esforços entre academia, governo e empresas em projetos orientados para a resolução de problemas apresentados pela sociedade. Pois além do investimento em ciência básica, descobrimos que os cidadãos, que financiam a FAPESP, gostariam de ver o retorno disso na aplicação imediata em soluções diretas para a sociedade”, relatou Zago.
O presidente da Fundação contou também que haverá um edital para novos CCDs. “O conselho da FAPESP determinou esta semana a aplicação de R$ 400 milhões adicionais em sete temas estratégicos, usando instrumentos como CCDs, sem afetar o suporte regular, colocando São Paulo na liderança científica e tecnológica da América Latina”, disse Zago (leia mais em: agencia.fapesp.br/57582).

Cerimônia foi realizada na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)
“Com isso se permite que os pesquisadores do Estado de São Paulo avancem em todo o ciclo, da ciência básica à aplicada, passando pela inovação e chegando à formulação de políticas públicas. Graças à solidez da FAPESP, os projetos têm financiamento de longo prazo, o que garante que ideias possam se transformar em soluções bem estruturadas. O CCD Cenas Abertas para o Uso de Drogas é exemplo disso, pois ele enfrenta um tema complexo e já apresenta propostas avançadas, que precisam ser consolidadas para superar o problema de forma integrada”, declarou Vahan Agopyan, secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação.
O reitor da USP, Aluísio Segurado, destacou que para a universidade os CCDs representam um espaço privilegiado que integra pesquisa avançada inovadora, formação de pós-graduandos e extensão universitária com potencial transformador para mudanças sociais.
“No caso específico do novo CCD, nós estamos tratando de uma questão que toca diretamente várias dimensões das vulnerabilidades. A vulnerabilidade que o uso de drogas traz na saúde individual e também na saúde coletiva. Essa pesquisa inovadora e interdisciplinar busca gerar conhecimento com potencial de transformação social, sempre comprometida com a promoção, proteção e garantia de direitos das populações mais vulneráveis”, destacou Segurado.
Também participaram do evento, realizado no auditório da BBM-USP, Artur Lima, secretário de Estado da Justiça e Cidadania; Maurício Serpa, secretário adjunto da Saúde do município de São Paulo; Liedi Légi Bariani Bernucci, vice-reitora da USP; Roseli Lopes, diretora do Instituto de Estudos Avançados da USP; e Fábio Zorzo, presidente da União Santa Ifigênia.
Fonte ==> Folha SP