Muitos fatores influenciam quanto tempo você vive, como dieta, exercícios, tabagismo, consumo de álcool, ambiente e outras variáveis. Também ajuda não ser atingido por um caminhão basculante. Mas e quanto aos seus genes? Essa tem sido uma questão controversa por décadas.
Um novo estudo aponta para um papel maior da genética do que pesquisas anteriores haviam indicado, estimando a contribuição dos genes na determinação da longevidade humana em cerca de 50%. Isso é aproximadamente o dobro do que pesquisas anteriores concluíram, e reflete os resultados de estudos de longevidade em animais de laboratório.
“A longevidade é, sem dúvida, moldada por muitos fatores, incluindo estilo de vida, genes e, importante, aleatoriedade —tome como exemplo organismos geneticamente idênticos criados em ambientes semelhantes que morrem em momentos diferentes”, disse Ben Shenhar, doutorando em física no Instituto Weizmann de Ciência em Israel e autor principal do estudo publicado na quinta-feira (29) na revista Science.
“Em nosso trabalho, tentamos dar uma medida da quantidade de variância entre diferentes pessoas que pode ser atribuída à genética. Nosso estudo tentou dividir os fatores de longevidade em genética e ‘todo o resto’. O ‘todo o resto’ é cerca de 50% do total.”
Os pesquisadores buscaram explicar um fator de confusão em estudos anteriores que usaram gêmeos suecos e dinamarqueses, a maioria datando do século 19. Esses estudos com gêmeos não levaram em conta mortes causadas por violência, acidentes, doenças infecciosas e outros fatores originados fora do corpo —chamados de mortalidade extrínseca— que os autores do novo estudo disseram ter distorcido descobertas anteriores sobre o componente genético da longevidade.
A causa da morte estava ausente nos dados históricos, que forneciam apenas a idade no momento da morte. Então, se um gêmeo morreu aos 90 anos de causas naturais e o outro gêmeo morreu aos 30 anos não de causas naturais, mas devido a uma doença infecciosa como tifo ou cólera, dados sem a causa da morte poderiam fornecer uma impressão enganosa sobre o papel da hereditariedade na longevidade.
O novo estudo empregou uma fórmula matemática para contabilizar a mortalidade extrínseca entre gêmeos. Shenhar disse que a mortalidade extrínseca na época em que os gêmeos estudados viviam, antes da era dos antibióticos, era 10 vezes maior do que hoje, principalmente devido a doenças infecciosas que agora são facilmente curáveis.
Os pesquisadores então validaram a previsão de que as mortes extrínsecas mascaram a hereditariedade usando dados previamente não analisados e mais recentes da Suécia que incluíam gêmeos criados juntos e gêmeos criados separadamente. Essa análise de fato descobriu que à medida que a mortalidade extrínseca cai, a hereditariedade aumenta.
“Gêmeos idênticos criados separadamente compartilham seus genes, mas não seu ambiente. Isso ajuda a separar a genética do ambiente, a natureza da criação”, disse Uri Alon, biólogo de sistemas do Instituto Weizmann e autor sênior do estudo.
Gêmeos fraternos também são valiosos em tais pesquisas porque compartilham cerca de metade de sua composição genética.
“Estudos anteriores com gêmeos usaram métodos estatísticos que funcionam bem para outras características —altura, pressão arterial, traços de personalidade, etc. Essas características não são afetadas pela mortalidade extrínseca”, disse Alon.
“Mas a expectativa média de vida é a única característica especial que é fortemente afetada pela mortalidade extrínseca. Como a causa da morte não foi registrada para os estudos clássicos com gêmeos, isso não foi corrigido”, disse Alon.
As conclusões podem ter implicações para pesquisas sobre envelhecimento.
“Estimativas baixas de hereditariedade podem ter desencorajado o financiamento e a pesquisa sobre a genética do envelhecimento, sugerindo que era em grande parte aleatório ou ambiental. Nosso trabalho valida a busca por fatores genéticos de longevidade, mostrando que o sinal genético é forte, mas estava anteriormente escondido pelo ‘ruído’ nos dados”, disse Shenhar.
Os genes impactam a longevidade em ambas as direções. Por um lado, existem defeitos genéticos debilitantes que podem causar doenças e encurtar a longevidade. Por outro lado, foram identificados genes que parecem oferecer benefícios para a longevidade.
“Muitos centenários chegam aos 100 anos sem qualquer condição médica séria”, disse Shenhar. “É claro que essas pessoas têm genes protetores que as protegem contra o desenvolvimento de doenças que ocorrem naturalmente com a idade. Alguns desses genes foram identificados, embora, como a maioria das características complexas, a longevidade seja provavelmente impactada por centenas, se não milhares de genes.”
Fonte ==> Folha SP – TEC