Grupo busca proteger gravuras rupestre no sertão do Piauí – 31/03/2026 – Ciência

Formação rochosa marrom com sulcos e texturas irregulares em área arenosa. Vegetação esparsa ao fundo.

Em solo piauiense, pesquisadores e trilheiros buscam preservar um arquivo vivo: gravuras rupestres, com o formato de pegadas de aves, espalhadas em rochas em um povoado na região de São João da Fronteira, município a 226 quilômetros da capital Teresina.

O grupo solicitou ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em julho de 2025 a catalogação e, principalmente, a proteção dos possíveis vestígios de tridáctilos (animais com três dedos em cada pata) que teriam vivido na região. O Iphan diz que não há datação do desenho.

Os pesquisadores ouvidos pela Folha dizem que os vestígios podem oferecer pistas sobre a fauna que habitava o Nordeste brasileiro.

As gravuras estão localizadas no povoado Malhada de Pedras. Os moradores da região viram os desenhos pela primeira vez na década de 1980 e batizaram o local de Pés de Ema. Antes um assentamento, a área tornou-se um terreno particular.

Em fevereiro de 2024, o professor e pesquisador Gerson Meneses, do IFPI (Instituto Federal do Piauí), passou pela região e foi avisado pela comunidade das gravuras.

“Fui até lá conferir e vi que os desenhos são talhados na rocha em um leito de um rio. O nome Pés de Ema se dá em virtude de a maioria das gravuras ser em formato tridáctilo, bem semelhantes a uma pegada de ave”, disse Meneses, que diz já ter registrado mais de cem sítios no estado.

O sítio ganhou destaque no mês passado, com a abertura da trilha Caminhos da Ibiapaba, do Piauí ao Ceará. A trilha conecta paisagens dos biomas caatinga, mata atlântica e cerrado. São 186 quilômetros que podem ser feitos a pé ou de bicicleta e é uma iniciativa para fortalecer o turismo local e a preservação ambiental. O projeto é uma parceria dos Ministérios do Meio Ambiente, Turismo e ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

“O que torna o sítio Pés de Ema especial é principalmente o fato de ser de gravuras rupestres, o que é mais raro nessa região do Piauí”, disse Meneses.

A Rede Brasileira de Trilhas, que ajudou a idealizar a rota Caminhos da Ibiapaba, convidou a estudante Carla Tessiane Barbosa, da UFPI (Universidade Federal do Piauí), para participar de uma ação sobre educação patrimonial em julho de 2025. A aluna, que está no último ano de arqueologia, conversou com moradores e cadastrou os sítios junto ao Iphan.

“O estado de preservação do sítio encontrava-se um pouco carente de cuidados. Foi possível verificar a presença de lodo sobre o matacão onde se localizam as gravuras, além de lixo descartado nas imediações”, disse a estudante.

Barbosa destacou que a possível representação das pegadas de aves na região, bem como de outros animais, pode indicar uma conexão. “Uma ligação que esses povos do passado possuíam com a fauna local, enquanto elemento identitário, relações simbólicas, afetivas ou espirituais com estes animais.”

A rota liga os Parques Nacionais de Sete Cidades (PI), de Ubajara (CE) e a Área de Proteção Ambiental Serra da Ibiapaba. O traçado refaz os passos de tropeiros e de caixeiros-viajantes que, há décadas, cruzavam o sertão e as serras para movimentar a economia regional.

No roteiro, o caminhante vai encontrar mirantes, cachoeiras, sítios arqueológicos, florestas, vistas panorâmicas, grutas e paredões rochosos que impressionam pela imensidão.

“Em toda a trilha há uma biodiversidade da fauna, flora dos três biomas e uma infinidade de atrativos como gravuras e pinturas rupestres, além da cultura local. Temos feito um trabalho de conscientização, já que a região é rica em arte rupestre”, disse Waldemar Justo, diretor-chefe do Parque Nacional Sete Cidades e diretor Nordeste da Rede Brasileira de Trilhas.

Antônio Carlos Feitoza, um dos proprietários do terreno, afirmou ter despertado para a preservação da área. “Antes víamos como uns rabiscos, um desenho qualquer, mas hoje entendi a importância das gravuras para a história. Vamos trabalhar para que o visitante ajude a preservar o espaço.”

A superintendente do Iphan no Piauí, Teresinha de Jesus Ferreira, disse que vai enviar equipe para salvaguardar os vestígios encontrados. “Vamos saber o estado de conservação e propor medidas de mitigação e preservação.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

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