Poderia ter sido suicida para um predador atacar um braquiossauro adulto saudável, com seu peso próximo de 60 toneladas, membro do grupo de dinossauros de pescoço longo conhecidos como saurópodes, que incluía os maiores animais terrestres que já existiram na Terra.
Mas, como mostra nova pesquisa, filhotes de braquiossauro e outros saurópodes parecem ter sido refeições regulares para dinossauros carnívoros há 150 milhões de anos. Usando múltiplas linhas de evidência, cientistas reconstruíram a cadeia alimentar de um ecossistema do Período Jurássico representado pelos numerosos fósseis encontrados na localidade Dry Table no sudoeste do Colorado (EUA), mapeando quem comia o quê e quem comia quem.
O ecossistema era repleto de vida, com pelo menos seis tipos de saurópodes, conhecidos por seus pescoços longos, cabeças pequenas, quatro patas semelhantes a pilares e caudas longas, e cinco tipos de dinossauros carnívoros. Também havia vários outros dinossauros herbívoros, bem como pterossauros (répteis voadores que não são dinossauros), répteis menores, mamíferos primitivos, crocodilos, peixes e insetos.
Os pesquisadores concluíram que filhotes e jovens de saurópodes eram a fonte de alimento mais comum para os dinossauros carnívoros no topo da cadeia alimentar.
“Esses saurópodes teriam sido abundantes em comparação com saurópodes adultos maiores e eram relativamente indefesos e de movimento lento, portanto fáceis de capturar e um lanche perfeito”, disse o paleontólogo Cassius Morrison, pesquisador de pós-doutorado na University College London e autor principal do estudo publicado no Boletim do Museu de História Natural e Ciência do Novo México.
Enquanto o Brachiosaurus era o saurópode mais massivo do ecossistema, o mais longo era provavelmente o Diplodocus, com aproximadamente 30 metros de comprimento ou mais. Outros saurópodes, todos grandes, compartilhando este ecossistema eram Supersaurus, Apatosaurus, Camarasaurus e Haplocanthosaurus. Mas seus filhotes nasciam de ovos com apenas 30 cm de largura e precisavam de muitos anos para crescer. As evidências sugerem que os filhotes eram deixados para se virarem sozinhos por seus pais.
“Saurópodes adultos dependiam de seu tamanho enorme, caudas longas e comportamento de manada para proteção”, disse o ecólogo, professor de zoologia no campus Writtle da Universidade Anglia Ruskin (ARU, na sigla em inglês), na Inglaterra, e coautor do estudo, Steven Allain.
“Infelizmente, isso levava tempo, o que significa que os indivíduos menores ainda não haviam atingido aquele estágio de ‘grande demais para mexer’. Eles não tinham armadura, espinhos ou placas pesadas, tornando-os muito mais fáceis de subjugar do que dinossauros como o estegossauro, cujo tagomizador —espinhos da cauda— poderia ferir gravemente ou matar um predador”, disse Allain.
Os dinossauros carnívoros deste ecossistema eram formidáveis. Os maiores eram o Torvosaurus, com cerca de 9 metros de comprimento, e o Allosaurus, com cerca de 8 metros de comprimento. Também havia o Ceratosaurus (7 m), Marshosaurus (4,5 m) e Stokesosaurus (aproximadamente 3,5 m).
“Caçar um Braquiossauro adulto saudável —ou qualquer grande saurópode— teria sido uma tarefa extremamente intimidante e de alto risco até para o maior terópode no ecossistema de Dry Table, com o tamanho imenso atuando como sua defesa primária”, disse Allain.
“Um golpe de cauda bem posicionado ou um simples passo lateral poderia ferir gravemente ou matar um predador. Mesmo se o Allosaurus caçasse em grupos —o que ainda é debatido— derrubar um saurópode completamente crescido e saudável teria exigido coordenação, resistência e muita sorte. Por causa desse risco, os predadores provavelmente focavam em opções mais seguras, como jovens, adultos doentes ou feridos, indivíduos presos na lama ou carcaças de secas ou inundações.”
Os pesquisadores consideraram vários tipos de evidências na reconstrução da complexa cadeia alimentar da localidade fóssil. Entre outras coisas, eles analisaram evidências químicas no esmalte dos dentes que indicavam os tipos de alimentos que um animal comia, arranhões deixados no esmalte dos dentes que indicavam os tipos de alimentos consumidos, modelos biomecânicos e restos fossilizados de estômagos.
“Este depósito foi formado por uma seca, então é um dos únicos lugares onde você encontra tudo, desde pequenos animais semelhantes a lagartos até os maiores dinossauros”, explica Morrison.
O ambiente era dominado por florestas abertas de plantas como coníferas, cicas, samambaias e cavalinhas crescendo ao longo de rios e lagoas rasas que periodicamente secavam.
“A cadeia alimentar reconstruída que esses dados geraram contém mais de 12 mil cadeias alimentares únicas, indicando um sistema ricamente interconectado em vez de uma simples hierarquia de predadores e presas. Os saurópodes emergiram desta análise como componentes centrais desta rede”, afirma Allain.
Fonte ==> Folha SP – TEC