Cientista que se viu dentro de tornado conta como escapou – 28/03/2026 – Ciência

Dois tornados se formam sob nuvens escuras em área rural. Um veículo vermelho está parado na estrada de asfalto, próximo aos tornados, com a porta do motorista aberta.

Eu vi o centro de um monstro. A maioria das pessoas descreve o som de um tornado como o de um trem de carga, mas, de perto, é mais parecido com mil motores a jato gritando. Sou uma das poucas pessoas no mundo que dirigiu dentro de um tornado e sobreviveu para contar a história.

Embora possa parecer uma cena de um filme blockbuster de Hollywood envolvendo um caminhão blindado de alta tecnologia, minha experiência foi muito mais perigosa e aterrorizante.

Sou um cientista atmosférico que estuda tornados, mas só estou vivo hoje graças a decisões tomadas em frações de segundo e a uma enorme dose de sorte. Acredite, não quero nunca mais passar por essa situação.

O dia em que o céu se abriu

Tudo começou no noroeste do Kansas, nos Estados Unidos, onde eu estava estudando supercélulas de tempestade –do tipo que produz tornados– com uma equipe de estudantes da Universidade de Michigan.

Estávamos posicionados sob uma tempestade tão escura que tivemos que ligar os faróis dos nossos veículos no meio do dia. De repente, um tornado se formou e começou a avançar diretamente em nossa direção.

Os estudantes estavam em outros veículos e conseguiram escapar, mas meu carro foi rapidamente engolido por uma nuvem de detritos voadores tão densa que eu não conseguia ver o próprio capô.

Com minhas opções se esgotando, fiz uma manobra desesperada: virei o carro diretamente contra o vento, na esperança de que a aerodinâmica do veículo nos mantivesse presos ao chão, em vez de sermos virados como um brinquedo.

A física do medo

Quando você está dentro do vórtice de um tornado, seu corpo passa por coisas que as câmeras dos canais de notícias não conseguem capturar:

  • A mudança de pressão: um tornado é uma área localizada de mudança rápida de pressão. Seus ouvidos não apenas “estalam” –eles doem, como se sua cabeça estivesse sendo apertada por mãos gigantes.

  • O vento sólido: medimos velocidades de vento de quase 241 km/h nas proximidades, mas dentro do vórtice elas provavelmente eram muito maiores. A essas velocidades, o ar atinge você com a força de um objeto sólido.

  • A sopa de escuridão: nos filmes, o “olho” é um espaço claro. Na realidade, é uma bola de detritos – uma sopa marrom-escura de solo pulverizado, árvores e prédios. Estava tão escuro que minha câmera nem conseguiu registrar uma imagem.

Enquanto os detritos batiam no meu para-brisa, eu estava apavorado com a possibilidade de ser esmagado por materiais voadores –tornados podem levantar cercas, madeira e metal de prédios, galhos de árvores e até vacas. Os manuais recomendam entrar em uma vala para ficar deitado e ficar mais protegido contra detritos voadores. Mas o vento era tão violento que eu nem conseguia abrir a porta do carro. Eu apenas me mantive agachado e rezei.

A formação de um monstro

Como uma tempestade tão severa chega a acontecer? É necessária uma receita perfeita e violenta de ingredientes atmosféricos:

  • Combustível: um tornado precisa de ar quente e úmido (vapor de água) próximo ao solo, com ar seco acima dele. Isso cria o potencial para a ascensão do ar, mas somente se a atmosfera estiver instável o suficiente para superar “a tampa de contenção”.

  • A tampa de contenção: uma fina “camada de inversão” de ar estável age como uma tampa sobre esse ar quente e úmido, prendendo-o até que o ar úmido consiga romper.

  • A linha seca: a linha seca é onde o ar quente e úmido do Golfo do México e o ar seco do oeste se encontram. O ar quente e seco que avança é, na verdade, mais pesado do que o ar abafado, e esse ar seco empurra o ar úmido para cima, rompendo a tampa de contenção.

  • Cisalhamento do vento: os ventos superficiais vindos do sul e os ventos em altitude vindos do oeste criam um movimento de rotação horizontal na atmosfera. Quando o ar é empurrado para cima, essa rotação torna-se vertical, criando o que é conhecido como mesociclone.

  • A corrente de jato: a cerca de 8 a 11 quilômetros de altitude, a corrente de jato é um rio de ar que se move rapidamente. Perturbações dentro dela podem criar áreas que puxam o ar para cima a partir de baixo e reduzem a pressão na superfície.

Juntos, esses ingredientes podem criar o vórtice rotativo e poderoso que você conhece como tornado.

Essas tempestades podem ter ventos de até 482 km/h e deixar um longo rastro de destruição, às vezes com mais de 1,6 quilômetro de largura. Elas podem permanecer no solo por segundos ou muitos minutos, destruindo prédios e árvores em seu caminho. É difícil prever para onde elas se deslocarão, portanto, buscar um local seguro deve ser uma prioridade.

A lição do monstro

Quando a tempestade passou, o silêncio era assustador. Meu carro alugado estava atolado na lama, a antena estava dobrada ao meio e pedaços de palha estavam cravados em cada costura da carroceria do carro.

Tornados são extremamente perigosos. Sessenta e uma pessoas foram mortas por tornados nos EUA em 2025, e muitas outras ficaram feridas por detritos voadores. Certifique-se de saber o que fazer quando um alerta de tornado soar –siga as orientações do alerta e procure um local seguro imediatamente.

Quando os cientistas perseguem tempestades, eles não estão tentando vivenciar tornados, e sim tentando medir os processos em pequena escala dentro das tempestades que não podem ser observados de outras maneiras.

Muitos dos principais processos que geram tornados ocorrem a poucas centenas de metros do solo e se desenvolvem em questão de minutos, o que significa que radares, satélites e estações meteorológicas muitas vezes não os detectam.

Ver um tornado e os danos que ele causa é um forte lembrete de que as pessoas não controlam tudo. Isso serve como um aviso para sermos prudentes e estarmos preparados para qualquer coisa. Pesquisas sofisticadas usando drones e radares são a maneira inteligente de estudar esses monstros. Observá-los de dentro definitivamente não é.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original

Colaborou Willa Connolly



Fonte ==> Folha SP – TEC

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