Marcadores no sangue podem prever eficácia de imunoterapia contra melanoma avançado

Marcadores no sangue podem prever eficácia de imunoterapia contra melanoma avançado

Estudo do Hospital de Amor identificou um conjunto de sinais de inflamação no organismo capaz de antecipar a resposta ao tratamento antes mesmo da primeira dose. Achado pode contribuir para personalizar a terapia e otimizar recursos no SUS

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Pesquisadores do Hospital de Amor identificaram biomarcadores capazes de prever, antes mesmo da primeira dose, se a imunoterapia vai funcionar em pacientes com melanoma avançado. Publicado na revista Clinical and Translational Oncology, o estudo elenca um conjunto de sinais de inflamação no organismo capaz de antecipar a resposta ao tratamento e que pode ser detectado por meio de uma amostra de sangue. O achado deve contribuir para tratamentos mais direcionados, personalizados e eficientes para um tipo de câncer extremamente agressivo.


Embora represente menos de 4% dos tumores malignos de pele, o melanoma é o mais letal deles devido à alta capacidade de provocar metástase (espalhar-se para outros órgãos). Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar 9.360 novos casos da doença por ano no triênio 2026-2028, e dados do Ministério da Saúde apontam cerca de 2 mil mortes anuais no país em decorrência do tumor. Quando o diagnóstico ocorre no início, a chance de sobrevida em cinco anos supera 90%, mas cai para 35% nos casos metastáticos, de acordo com o National Cancer Institute (NCI), dos Estados Unidos.


“A imunoterapia revolucionou o tratamento do melanoma avançado e de outros tipos de câncer. Diferentemente da quimioterapia e da radioterapia, que atacam diretamente o tumor, a estratégia da imunoterapia consiste em ativar as células de defesa dos pacientes e bloquear alguns freios da resposta imune, de modo que o próprio organismo consiga combater o tumor”, explica a pesquisadora Lidia Rebolho Arantes, do Centro de Pesquisa em Oncologia Molecular do Hospital de Amor (antigo Hospital de Câncer de Barretos), que coordenou a investigação.


Mesmo com esse avanço, entre 40% e 60% dos pacientes com esse tipo de câncer não respondem à imunoterapia. “É um tratamento caro, de difícil acesso e que o orçamento do Sistema Único de Saúde [SUS] não permite oferecer a todos. Por isso, é importante definir quem tende a não se beneficiar dele. Isso evita tratamentos ineficazes, reduz sofrimento e otimiza recursos”, avalia Arantes (leia mais em: agencia.fapesp.br/55428).


Atualmente, na prática clínica, não existe um biomarcador capaz de indicar previamente quem vai responder à imunoterapia. “Até agora, a busca por esses sinais se concentrou quase exclusivamente em características do tumor descobertas por meio de biópsias. Este estudo integra uma linha de pesquisa que busca identificar, a partir de exames de sangue, sinais capazes de antecipar quais pacientes poderão responder a essa abordagem”, acrescenta.


Apoiado pela FAPESP, o trabalho analisou 136 pacientes com melanoma avançado ou metastático, tratados com imunoterapia entre 2016 e 2024 pelo SUS. Antes do início do tratamento, a equipe avaliou a imunidade dos pacientes por meio de exames de sangue. Observou-se a contagem de células sanguíneas e os níveis de citocinas (proteínas sinalizadoras produzidas pelas células) no plasma para investigar como o sistema imune modula a resposta antitumoral.


Desse modo, foi possível detectar, antes de iniciar o tratamento, se o “terreno” já estava preparado para combater o tumor com eficácia. Na prática, esses sinais mostram como a combinação entre o nível de inflamação do paciente e a genética do tumor pode determinar o sucesso da terapia.


Freio bloqueado


Bruna Sorroche, primeira autora do trabalho e bolsista da FAPESP (processos 23/12251-0 e 19/03570-9), destaca que, para entender os resultados, é preciso voltar algumas casas e esclarecer o funcionamento da chamada “imunoterapia anti-PD-1” (terapia com anticorpos inibidores do receptor de morte celular programada 1), que atua liberando o sistema de defesa para agir.


“Quando uma proteína de superfície da célula tumoral, como a PD-L1, se conecta ao receptor PD-1 da célula de defesa, ela envia um sinal que inibe a resposta do linfócito T, ajudando o tumor a escapar do reconhecimento e da ação do sistema imunológico. Essa ligação [entre o tumor e o linfócito T] funciona como um ‘freio químico’ que reduz a capacidade das células de defesa de atacar o câncer, permitindo que a doença continue crescendo”, relata Sorroche.


A imunoterapia anti-PD-1 age justamente nesse tipo de freio. “Anticorpos monoclonais infundidos no paciente bloqueiam essa conexão, impedindo que o tumor acione o freio. Com isso, a camuflagem desaparece e a célula imunológica volta a atacar o tumor”, resume.


Segundo Sorroche, historicamente, tem se tentado prever a resposta à imunoterapia apenas a partir da análise do tumor, ou seja, pela presença ou ausência da proteína PD‑L1. “Mas isso é insuficiente, pois muitos pacientes com tumores PD‑L1 negativos respondem bem, enquanto pacientes com tumores PD‑L1 positivos podem não se beneficiar do tratamento”, conta.


O estudo do Hospital de Amor propõe uma abordagem diferente. “Os biomarcadores que identificamos não medem se o tumor vai se esconder de forma mais ou menos eficiente. Eles mostram o quão preparado está o sistema imunológico do paciente para lutar quando o anticorpo monoclonal impede que o tumor desapareça do radar”, explica Sorroche.


Uma calculadora biológica


De acordo com os dados do artigo, pacientes que não respondem bem à imunoterapia apresentam um painel de sinais no sangue que indicam um organismo mais inflamado – e, portanto, menos preparado para reagir ao tratamento. “Eles têm IL‑6 [citocina inflamatória] alta e um nível elevado de monócitos [células do sistema imune], o que indica um estado inflamatório mais acentuado e pode estar associado a mecanismos de imunossupressão. Ao mesmo tempo, exibem IL‑10 baixa, uma citocina que pode estar envolvida na regulação da resposta imune e na manutenção da função dos linfócitos T”, conta Sorroche.


Além dos marcadores sanguíneos, um sinal importante encontrado no tumor também foi incorporado ao painel: a mutação genética BRAF V600, associada a maiores taxas de resposta dos pacientes.


O próximo passo do grupo de pesquisa será validar esses e outros achados em um estudo maior, com mais pacientes, para que essa ferramenta possa finalmente chegar à rotina clínica.


“Nosso objetivo é desenvolver, no futuro, uma espécie de calculadora biológica que reúna os principais preditores de resposta ao tratamento. Isso ajudaria a tornar a imunoterapia uma opção inicial para pacientes com melanoma avançado no Brasil. Hoje, por ser cara e com eficácia incerta, ela costuma ser usada apenas quando a doença já está metastática e outras terapias, como quimioterapia e radioterapia, não funcionam mais. Ter parâmetros que permitam mudar essa lógica seria um avanço importante para a sobrevida dos pacientes”, avalia Arantes.


O artigo A baseline systemic inflammatory signature predicts anti-PD-1 response in advanced melanoma pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s12094-026-04506-2.

 



Fonte ==> Folha SP

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