A SpaceX se tornou a líder absoluta do mercado comercial de lançamentos espaciais. E aí decidiu meio que puxar o tapete de todo mundo. Para a Nasa, a promessa é que a empresa vai manter em operação suas cápsulas Dragon, capazes de levar astronautas à Estação Espacial Internacional (ISS), até 2030. Para os clientes que contratam lançamentos de satélites, a aposentadoria que conta é a do foguete Falcon 9, com a decisão de privilegiar o Starship –que realizou seu primeiro voo orbital na última terça-feira (28).
Hoje, a Dragon é o único meio de acesso americano à ISS. O plano da Nasa, claro, era ter dois: além da Dragon, o Starliner, da Boeing. Mas a companhia teve problemas gigantescos com o desenvolvimento do veículo, que até agora só realizou voos de teste, apenas um deles com tripulação e terminado em fiasco, com os astronautas sendo obrigados a voltar de carona numa Dragon, em 2025.
A Nasa, mais do que nunca, está ansiosa para ver a Boeing entregar o serviço –e está até pagando mais por isso. A agência fez uma nova contratação de duas missões tripuladas com o Starliner, além de fornecer verba (US$ 359 milhões) para a empresa reprojetar seu sistema de propulsão (que causou os problemas dos voos anteriores) e certificar a cápsula para voar no foguete Vulcan.
A SpaceX acha ótimo. “A Boeing foi paga –acho que provavelmente mais do que fomos pagos– para desenvolver sua cápsula para humanos. Então vamos deixar eles terem alguns negócios. Eles deveriam voar a cápsula deles. O governo pagou muito dinheiro por ela”, disse Gwynne Shotwell, presidente da SpaceX, no podcast All-In, no mês passado.
Moral da história: a companhia de Elon Musk promete voar mais quatro missões tripuladas (além da Crew-13, que partiu na sexta-feira), daqui até 2030, e aí acabou. Deve ir até o final do programa da ISS, se for mantida a atual data de encerramento, mas não servirá a futuras missões tripuladas às estações espaciais comerciais que a Nasa deseja que existam após o fim do projeto internacional.
Na questão dos foguetes, a situação é ainda mais dramática. A SpaceX decidiu que não aceitará contratações de missões de lançamento para o Falcon 9 para além de 2028. Hoje, os dois foguetes da série Falcon (9 e Heavy) transportam cerca de 90% da massa de cargas úteis levadas à órbita anualmente, respondendo por cerca de 50% dos lançamentos em 2026. Ninguém consegue voar tanto ou tão depressa.
Ocorre que a SpaceX hoje ganha muito mais dinheiro vendendo seus serviços de internet e IA (futuramente incorporando data centers em órbita) do que propriamente lançando cargas úteis de terceiros. Com efeito, 80% dos voos da companhia servem para lançar satélites Starlink, dela própria. E esses, a partir do voo de terça-feira, passarão gradualmente ao Starship –que ainda não tem adaptação para lançar outra coisa que não sejam satélites Starlink.
É um gargalo que os empreendimentos espaciais dos EUA, para os quais voos com foguetes russos ou chineses não são uma possibilidade, terão de enfrentar. E a SpaceX não está nem aí –e nem precisa estar. Agora com ações na Nasdaq, ela precisa priorizar o lucro, e para lucrar seu negócio precisa do Starship, da Starlink e dos futuros data centers espaciais. Nada mais. Os outros que lutem.
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Fonte ==> Folha SP – TEC