Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Diante de um cenário global em rápida transformação, o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) está reformulando sua atuação. A urgência climática nunca foi tão evidente: estimativas apontam que o planeta pode ultrapassar o limite crítico de aquecimento de 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais já em 2029 – um limiar perigoso que pode tornar os eventos extremos mais severos e frequentes. Apesar desse alerta da ciência, o tema vem perdendo força na agenda política internacional. Para responder a esse descompasso, o programa, criado em 2008 com foco na física do clima, agora expande suas fronteiras para integrar dimensões urgentes da sociedade, como saúde pública, vulnerabilidade social e apoio à formulação de políticas públicas.
A proposta do comitê gestor é que o próximo ciclo, que vai orientar o planejamento para 2030-40, deixe de se organizar por disciplinas isoladas e passe a trabalhar a partir de problemas, perguntas e soluções relacionados à crise climática.
“Não estamos abandonando a modelagem nem a investigação dos aspectos físicos das mudanças climáticas, fundamentais para entender os processos do clima e nos quais o programa sempre foi forte. A ideia é evoluir para atender às necessidades reais da sociedade”, disse Luiz Aragão, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro da coordenação do PFPMCG.
A nova visão foi apresentada em dois eventos realizados no Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que reuniram pesquisadores, estudantes e coordenadores do programa. O primeiro encontro, em 22 de setembro, foi o Vozes do Futuro, dedicado a jovens cientistas. Nos dias 23 e 24, ocorreu o 6º Workshop do PFPMCG, cuja proposta foi discutir avanços científicos, desafios emergentes e prioridades para enfrentar a crise climática, promovendo diálogo interdisciplinar e apontando temas estratégicos para a pesquisa.
Ao longo dos últimos 18 anos, o programa influenciou políticas públicas e acumulou contribuições científicas importantes, como as projeções de aumento do nível do mar no litoral paulista, fundamentais para o planejamento costeiro. Também foram estudos apoiados pelo programa que caracterizaram os “rios voadores” da Amazônia, que explicam como se dá o ciclo hidrológico continental e como é feito o transporte de umidade para outras regiões do país (leia mais em: agencia.fapesp.br/25414 e revistapesquisa.fapesp.br/um-rio-que-flui-pelo-ar/).
Além disso, mais recentemente, o programa apoiou a projeção do Brasil em fóruns como a COP-30 e em projetos internacionais de vanguarda como o AmazonFace, que investiga como a floresta amazônica reage a concentrações elevadas de CO₂.
Mas, com a intensificação dos eventos extremos, a percepção comum é que a crise climática deixou de ser apenas um tópico ambiental e se tornou uma emergência sanitária e de direitos humanos. Hoje já estão mais do que comprovados pela ciência tanto a influência humana na mudança do clima quanto o efeito das ondas de calor, secas e inundações nos custos do Sistema Único de Saúde (SUS).
“Para conectar o clima à saúde pública, a modelagem precisa ir além da representação puramente física e avançar para uma base que integre processos físicos e biológicos. Isso pode ser feito acoplando modelos climáticos com dados sanitários, por exemplo”, afirmou Maria de Fátima Andrade, professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e membro da coordenação do programa da FAPESP.
Encontros reuniram pesquisadores, estudantes e coordenadores do programa (fotos: Daniel Antônio/Agência FAPESP)
Indisciplinar
Na avaliação da coordenação do PFPMCG, existe atualmente um desequilíbrio entre os temas abordados pelo programa. Nas propostas submetidas entre os anos de 2020 e 2025, 45% vêm das ciências exatas, enquanto apenas 4% são da área da saúde e cerca de 10% das ciências humanas e sociais.
Visando transformar esse cenário, a nova diretriz é organizar chamadas focadas em problemas e soluções transversais, e não mais por disciplinas isoladas. “Vamos praticar a interdisciplinaridade – ou ‘indisciplinaridade’, como diz Thomas Lewinsohn [professor emérito da Unicamp] – nas pesquisas e nas chamadas”, informou David Lapola, pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp e membro da coordenação.
Já Andrade chamou atenção para a sub-representação das ciências humanas no financiamento da FAPESP e defendeu a necessidade de uma mudança na forma como essas áreas são integradas às pesquisas sobre mudanças climáticas.
Para a professora do IAG-USP, as humanidades não podem aparecer apenas na etapa final de divulgação dos resultados. “É preciso que as perspectivas sociais, políticas e comportamentais estejam embutidas desde a concepção dos editais, de modo que os projetos já nasçam com perguntas que envolvam dinâmicas sociais e impactos sobre populações vulneráveis”, afirmou.
Ela também destacou que a comunicação entre cientistas e tomadores de decisão precisa avançar, e que pesquisadores das ciências sociais e políticas são essenciais para construir pontes que permitam transformar conhecimento em ação.
Segundo os participantes do workshop, entre os temas atualmente prioritários do PFPMCG estão: política energética e socioeconomia; modelagem climática e ambiental; biodiversidade e ecossistemas; mudanças de uso do solo e agropecuária; urbanização e mudanças climáticas; saúde e mudanças climáticas; dimensões sociais e econômicas.
Os coordenadores também destacaram que a nova fase do programa inclui a incorporação da abordagem “Saúde Única” (One Health), que entende haver uma integração entre a saúde humana, animal e ambiental (saúde planetária). Não por acaso, passou a integrar a coordenação do PFPMCG a professora Simone Miraglia, do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que tem larga experiência em pesquisas sobre poluição atmosférica e seus efeitos sobre a saúde pública.
“Esse tema da saúde planetária ocorre a partir do momento em que entendemos que os seres humanos fazem parte do planeta e não são algo separado”, disse Miraglia.
A estratégia envolve ainda a realização de chamadas conjuntas com outros programas da Fundação, entre eles o BIOTA-FAPESP, que tem vasta experiência e resultados na formulação de políticas públicas e serve de base para ações no campo da biodiversidade.
“Estamos muito perto de ultrapassar limites planetários seguros. Temos agora um super El Niño se formando com diversas implicações, entre elas o aumento dos eventos extremos, que trazem risco para populações. Então, não há mais espaço para que tomadores de decisão não considerem os aspectos climáticos como críticos para a gestão”, avaliou Aragão.

Participantes dos eventos puderam conferir a exposição “Visualizando os Recursos Hídricos sob as Mudanças Climáticas”, coordenada por Cristiano Chiessi, com apoio da FAPESP (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)
‘Obstrucionismo’
Em sua fala, Lapola argumentou que o negacionismo climático, que rejeitava abertamente as evidências científicas, vem dando espaço a uma estratégia conhecida como “obstrucionismo”. Embora o obstrucionista admita o problema das mudanças climáticas, ele foca em travar as soluções. Um exemplo dessa nova estratégia é a atuação de países como Arábia Saudita, Índia e Rússia nas negociações do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), além das recentes posições dos Estados Unidos na agenda climática.
“O obstrucionismo se apoia na crença de que a tecnologia vai nos salvar. A tecnologia nos salvou em vários momentos da nossa história, como as vacinas, por exemplo, que foram fundamentais na pandemia. Acontece que não existe uma tecnologia única e em escala suficiente para barrar as emissões de gases do efeito estufa. Portanto, essa esperança é colocada erroneamente como justificativa para adiar ações urgentes de mitigação, adaptação e de justiça climática”, avaliou.
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Fonte ==> Folha SP