Trator aplica defensivo agrícola em plantação de soja com pulverizador (foto: Shutterstock)
Extrato natural melhora o combate de ervas daninhas nas lavouras
29 de setembro de 2026
Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – A repetição constante de defensivos agrícolas sintéticos nas lavouras está criando um grave efeito colateral no campo: a seleção e o fortalecimento de ervas daninhas altamente resistentes. Safra após safra, o uso contínuo desses produtos elimina as plantas mais fracas e deixa apenas as mais tolerantes. Segundo dados da Embrapa e do Centro Internacional de Informações sobre Plantas Daninhas Resistentes, espécies como caruru, buva e capim-amargoso já provocam perdas de 50% a 70% na produtividade agrícola do país.
Diante desse desafio, a startup paulista Dana Agro buscou alternativas no próprio campo e desenvolveu um bio-herbicida inovador à base de extratos vegetais e ativos orgânicos capaz de driblar a resistência das ervas daninhas aos defensivos sintéticos. A tecnologia otimiza o manejo no campo e reduz em até 50% a necessidade de defensivos sintéticos no agronegócio, o que evita resíduos sintéticos nos alimentos e preserva solo e lençóis freáticos, afirma a engenheira agrônoma Dana Meschede, fundadora da empresa.
“O custo operacional da aplicação do bio-herbicida se equipara ao de tratamentos convencionais, mas há ganho na redução do número de passagens do trator na lavoura para pulverização”, diz a especialista em entrevista ao Pesquisa para Inovação.
De acordo com Meschede, ao contrário dos herbicidas convencionais, que concentram sua atuação em um único alvo enzimático da planta invasora e facilitam o surgimento de populações imunes por mutação com o uso repetido do mesmo ingrediente ativo, a fórmula do bio-herbicida que desenvolveram atua em múltiplos pontos do metabolismo vegetal. Por atacar a praga por diversos caminhos biológicos ao mesmo tempo, o insumo impede essa seleção de plantas tolerantes e alcança uma eficiência de controle entre 85% e 90% – patamar que, segundo a engenheira agrônoma, nenhuma opção química disponível no mercado hoje consegue atingir.
“Nossa tecnologia tem um modo de ação que controla a resistência atual e evita novas plantas tolerantes”, compara.
O desenvolvimento da solução demandou uma década de testes e reformulações, contando com o apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP. Em ensaios de campo, os pesquisadores avaliaram a seletividade do bio-herbicida – ou seja, a capacidade do produto de eliminar as ervas daninhas sem prejudicar a cultura agrícola. Os testes mostraram que, enquanto no milho o produto atua de forma total, na soja ele apresenta ação seletiva, controlando apenas tipos específicos de invasoras. Para evitar qualquer estresse foliar (danos visíveis ou redução temporária no desenvolvimento das folhas da cultura principal), o ajuste fino da formulação continua em estudo. Por esse motivo, o insumo é recomendado atualmente para duas frentes estratégicas: a dessecação pré-plantio (limpeza da área antes de semear a nova safra) e o manejo de entrelinhas (a aplicação direcionada nos espaços entre as fileiras da cultura, protegendo a planta principal).
Patente registrada
Com o pedido de patente registrado no Brasil, a tecnologia já despertou interesse comercial no mercado externo. Na América do Sul, a solução atraiu potenciais compradores no Paraguai, na Argentina e no Uruguai, países cujas lavouras sofrem com a severa resistência de ervas daninhas. Além disso, a startup estabeleceu uma parceria em Austin, nos Estados Unidos, e mantém negociações em andamento na Itália, em Portugal e na Inglaterra.
Esse avanço global alinha-se às exigências internacionais, como a diretriz da “Estratégia do campo à mesa”, vinculada ao Pacto Ecológico Europeu, que estabeleceu a meta de reduzir em 50% o uso de agrotóxicos químicos até 2030. Segundo Meschede, embora o mercado internacional busque alternativas adaptadas às rígidas legislações ambientais, a adoção do produto ocorre principalmente por sua eficácia real de manejo e pelo custo compatível com a operação agrícola. “Nossa tecnologia entra nas propriedades em razão do resultado que entrega no manejo. Além do desempenho técnico, a fórmula orgânica protege a saúde do aplicador e do consumidor final”, afirmou.
O impacto econômico direto gerado pela imunidade das pragas aos defensivos químicos ultrapassa R$ 9 bilhões por ano no Brasil. O caruru, por exemplo, apresenta resistência múltipla a até cinco mecanismos diferentes de controle, diz Meschede. “Para evitar isso, agricultores chegam a misturar até cinco produtos na mesma área, em aplicações sequenciais – prática que estressa a lavoura e pode reduzir a safra em mais 20%”, afirmou.
Próximos passos
O próximo passo da startup consiste na aplicação da nanoparticulagem das substâncias ativas. Ao reduzir as partículas à escala nanométrica – um milhão de vezes menor que um milímetro –, a absorção foliar será otimizada, permitindo o uso de dosagens ainda menores por hectare, apontou Meschede.
A longo prazo, o plano da empresa prevê expandir a linha de produtos para o controle de pragas e doenças agrícolas, setor cada vez mais pressionado pelas mudanças climáticas.
Fonte ==> Folha SP