Elton Alisson, de Londres | Agência FAPESP – O Reino Unido é o segundo maior parceiro internacional da ciência paulista. Nos últimos 15 anos, pesquisadores do Estado de São Paulo e da Grã-Bretanha publicaram mais de 18 mil artigos em coautoria, com impacto médio de citação quatro vezes acima da média mundial. O desempenho impressiona, mas ainda há espaço considerável para crescer, especialmente em áreas como inteligência artificial, transição energética, biotecnologia e biodiversidade, onde os interesses das duas comunidades científicas se alinham de forma cada vez mais evidente, conforme destacaram os participantes da cerimônia de abertura da FAPESP Week Londres – realizada nesta terça-feira (02/06) no Museu de Ciências da capital britânica.
O evento, que termina amanhã (04/06), tem como objetivo consolidar e ampliar parcerias científicas em áreas estratégicas de interesse mútuo entre pesquisadores paulistas e britânicos.
Em sua fala, o presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago, lembrou que a edição anterior da FAPESP Week em Londres ocorreu em novembro de 2019 – poucas semanas antes de a COVID-19 se tornar uma pandemia global. “Durante os três anos desafiadores que se seguiram, mais de 7 milhões de vidas foram perdidas no mundo todo, incluindo 600 mil no Brasil”, disse. “As publicações científicas caíram, os intercâmbios acadêmicos internacionais cessaram completamente e a demanda por financiamento para pesquisa diminuiu drasticamente.”
Zago celebrou a retomada, destacando que o cenário atual é muito diferente daquele de 2019. A inteligência artificial emergiu como a principal prioridade nas agendas de pesquisa da maioria das nações e já começa a remodelar até mesmo a forma como bolsas são submetidas e avaliadas por pares. No campo institucional, a FAPESP também se transformou: a agência concede hoje mais de 10 mil novas bolsas e auxílios por ano e apoia em torno de 50 centros de pesquisa de classe mundial com duração de dez anos, metade deles cofinanciados pelo setor privado, completou o presidente da FAPESP, referindo-se aos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) e aos Centros de Pesquisa Aplicada (CPAs).
O dirigente destacou ainda os sete temas estratégicos definidos pelo Conselho Superior da FAPESP como prioritários para os próximos três anos, que abrem oportunidades imediatas de cooperação bilateral: biotecnologia, transição energética, biodiversidade e produção sustentável de alimentos, transição digital e inteligência artificial, ciências e tecnologias quânticas, saúde humana e animal e violência e segurança pública (leia mais em: agencia.fapesp.br/57582).
São Paulo, lembrou Zago, já responde por 40% a 60% de todos os artigos científicos publicados no Brasil e concentra 22% de todos os empregos tecnológicos e 55% de todas as startups de base científica e tecnológica (deep techs) do país.
A terceira edição da FAPESP Week Londres está ocorrendo no Museu de Ciências da capital britânica (foto: Agência FAPESP)
Compromisso com a colaboração
Também presente na abertura do evento, Francis Wood, diretora de parcerias internacionais do UK Research and Innovation (UKRI) – o maior financiador público de pesquisa do Reino Unido –, reforçou que a parceria com a FAPESP é um dos modelos mais sólidos mantidos pela instituição e disse que há terreno fértil para aprofundá-la. “A ciência não pode ser um empreendimento solitário. Precisamos de nossos amigos e parceiros para resolver os problemas que enfrentamos e impulsionar o crescimento econômico que todos os nossos países precisam.”
Mesmo em meio a mudanças internas – o UKRI tem novo diretor-executivo e uma nova estratégia institucional prevista para breve –, Wood foi categórica: a colaboração internacional permanece no centro da missão da instituição. Ela destacou o alinhamento de prioridades entre as duas agências, especialmente em agritecnologia, biodiversidade e clima, como uma base sólida sobre a qual construir novas iniciativas.
Novos horizontes de inovação
A profundidade dessa parceria foi detalhada por Marcio de Castro, diretor científico da FAPESP, que listou iniciativas concretas e sinalizou os caminhos para avançar. A FAPESP e o UKRI copresidiram a Plataforma Transatlântica, consórcio multinacional voltado às humanidades e ciências sociais. Desde 2009, um acordo de modo responsivo com o UKRI permite que pesquisadores se candidatem de forma contínua a todos os conselhos de pesquisa britânicos. Em 2024, uma chamada bilateral com o Medical Research Council na área de inteligência artificial para saúde, com investimento combinado de até € 6 milhões, selecionou seis projetos colaborativos. Parcerias com o King’s College London e a Universidade de Birmingham – esta última abrangendo ciências ambientais, transporte urbano e saúde – ampliam ainda mais a abrangência da cooperação.
“Para a FAPESP Week Londres, nosso convite é identificar novas chamadas cofinanciadas, expandir a mobilidade de pesquisa e explorar centros conjuntos de pesquisa que possam levar adiante essa parceria excepcional”, afirmou Castro.
Polo global de inovação
O alcance da cooperação ganha ainda mais relevo quando se observa o peso econômico e científico do Estado de São Paulo. O secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Vahan Agopyan, destacou que, com apenas 3% do território nacional, São Paulo concentra 70% da força de trabalho baseada em conhecimento do país e abriga universidades consistentemente ranqueadas entre as cinco melhores da América Latina – a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp). O investimento público estadual em pesquisa e desenvolvimento gira em torno de R$ 1,8 bilhão por ano, equivalente a 11% do orçamento anual do Estado.
No campo da inovação, os dados são igualmente expressivos: São Paulo é o único ecossistema latino-americano entre os cem melhores do mundo e ocupa a 26ª posição no ranking global de startups. No segmento de fintechs, ostenta o título de maior ecossistema do planeta. “O governo faz seu papel, que é ajudar a inovação, mas não interferir nela”, disse Agopyan, descrevendo uma rede de quase cem ambientes de inovação – incubadoras, parques tecnológicos e distritos de inovação – espalhados pelo Estado, que reúnem pelo menos 2.200 startups e 700 grandes empresas.
Diplomacia da inovação
A dimensão estratégica da cooperação científica foi ressaltada pelo ministro-conselheiro Alexandre Brasil, da Embaixada do Brasil em Londres. Em sua avaliação, ciência e tecnologia deixaram de ser apenas ferramentas de desenvolvimento econômico para se tornar “motores de soberania nacional, equidade social e influência global”. Para fazer frente a esse cenário, o Brasil institucionalizou o que chama de “diplomacia da inovação” – estratégia que vai além da representação diplomática tradicional e busca posicionar o país como produtor, e não apenas receptor, de tecnologias de ponta.
O programa, lançado em 2017, opera por meio de unidades de ciência, tecnologia e inovação instaladas nas principais embaixadas e consulados brasileiros. A abordagem se apoia no conceito de “hélice quádrupla”, que articula governo, academia, iniciativa privada e sociedade civil em torno de objetivos comuns. “A agenda de cooperação científica é positiva, essencial. Reflete uma oportunidade rara porque é um jogo de soma positiva – ambas as nações se beneficiam do compartilhamento de conhecimento, da confiança mútua e de soluções conjuntas para desafios globais urgentes”, afirmou Brasil.
Palco da diplomacia científica
O encontro não poderia ter cenário mais simbólico. Shri Mukundagiri, vice-diretor executivo do Museu de Ciências britânico, destacou as conexões históricas da instituição-sede com o Brasil e o papel que a comunicação científica pode exercer no aprofundamento dessa relação. Nos últimos anos, o museu sediou a exposição fotográfica Amazônia e apresentou Água e Fogo, mostra que explorou a interseção entre eventos climáticos extremos e experiências humanas no Brasil. Uma adaptação da exposição Injecting Hope – sobre a corrida pela vacina contra a COVID-19 – foi exibida na Embaixada do Brasil em Londres.
“As pontes mais fortes entre nações são construídas não apenas pela diplomacia, mas pela curiosidade compartilhada, pelo respeito mútuo e por um compromisso comum de avançar o conhecimento para o benefício de cada ser humano”, disse Mukundagiri, ressaltando que esse compromisso nunca foi tão necessário “em um momento em que o papel e a virtude da ciência são frequentemente questionados em ambas as nossas nações”.
Próximas edições
Para encerrar a abertura, o gerente de Relações Institucionais da FAPESP e coordenador da FAPESP Week, Raul Machado, contextualizou a trajetória do evento. A série começou em 2011 em Washington D.C. (Estados Unidos) e passou nos últimos anos por Uruguai, França, Espanha e Alemanha. Os dados mostram aumento consistente no número de propostas conjuntas submetidas após cada edição – evidência de que o formato funciona como catalisador real de colaborações. As próximas edições já estão confirmadas: nos Países Baixos, em outubro de 2026, e no Canadá, em 2027.
“Estamos buscando mais do que apresentações científicas durante o evento”, concluiu Machado. “Queremos interação, networking e novas parcerias propostas entre os participantes.”
Mais informações sobre a FAPESP Week Londres em: fapesp.br/week/2026/london.
Fonte ==> Folha SP