Por Daniel Senna
Há decepções que podem desafiar a fé. Amar afetos próximos e vivos é fácil, mas também lhe edificará amar além, (ainda que inimigos, senão de que valerá o divino da fé?) aqui também se encontra a felicidade (amor a quem precisa ser amado, ainda que pela caridade pregada por santos e messias em espírito que caminharam pela terra). A caridade é um dos maiores meios de propagar o amor que tanto se prega nas principais religiões e sistemas filosóficos. Oremos…
Décadas atrás (muitas), a lembrança que todo brasileiro tinha, ou deveria ter, era sobre O Brasil de hoje, o que seríamos. A resposta que tínhamos era a mais vaga que uma criança pode ter: “o Brasil é o país do Futuro!”. Ao assumir o cargo de Chefe do Ministério Público do Trabalho na Bahia, minha mãe acordou-me dizendo: agora começa um novo futuro para várias pessoas que sua mãe vai tentar transformar. E transformou. Na sua luminosa carreira libertou escravos e defendeu trabalhadores.
Lembrei-me de quando tinha 5 anos (a memória não falha, e não deve falhar para nenhum profissional do Direito), quando e a vi na tv fazendo um “V” de vitória na caçamba de uma Saveiro (quem é da geração X sabe o que digo, recordar é viver), em plena campanha de meu tio-avô, Virgildásio Senna, à Prefeitura do Salvador/BA. Mal sabia que ele já fora prefeito cassado pela ditadura.
Aos 11 anos, um pirralho, num domingo qualquer, fomos à casa de uma amiga dela, minha dentista, quando só se via na TV a morte do Ayrton Senna, um dos maiores dos brasileiros. Perguntei de forma inocente: “ele é o quê da gente?”. A resposta foi simples: “nada, filho. Nosso Senna é de seu tio, quem fez a Constituição Federal.” E eu lá sabia que se referia ao maior e mais belo livro daquela atualidade.
Aos 13, ela me apresentou um outro pirralho, um Canadense (da mesma idade), que me arrastou para o mesmo destino dela: acabar com o trabalho escravo; e ela fazia parte, desta vez de crianças de 4, 5, 10 anos… Em pleno estádio de futebol vendo um clássico Bahia-Vitória. O canadense não entendeu por que o jogo terminou em empate.
Dia seguinte vi o caos com ele, no sertão baiano: crianças, da mesma idade, sem braços porque enfiavam sisal numa trituradora para virar tecidos, por um simples R$ 50 reais por mês (porque os pais não tinham alternativa; era socialmente compulsório). Esse dinheiro era a minha mesada, que eu gastava com cinemas e tênis da moda (acumulada por meses, claro – até porque, apesar do conforto, não éramos ricos).
Em pânico, entrei no caminho do Canadense e, ousado, virei colega de profissão de minha mãe. Cerca de 3 anos juntos, com os governos Estadual e Federal, eu ousado em participar de reuniões de gente importante, foram libertadas 5.300 crianças com os pais que precisavam daquele ordenado dos filhos. Vivia no gabinete dela lendo papéis e entra-e-sai de gabinete. Um dia me perguntou: “você quer ser o quê?”. Respondi de bate-pronto: “advogado”; “mas não quer ser procurador como sua mãe e seu avô?” Não, eu quero só advogado. Já estou sendo…
Depois de virar personagem de uma reportagem do Globo Reporter, em que o jornalista Marco Uchôa perguntou a um dos meninos-escravos como ele se via o futuro, Jeremias (com cerca de 4 anos) respondeu: “um futuro elegante”. Na época, um Secretário de Estado foi à nossa casa, elogiou-me e disse uma frase simples e sempre atual: “o futuro do Brasil está nas mãos da educação.”
Mais de 3 décadas depois meu destino cruzou com o do Jeremias de novo. Depois de quase morrer por causa de um AVC, fundei a ONG “TODOS POR UM” (voltei ao passado…), na lembrança do tal futuro “elegante”, mas agora o nome se completa oculto por simples slogan (Por um (FUTURO MELHOR)), para todos os Jeremias e crianças que já nascem com as portas fechadas, lembrando que ainda temos os adultos que buscam emprego que, para eles, fecham-se portas antes mesmo de procurarem trabalho e oportunidades, apenas porque nasceram sem chance de aprender a ler e a escrever.
Jeremias hoje é adulto, com a TODOS POR UM fizemos contato e ele me contou que já é casado, pai e supervisor de engenharia em uma famosa empreiteira. Seu irmão já é líder político na sua região. Aos 42 anos, sou advogando há mais de 20. Com a TODOS POR UM, vejo nossas crianças, antes tão vulneráveis, correndo de um lado para o outro com estudo, comida e cuidados.
Às vezes, paro uma delas e faço a mesma pergunta que Marco Uchôa fez há mais de 20 anos na reportagem: “como você vê o futuro?”. Se calam. Então, devolvo a mim próprio a pergunta: “por que não fala?” vem a resposta ÓBVIA em consciência: “CLARO! Está muda porque simplesmente não consegue imaginar o futuro dentro da sua própria realidade” na alegoria da caverna de Platão – a realidade deles não é a minha de criança, que já imaginava meu futuro como advogado.
Marco Uchôa… um grande jovem jornalista, dali em diante continuamos amigos conversando ao telefone por anos, vendo-o sempre disposto e a revelar duras realidades, com coragem de causar desconforto na TV e, assim, transformar vidas como a do Jeremias. Faleceu. Por isso, eu procuro mostrar caminhos. Digo: “Se você gosta de bichos, pode cuidar deles. Se você gosta de gente, pode defender. Você pode ser médico, juiz, cantor e até jogador de futebol”. O futebol costuma arrancar os maiores sorrisos.
Podem ser a cura do câncer, Novos Cândidos Portinari, grandes empresários que empregarão e gerarão riqueza e assim acelerar o passo do nosso grande “país do futuro”. Não tem país melhor no mundo; daqui não saio e aqui viverei até o fim (até o último suspiro no futuro, que espero esteja melhor do que o presente). Não quero, e ninguém deveria querer, que o Brasil fosse os Estados Unidos de Segunda Ordem. Quero o Brasil de primeira, o de Ordem e Progresso. Com o Fim do Império da asa dos Bragança, o brasileiro tinha vergonha do que tinha de negros e indígenas.
Caricatamente depois a elite passou a querer falar francês; e hoje burlescamente quer ter orgulho do que querem transformar-nos em segunda ordem. Para mim, TODOS POR UM (futuro melhor) também me remete ao passado (quando resolvi ser advogado aos 15 anos), certamente porque gostei da experiência de reescrever histórias de vida e hoje deixar clientes menos angustiados com seus problemas sendo carregados por mim. Mais do que acumular vitórias em um sistema que corriqueiramente falha (e muito), o que embeleza a profissão é justamente deixar os outros dormirem sabendo que tem alguém trabalhando para vencer suas angústias – “descansa em paz, ainda que vivo.”
O título deste artigo é inspirado em uma frase que ouvimos (no grupo de jovens canadenses), da hoje Santa Madre Teresa de Calcutá: “você pode fazer grandes coisas, mas também pode fazer pequenas grandes coisas se você dizê-las com amor.” No Brasil, Chico Xavier já dizia: ame sem esperar ser amado de volta. Eis o sentido da vida: o amor. Se buscas a verdadeira felicidade, o seu objetivo é simplesmente amar – e superar as más inclinações (e perdoar).
Voltando às memórias do passado, quando juntei uma horda de crianças e jovens nas escolas particulares de Salvador, hoje é exatamente o mesmo que busco inspirar nos jovens de hoje, o sentimento de pertencimento real que tive no passado. Pertencer a algo realmente edificante.
Na minha época o celular era um “tijolo” da Motorola. Hoje a vida real dos jovens é viver com um smartphone em punho fazendo compartilhamentos de mesa farta e vida de suposta felicidade. Não me leve a mal. Eu também tenho smartphone e compartilho, ainda que pouco, alguns pedaços (não abundantes, ao menos hoje) de minha vida privada.
Hoje faz parte do “contrato social” descrito na obra Leviatã, de Thomas Hobbes, em que os indivíduos resolveram fazer deixar o estado de natureza feroz (intrínseco da busca por riqueza e poder, que percebo ser a busca de ter e o vazio de possuir, dando lugar ao pacto social, onde o indivíduo passa a conviver dentro de um sistema de regras.
E tenho para mim que a principal regra tem como pilar os valores universais da dignidade da pessoa humana e da união dos povos. Einstein já dizia algo interessante: o problema do mundo não é quantidade de gente má que existe, mas que as boas não se juntam para combater o mal. Hoje, A proposta da TODOS POR UM é também (talvez a principal) é trazer os jovens (desde criança à adolescência), quase que uma clássica sociedade estudantil (de escolas e universidades), a pertencer a TODOS nós, expandindo nosso projeto, ideais e dando-lhes espaço para não apenas para aprender, mas principalmente para ver que debater e transformar realidade é libertador de dores e angústias em tempos de vazios existenciais causados por um mundo comicamente virtual.
Na real, o verdadeiro retrocesso é chegar, em pleno futuro (ao menos, quando criança, achava que 2026 seria futuro), sem o prometido “Brasil do futuro”, que não resistiu apesar do tempo. Não é repetir os erros, mas perceber-se no presente sem um projeto construído da maneira que imaginava ser ou estar.
O que posso dizer: hoje estamos aqui, todos, para recrutar e finalmente conquistar essa promessa enquanto estivermos vivos. Reúnam todos os seus amigos e colegas, vamos nos encontrar, conversar e postem mais o Brasil real descortinado por Machado de Assis.
Manifestem-se não apenas por meio de política, mas por vocês próprios. Vãos às ruas pelo futuro, mostrem que existem, que conseguem fazer mais e aproveitem para postar esse tipo de conquista. Amem sem esperar ser amados. Espero que dê certo.