José Tadeu Arantes | Agência FAPESP* – Milton Santos nunca aceitou que o mundo fosse tomado como dado. Para ele, aquilo que parece natural – a cidade, o território, a globalização – é sempre resultado de uma história: de decisões, de interesses, de desigualdades. Ao longo de uma trajetória que começou em uma cidadezinha do interior baiano e atravessou o jornalismo, a política, a prisão, o exílio e a ampla circulação internacional, o geógrafo formulou uma ideia central: o espaço não é o cenário passivo da vida social, mas uma de suas formas fundamentais de produção.
Essa visão nasceu de uma experiência concreta. Negro, nascido em uma região com poucos recursos, mas muito incentivado pelos pais, professores, Milton conheceu desde cedo as desigualdades, que, mais tarde, se tornariam objeto de sua reflexão. E transformou essa experiência em teoria: uma geografia capaz de explicar, com rigor, como o mundo é organizado – por quem e para quem.
A família, a escola e o início do magistério
Milton Almeida dos Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, Bahia, em uma região marcada pelo isolamento e pela precariedade das condições materiais. Seu avô paterno viveu uma parte da vida como escravizado. Os pais, Adalgisa Umbelina de Almeida Santos e Francisco Irineu dos Santos, eram ambos professores no que hoje corresponde à educação básica, e desempenharam papel fundamental em sua alfabetização e formação inicial. Teve dois irmãos: Nailton e Ieda.
Os pais, Francisco Irineu dos Santos e Adalgisa Umbelina de Almeida Santos (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)
A infância foi atravessada por deslocamentos, com sucessivas mudanças da família para outras cidades do Estado: Ubaitaba, Alcobaça e Salvador. Por isso, sua formação escolar ocorreu de modo irregular, marcada por interrupções e pela necessidade de adaptação a diferentes contextos. Ainda assim, destacou-se nos estudos. Aos 10 anos de idade, passou a viver longe dos pais, em Salvador, para estudar, em regime de internato, no Instituto Baiano de Ensino, instituição na qual ingressara em primeiro lugar.
Em uma entrevista memorável ao portal “Geledés: Instituto da Mulher Negra”, ele forneceu algumas informações muito reveladoras sobre esse período inicial de formação, que reproduzimos aqui de forma condensada: “Minha infância foi protegida. Eu aprendi cedo coisas que não eram comuns para as crianças da minha idade. Meu pai era um homem muito bem-educado, muito fino. Ele achava que a educação não era só aprender conteúdos, mas aprender a se comportar no mundo. Ensinou-me francês, álgebra e boas maneiras. Os gestos, para ele, eram muito importantes. Ele me orientou a não olhar para baixo. Dizia que a gente tinha de olhar para a frente, olhar nos olhos das pessoas”, contou.
E acrescentou: “Eu fui educado para o mando, para comandar, para ter uma certa postura diante dos outros. Relacionamento é poder: saber se comportar, saber falar, saber estar. Isso tudo fazia parte da educação que recebi, de tal maneira que, na sociedade dos brancos, eu não chocava. Eu tinha os códigos, sabia como entrar e sair dos lugares”.

A infância foi atravessada por sucessivas mudanças de cidade e de escola,
mas ele destacou-se nos estudos (foto: acervo da família)
O ensino surgiu precocemente, por necessidade e desígnio. Ainda jovem, passou a atuar como professor auxiliar, experiência que ele próprio reconheceria como decisiva: “A atividade docente surgiu cedo como forma de manutenção e também como vocação. Esse momento marcou o início de minha vida intelectual”, escreveu em um memorial biográfico, preservado no enorme e precioso Acervo Milton Santos, no arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). Aos 13 anos, já lecionava matemática no próprio Instituto Baiano de Ensino. E, aos 15, começou a lecionar geografia também. A familiaridade com a matemática e as chamadas ciências exatas é um traço importante de sua biografia. Mais tarde, ele se interessaria vivamente pela tecnologia e incorporaria isso à sua visão sobre as sociedades. Ainda no curso secundário, criou e dirigiu dois jornais: O Farol e O Luzeiro. E começou a participar do movimento estudantil.
Em uma entrevista originalmente publicada na revista Geosul número 7, em 1989, e republicada nos números 12 e 13, em 1991 e 1992, Milton forneceu algumas informações importantes sobre este e outros períodos de sua vida, reproduzidas aqui com pequenos ajustes editoriais. “Eu fui o fundador da União Brasileira dos Estudantes Secundários. Estava no primeiro ou no segundo ano do Curso Complementar [em 1942 ou 1943]”, afirmou.
“Quando fundamos a União de Estudantes Secundários da Bahia, criamos um cisma com a UEB [União dos Estudantes da Bahia], dirigida por Fernando Santana, que foi uma espécie de líder nosso. Nós tínhamos uma idolatria por ele, assim como pelo Jacob Gorender, tão feio quanto bom orador, e que foram os líderes, em Salvador, pela entrada do Brasil na guerra [Segunda Guerra Mundial]. Nós todos os seguíamos de forma desenganada e, neste momento, houve, digamos assim, uma aproximação física com esses líderes mais próximos do Partido Comunista”, prosseguiu.
E disse mais: “Quando, porém, eu convoquei o Congresso Brasileiro de Estudantes Secundários e se formou a chapa para a presidência da entidade, Mário Alves, mais velho que eu, e outros recusaram-me a possibilidade de eu ser o presidente, alegando, para fazer um acordo com a Igreja, que um negro teria dificuldades para conversar com as potências da política e da sociedade. E aquilo me chateou. Talvez este episódio, que deve ter sido resultado da incapacidade minha de inspirar confiança, tenha tido um papel importante nas minhas posições durante um bom tempo de vida”.
Convém informar que, em 1970, Mário Alves (1923-1970) seria morto sob tortura pelo aparato de repressão da ditadura civil-militar brasileira. Jacob Gorender (1923-2013), também encarcerado e torturado, escreveu depois na prisão parte do livro O escravismo colonial, que seria publicado em 1978 e se tornaria uma obra referencial sobre a formação econômico-social brasileira. Fernando Santana (1915-2012), que foi um dos coordenadores da campanha “O Petróleo é Nosso”, em defesa da propriedade do subsolo pelo Estado brasileiro, também seria cassado pela ditadura. Depois da anistia, retomou atividade parlamentar e participou ativamente da Assembleia Nacional Constituinte de 1987.
Na juventude ainda, Milton teve contato com a obra do médico e cientista social Josué de Castro (1908-1973), autor do clássico Geografia da fome. As reflexões de Castro sobre a fome e as desigualdades sociais deixaram marca duradoura, que contribuiu para a definição do eixo de sua trajetória: a reflexão sobre a sociedade, tendo como base de apoio a experiência concreta do ensino. Muitos anos mais tarde, Milton e Josué, ambos exilados na França, encontraram-se pessoalmente e permaneceram amigos até a morte deste último, em 1973.
Direito, jornalismo e geografia
Em 1948, Milton formou-se em direito na Universidade da Bahia, mais tarde federalizada com o nome de Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em Salvador, considerada a maior cidade negra fora da África, o álbum com as fotografias de formatura da turma dele, zelosamente guardado no acervo do IEB-USP, prima pela escassez de rostos negros: apenas três entre dezenas de formados. Seja como for, ele ultrapassou essa barreira de exclusão racial, como ultrapassaria muitas outras depois.

Graduação no curso de Direito, na Universidade da Bahia, 1948 (foto: acervo da família)
No entanto, sua atuação nunca se restringiu ao campo jurídico. Desde cedo, combinou diferentes frentes de atividade: o ensino, a pesquisa, o jornalismo e a intervenção pública. Em Ilhéus, no sul da Bahia, onde deslanchou a carreira docente, desenvolveu pesquisas sobre a monocultura da região cacaueira e apresentou seu primeiro trabalho à Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), intitulado “Zona do Cacau”. Ao mesmo tempo, passou a trabalhar no jornal A Tarde, em Salvador, onde começou assinando uma coluna e viria a escrever mais tarde editoriais e análises sobre temas urbanos, sociais e políticos. Essa combinação entre prática empírica, reflexão teórica e intervenção pública se tornaria uma marca permanente de sua trajetória.
O artigo Milton Santos – alguns aspectos de sua vida e obra, da historiadora e geógrafa Maria Auxiliadora da Silva (UFBA), é uma boa fonte de informação sobre o período. Ele foi reproduzido no site Milton Santos, organizado e mantido por seus familiares.
Ainda em Ilhéus, Milton conheceu sua primeira esposa, Jandira Rocha, com quem teve seu primeiro filho, Milton Almeida dos Santos Filho, conhecido como Miltinho. Posteriormente, ele se separou da esposa, mas manteve contato estreito e frequente com o filho. Miltinho, professor da Faculdade de Economia da UFBA e secretário de Finanças da Prefeitura de Salvador na gestão Lídice da Mata, morreu prematuramente em 1996, o que constituiu um duro golpe para o pai.
Entre a ciência e a política
Nos anos 1950 e início dos 1960, Milton Santos consolidou sua inserção institucional, doutorando-se na Universidade de Estrasburgo, sob orientação do geógrafo francês Jean Tricart (1920-2003), com a tese “O Centro da Cidade de Salvador”. Tricart, que tinha enorme admiração pelo humor, a inteligência e a cultura de Milton, foi quem o incentivou a estudar o marxismo.
Essa primeira viagem à Europa, depois estendida à África, resultou no livro Marianne em preto e branco, publicado em 1960. A Marianne do livro não é uma pessoa real, mas a personificação simbólica da República Francesa, fundada no trinômio “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. A obra é essencialmente um livro de viagem, atravessado pelo que poderia ser chamado de “olhar estrangeiro” – um modo de ver que, muitas vezes, captura aquilo que o olhar nativo deixa passar.

Nos anos 1950 e início dos 1960, Milton Santos consolidou sua inserção institucional (foto: acervo da família)
De volta ao Brasil, Milton tornou-se livre-docente na Universidade da Bahia. Como Maria Auxiliadora da Silva revela no artigo já citado, o concurso de livre-docência de Milton, na Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia, sofreu inicialmente um boicote, motivado, de forma velada, por preconceito racial. Ele teve que lutar na justiça, e vencer em todas as instâncias, para poder se apresentar brilhantemente no concurso, em 1960, com a tese “Os Estudos Regionais e o Futuro da Geografia”. Seu advogado foi o então deputado federal e depois senador Nelson Carneiro (1910-1996).
Com o apoio do reitor Edgard Santos (1894-1962), Milton fundou, em seguida, o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, contribuindo para a estruturação da geografia acadêmica no país. Ao mesmo tempo, assumiu funções públicas, com a presidência da Comissão de Planejamento Econômico (CPE) da Bahia.
O artigo O périplo do exílio de Milton Santos e a formação de sua rede de cooperação, de Breno Viotto Pedrosa, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), traz muitos dados sobre esse período e o seguinte.
Em março de 1960, na condição de candidato à Presidência da República, Jânio Quadros (1917-1992) visitou Cuba, sendo recebido com todas as honras e cortesias por Fidel Castro. O Estado cubano ainda não se declarara oficialmente socialista – o que só foi proclamado um ano mais tarde, em abril de 1961 –, mas, depois da reforma agrária e das primeiras nacionalizações, já estava sendo atacado pelos Estados Unidos, e iniciara seu processo de aproximação com a União Soviética. Nesse contexto, contaminado pela Guerra Fria, a visita foi duramente criticada pelos setores conservadores brasileiros. Como integrante do governo baiano, Milton fez parte da comitiva de Jânio. E isso viria a pesar contra ele anos mais tarde, por ocasião do golpe civil-militar de 1964.
Na entrevista já citada à revista Geosul, Milton contou que a comitiva de Jânio reunia “uma plêiade de intelectuais”, liderada pelos jornalistas e escritores Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Castelo Branco. E acrescentou que, em 1960, já presidente, Jânio o chamou, como a intenção de nomeá-lo embaixador. “Ele precisava urgentemente nomear um embaixador negro, mas eu estava em Paris, onde a primavera estava linda, e assim atrasei meu regresso. Ao chegar aqui, o presidente me nomeou subchefe do seu gabinete civil e seu representante pessoal na Bahia. Este convívio me deu completo sentimento da fatuidade do poder”, disse.
Na mesma época, Milton participou de missões à África, entrando em contato com os processos de descolonização em curso. Sua atuação à frente da CPE baiana foi fortemente influenciada pelo pensamento desenvolvimentista de Celso Furtado e pela atuação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), uma autarquia federal criada em 1959 para impulsionar o desenvolvimento, reduzir desigualdades e atrair investimentos para o Nordeste. Nailton Santos, irmão do Milton, participava da instituição, e isso facilitou a aproximação. Tanto Furtado quanto Milton compreendiam o “subdesenvolvimento” como um fenômeno estrutural, e não como simples atraso em relação aos países centrais do sistema capitalista mundial.
1964: prisão, exílio e “a travessia do deserto”
A atuação de Milton o colocou no centro do debate político nacional. E também o expôs diretamente às consequências da ruptura institucional perpetrada pelo golpe civil-militar de 1964. Avisado de que corria perigo, ele foi convidado pelo cônsul honorário da França em Salvador, Raymond Van der Haegen, a se abrigar em sua casa. E permaneceu alguns dias refugiado ali. Mesmo assim, acabou sendo preso.
No jargão característico da ditadura civil-militar, a acusação feita a ele era a de que a CPE estaria “infiltrada por comunistas”, sendo o próprio Milton caracterizado como um “inocente útil” para atividades “subversivas”. Segundo relatório da Comissão Milton Santos de Memória e Verdade da Universidade Federal da Bahia, o geógrafo permaneceu preso entre 9 de abril e 23 de junho de 1964. Apoiado por pressão diplomática e movimentação de intelectuais, o cônsul francês conseguiu negociar, com as autoridades militares, sua libertação e saída do país.
Em dezembro de 1964, Milton deixou o Brasil, iniciando um exílio que se estenderia por toda uma década. Seu primeiro local de acolhimento foi a Universidade de Toulouse-Le Mirail, posteriormente renomeada Université Toulouse – Jean Jaurès, na França, uma instituição pública focada em humanidades, ciências sociais, letras e artes. Lá permaneceu por cerca de três anos.
Posteriormente, mudou-se para Bordeaux, onde viveu por um ano. Esse período foi muito importante por um motivo pessoal, pois foi quando conheceu a geógrafa argelina Marie-Hélène Tiercelin, com quem se casaria anos depois e que seria sua companheira até o fim da vida.

Milton Santos com seu filho Miltinho e Marie-Hélène em Montreal, no Canadá, 1971 (foto: acervo da família)
Em 1968, Milton transferiu-se para Paris, lá permanecendo até 1971. Nesse período, lecionou na Sorbonne e atuou como diretor de pesquisas em planejamento urbano no Institut d’Étude du Développement Économique et Social (Iedes). Na Revue Tiers Monde (Revista Terceiro Mundo), importante veículo de comunicação do Iedes, ele publicou artigos sobre alimentação nos países subdesenvolvidos; geografia da fome e planejamento regional; comércio alimentar e dinâmica urbana.
Seguiu-se um período de intensa movimentação, no qual ele lecionou na Universidade de Toronto, no Canadá; foi pesquisador visitante no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos; retornou a Paris; deu aulas na Universidade Central da Venezuela; e organizou o curso de pós-graduação em geografia na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, país onde permaneceu por dois anos.
Além dessas estadias mais prolongadas, seus deslocamentos pelo exterior incluíram atividades de curta duração em diferentes contextos: México (1966); Peru (1973); Costa Rica (1975). E, no âmbito de missões e pesquisas ligadas à Organização Internacional do Trabalho (OIT), circulou por vários países da África e América Latina, entre eles, Costa do Marfim, Daomé (atual Benim), Gana, Togo, Tunísia, Argélia, Cuba, México e Colômbia. Em meio a todas essas andanças, ele se casou com Marie-Hélène Tiercelin, em Porto Príncipe, no Haiti, em 1972.
Conforme o estudo citado de Breno Viotto Pedrosa, a rede de relações internacionais de Milton, que já era bastante extensa, ampliou-se de maneira decisiva durante o exílio. Na França, estabeleceu vínculos com figuras centrais da geografia e da economia do desenvolvimento, como Pierre George, François Perroux, Bernard Kayser, Yves Lacoste e Michel Rochefort, inicialmente aproximando-se de suas abordagens e, depois, desenvolvendo uma crítica própria. Ao longo de seu périplo, entrou também em contato com intelectuais da geografia crítica que atuavam nos Estados Unidos, como o britânico Richard Peet, cofundador da revista Antipode, de orientação marxista.
Suas conexões não se limitaram aos círculos acadêmicos dos países centrais, estendendo-se também aos ambientes intelectuais e políticos do chamado Terceiro Mundo. Sua permanência na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, entre 1974 e 1976, deu-se em um contexto fortemente marcado pelas experiências africanas de libertação, construção nacional e reflexão crítica sobre o colonialismo – tanto práticas quanto teóricas. Sob a presidência de Julius Nyerere (1922-1999), a Tanzânia vivia um momento particularmente fértil do ponto de vista político e intelectual, buscando construir um socialismo africano, condensado na palavra Ujamaa, que significa “unidade” ou “família’, na língua suaíli – experiência que atraía pesquisadores de várias partes do mundo. Milton tornou-se amigo de Nyerere.
Como informa o geógrafo Billy Malachias, aluno e colaborador de Milton, um político e pensador africano que o influenciou fortemente foi Amílcar Cabral (1924-1973), líder do movimento de libertação de Guiné-Bissau e Cabo Verde. Outra referência importante foi Akinsola Akiwowo, sociólogo nigeriano que propôs uma “sociologia indígena” baseada em categorias iorubás, buscando reconstruir a teoria social a partir de epistemologias africanas e não apenas de matrizes europeias.
Mas é preciso dizer que Milton nunca perdeu a conexão com o Brasil. E, no grande círculo de intelectuais com os quais manteve estreito contato no exterior, deve-se mencionar pelo menos três que tiveram destacado protagonismo na vida brasileira: Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares e Paulo Freire. Outro contato importante do período de exílio foi com o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes (1916-2005).
Deve-se enfatizar ainda que o exílio não foi um episódio marginal na vida de Milton Santos, mas uma experiência estruturante de sua trajetória. Vivendo e trabalhando em diversos países, interagindo com pessoas dos mais variados contextos culturais, acumulou experiências que ampliaram decisivamente o alcance de sua reflexão. Como conta a documentalista Elisabete Marin Ribas, do IEB-USP, Milton Santos foi o brasileiro que mais recebeu títulos de Doutor Honoris Causa, concedidos por universidades do país e do exterior. Mais do que simples honrarias acadêmicas, esses títulos são atestados de sua experiência profunda como cidadão do mundo.

Entrega do título Honoris Causa pela Universidade de Barcelona, 1996 (foto: J.B. Conti/Itaú Cultural)
Referindo-se mais tarde ao exílio, ele o comparou à “travessia do deserto”. Mas Milton não atravessou o deserto e o deixou para trás. Ao contrário, apropriou-se dele, carregou-o consigo, como carregava também o Brasil. Em anotações manuscritas para seu discurso na cerimônia de reintegração à Universidade Federal da Bahia, ocorrida em 1995, ele escreveria: “Ontem, um jornalista queria saber o que eu sentia, voltando para casa. Voltar para casa é uma metáfora, por mais verdadeiro que seja o gesto de voltar. Churchill costumava dizer que primeiro fazemos nossas casas e, depois, nossas casas nos fazem. A nossa terra, o lugar, não os fazemos. São eles que, corpo e alma, literalmente nos fazem. Nas andanças que a vida me reservou, as velhas pedras nunca as deixei aqui. Esse é o milagre de viver. Mesmo as pedras nos seguem”.
Retorno ao Brasil e consolidação na USP
Antes de deixar a Tanzânia, em 1976, Milton recebeu o primeiro convite para voltar ao Brasil, feito pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Porém, sob o governo do general Ernesto Geisel, o quarto presidente da ditadura civil-militar, o país vivia um processo ainda muito incipiente e instável de abertura política, com avanços tímidos e recuos perigosos, que não encorajavam o retorno. Nesse período, ele esteve outra vez na Venezuela e depois foi para a Columbia University, em Nova York.
O regresso ao Brasil acabou ocorrendo apenas em 1977. Marie-Hélène veio com ele. E o filho do casal, Rafael, nasceu nesse mesmo ano, em solo brasileiro. Mas a reinserção profissional de Milton no país não foi fácil. Em contraste com várias universidades do exterior, que lhe abriam suas portas, as universidades brasileiras, ainda sob o pesado enquadramento do regime ditatorial, mostraram-se reticentes. A Universidade Federal da Bahia, sua alma mater, não se movimentou nesse momento para reintegrá-lo como professor.
Sua amiga, a geógrafa Maria Adélia Aparecida de Souza, que fora aluna de Pierre George, Yves Lacoste e Celso Furtado, e se doutorara na Universidade de Paris, estava trabalhando, então, como coordenadora de Ação Regional no governo do Estado de São Paulo, encabeçado por Paulo Egydio Martins. E o convidou a atuar como consultor, enquanto aguardava uma oportunidade na universidade. Posteriormente, ele veio a lecionar, como professor visitante, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), até 1983.
O país ingressara, então, em um momento político de rara intensidade. O movimento pela redemocratização, que ganhara corpo com a realização das grandes passeatas estudantis de 1977 e a greve dos operários do ABC paulista de 1978-1980, se diversificara e recebeu a adesão de vários segmentos da sociedade, inclusive de grupos que haviam apoiado a ditadura. O regime se desmanchava, com a revogação do Ato Institucional Número 5, que tinha concedido poderes excepcionais ao núcleo militar no poder (1978); o fim do bipartidarismo e a criação de novos partidos (1979); a Lei da Anistia, permitindo a libertação de presos políticos e o retorno de exilados (1979); e a extinção gradual da censura (1979-1980). Tudo convergiu e culminou na ampla campanha por eleições diretas (1983-1984).
Foi nesse novo contexto que Milton Santos ingressou na USP, contratado como professor titular do Departamento de Geografia em 1984. Ele permaneceria na USP mesmo depois de sua aposentadoria, em 1997, atuando como professor convidado. Esse período caracterizou-se pela consolidação de sua obra teórica, que culminaria em livros que se tornariam referenciais, como A natureza do espaço (1996) e Por uma outra globalização (2000).

Com seus alunos Eliza Almeida, Mônica Arroyo, Flavia Grimm,
Adriana Bernardes Fabio Contel e Lydia Antongiovanni, em 1999 (foto: acervo da família/Itaú Cultural)
Produção intelectual e idiossincrasias
Traço decisivo de sua obra é um novo entendimento sobre a natureza do espaço geográfico. Em vez de tratá-lo como um cenário inerte, ele o vê como uma realidade dinâmica, produzida pela interação entre elementos materiais e práticas sociais. O espaço, para ele, é inseparável das técnicas, das formas de organização econômica, da estrutura social e das decisões políticas. Infraestruturas, cidades e territórios não são componentes neutros de um conjunto disjunto: incorporam intencionalidades, configuram desigualdades e definem possibilidades de ação. Tal abordagem transforma a geografia em uma teoria geral da sociedade, capaz de explicar sobre que bases se estruturam os processos históricos.
Estes e outros elementos basilares de seu pensamento são tratados em alguns dos textos que compõem a presente edição.
Na esfera pessoal, Milton primava pelo esmero e pela disciplina. Billy Malachias, que conviveu com ele, recorda sua maneira muito formal de se vestir: “Eu não tenho lembrança de vê-lo de camiseta; no máximo, com camisa social de manga curta. Em sala de aula, costumava aparecer de terno claro, camisa social e pasta na mão. Um estudante chegou a chamá-lo de ‘o baiano mais francês da face da terra’, expressão que considero sugestiva, pois esse modo de se apresentar teria sido, em parte, aprendido na França e incorporado como traço pessoal”.
O mesmo apuro com que se vestia ele dedicava à elaboração de suas aulas. Nunca era um improviso, mas um encontro meticulosamente preparado. O Acervo Milton Santos, no arquivo do IEB-USP, contém uma grande quantidade de fichas preparatórias de aulas, impecavelmente datilografadas, em uma época em que os computadores pessoais ainda não estavam em uso. Havia nisso um evidente respeito pelo conhecimento e pelos alunos que iriam recebê-lo.
Malachias relata sua própria experiência como aluno. “Ele levava para as aulas textos que estava escrevendo e os submetia à crítica dos estudantes, que respondiam com suas referências e interpretações. Esse processo de interlocução fazia com que ele buscasse continuamente maior precisão conceitual. Isso reforça a ideia de que, para Milton, os conceitos são históricos, datados e permanentemente reelaboráveis.”
Ao mesmo tempo, sua compulsão por guardar fichas de leitura, preparações de aulas, esquemas de livros, esboços de discursos, papéis de todo tipo revela que talvez ele agisse também com os olhos postos na posteridade, como que acumulando para seus futuros biógrafos um vasto repositório de fontes primárias. Não é à toa que seu acervo no arquivo do IEB-USP é, de longe, o mais volumoso de todos. E considere-se que o arquivo contém acervos de Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, entre muitos outros.
Pesquisa intensa e projeção midiática
Em sinergia com o ensino, Milton dedicou-se também intensamente à pesquisa. O quanto se empenhou nisso pode ser avaliado pela quantidade de solicitações de bolsas e auxílios à pesquisa que submeteu à FAPESP. Entre 1990 e 1994, chegou a atuar como coordenador da Área de Arquitetura e Urbanismo da Diretoria Científica da FAPESP. Ele tinha uma poderosa noção do que significava a carreira acadêmica e da responsabilidade social do intelectual.
Às vezes, chegava a ser bastante cáustico em suas avaliações, quando o ambiente acadêmico não correspondia a suas expectativas. O professor Jaime Tadeu Oliva, que foi seu aluno e colaborador, várias vezes o escutou dizer que, no ensino universitário, existiam dois tipos de pessoas: os letrados e os que pensam. “Ele era muito crítico em relação ao modo como a universidade funciona. Dizia que esse sistema transforma os docentes em burocratas, desestimula o pensamento e a reflexão mais lenta.”
Oliva conta um episódio característico de sua postura: “Na cerimônia em que ele recebeu o título de Professor Emérito na USP, o esperado era um discurso de agradecimento. Ele fez o contrário: criticou a universidade. Disse que a universidade queria transformar os professores em uma linha de produção de artigos, que as pessoas repetiam textos, fragmentavam ideias, escolhiam temas por financiamento e não por interesse intelectual. Também criticou a ausência de negros na universidade. Foi um discurso totalmente inesperado. Ele continuava sendo o Milton mesmo nesse momento”.
Deve-se acrescentar que, embora fosse claramente um intelectual de esquerda, e possuísse nesse campo político uma vasta rede de contatos, Milton se recusava a participar de partidos e organizações, pois considerava que isso tolheria sua liberdade de reflexão e comprometeria o rigor crítico de sua obra. Essa posição de franco-atirador, que adotou muito cedo, Milton a creditava, em parte, à influência francesa: “Ela é responsável por um estilo independente que aprendi com Sartre, distante de toda forma de militância, exceto a das ideias”, escreveu.
Desnecessário demonstrar que essa postura o colocava em uma posição de relativo isolamento. Apesar disso, Milton foi ganhando, com o passar dos anos, crescente projeção midiática, sendo convidado para conferências, debates e entrevistas. Em 1997, ele foi entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, e justificou com muita clareza seu modo de atuação: “Como intelectual, eu tenho que me habituar a estar sozinho. O intelectual se caracteriza por sua força crítica, existe para criar o desconforto. Eu não posso ser ao mesmo tempo intelectual e establishment. Quando os intelectuais decidem ser establishment, eles abandonam sua vontade crítica”.
Em meados da década de 1990, Milton foi diagnosticado com câncer de próstata. Apesar da doença, manteve intensa atividade intelectual e acadêmica, publicando novas obras e continuando a lecionar. Deu aulas na USP até o ano 2000. Em 2001, foi publicado seu último livro, O Brasil: Território e sociedade no início do século 21, escrito em colaboração com a geógrafa argentina María Laura Silveira, que foi sua orientanda de doutorado.
Nesse mesmo ano, sua condição de saúde se agravou. Internado no Hospital do Servidor Público Estadual, em São Paulo, faleceu em 24 de junho de 2001, aos 75 anos. Seu último projeto de pesquisa, em conjunto com María Laura Silveira, e apoiado pela FAPESP, não pôde ser concluído.
No já citado rascunho para o discurso de reintegração na Universidade Federal da Bahia, Milton deixou outra anotação preciosa que pode ser tomada como epílogo para sua trajetória: “As lições deste dia: vale a pena viver; é bom olhar para trás, desde que o passado não funcione como norte; nosso norte é o futuro; mas somente é possível pensar no futuro quando se está ancorado no lugar. Não estarei eu proferindo uma antinomia? O lugar também são coisas que vêm do passado, o lugar é uma acumulação de tempos”.
* Com a colaboração de Fabiana Pereira, do Centro de Memória FAPESP.

Fonte ==> Folha SP