José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Em um mundo marcado pela fragmentação dos laços sociais, pela polarização política e geopolítica e pela circulação acelerada de informações, muitas vezes falsas, os museus são chamados a assumir uma nova função: atuar como espaços de diálogo, reflexão e reconstrução do tecido social.
Essa foi a principal mensagem da historiadora de arte Aurélie Clemente-Ruiz, diretora do Musée de l’Homme, em Paris, durante a abertura do ciclo Conferências FAPESP 2026, na sexta-feira passada (27/03).
Segundo a diretora, o museu não pode mais se limitar a conservar, expor e transmitir conhecimento. Ele precisa se envolver na vida da sociedade, participar dos debates que a atravessam e ajudar a criar espaços de diálogo.
Clemente-Ruiz ressaltou o processo de mudança profunda vivido por essas instituições, que hoje precisam responder a desafios contemporâneos como desigualdades sociais, questões identitárias, crise ambiental e erosão da confiança nas fontes tradicionais de informação.
E lembrou que o museu permanece como um lugar de confiança. Em um momento em que a palavra dos políticos e até dos meios de comunicação é questionada, a palavra do museu ainda tem peso. “Isso nos impõe uma responsabilidade enorme”, disse.
Do “templo das musas” ao espaço social
Clemente-Ruiz iniciou sua conferência com um panorama histórico da instituição museal, a partir de sua origem na Antiguidade. “O museu vem do Mouseion, o templo das musas. Desde o início, incorporou, portanto, uma dimensão quase sagrada, ligada à preservação do conhecimento para as gerações futuras”, ponderou.
“Na história da França ocorreu uma ruptura muito forte, que foi a Revolução Francesa. Naquele momento, ocorreu um debate central: era preciso destruir o passado, fazer tábula rasa, esquecer a monarquia. Cortamos as cabeças; mas deveríamos também destruir o patrimônio?”, perguntou.
Clemente-Ruiz relembrou que o abade Henri Grégoire (1750-1831), membro da Assembleia Nacional e defensor da abolição dos privilégios, desempenhou papel decisivo na salvaguarda desse patrimônio histórico e artístico, sustentando que ele não pertencia à monarquia, mas à nação, devendo ser preservado como instrumento de educação cívica e compreensão da história. Essa posição acabou prevalecendo e materializou-se, em 1793, na criação do Museu do Louvre, instalado no antigo palácio real e destinado ao acesso de todos os cidadãos.
“O século 19 foi o século das coletas em todos os sentidos, da exploração do planeta com expedições científicas, ligadas à expansão territorial, que trouxeram muito material para compor coleções. Essa febre de colecionar alimentou os museus ocidentais, em detrimento dos territórios colonizados, de onde houve uma transferência de patrimônio – natural, material e imaterial – para a Europa”, destacou.
Segundo a diretora, a grande virada ocorreu a partir da segunda metade do século 20, quando o museu passou a ser pensado como um meio e não como um fim em si mesmo: “O momento de inflexão se deu na Mesa Redonda de Santiago, no Chile, em 1972. Esse evento realmente transformou a noção museal, colocando no centro a relação com o público e afirmando que o museu é um fenômeno social a serviço do desenvolvimento das comunidades e dos territórios”.
A Mesa-Redonda de Santiago do Chile, organizada pelo International Council of Museums (Icom) e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), ocorreu em um contexto político muito específico, quando o presidente chileno Salvador Allende ainda estava no poder e o país vivia um processo de transformações sociais profundas, com forte ênfase na participação popular, na educação e na cultura. Tudo isso seria destruído, no ano seguinte, pelo golpe militar comandado por Augusto Pinochet.
Neutralidade posta em questão
Um dos pontos centrais da conferência foi a crítica à ideia de neutralidade. “Existe um mito da neutralidade do museu. Mas o museu nunca é neutro”, afirmou Clemente-Ruiz. De acordo com ela, toda instituição museal é produto de um contexto histórico e social e, portanto, incorpora escolhas e perspectivas. “Um museu é concebido por pessoas, em um determinado momento histórico, com uma determinada formação. Todos os nossos atos são orientados”, acrescentou.
O desafio, segundo a diretora, é outro: “Se não podemos ser neutros, podemos – e devemos – buscar a objetividade. Isso significa reconhecer nossos vieses e trabalhar com rigor científico”.
Nesse quadro, insere-se a necessidade de revisar criticamente as coleções, especialmente aquelas formadas em contextos coloniais. “Hoje vivemos um momento de desconstrução e reconstrução das narrativas dos museus. Precisamos integrar outras vozes, outros discursos, outras perspectivas. Fala-se muito em descolonização. Eu prefiro falar em desconstrução dos vieses. Porque não se trata apenas da colonização, é algo mais amplo. O difícil não é dar voz a diferentes perspectivas. O difícil é criar uma narrativa que integre essa pluralidade.”
Imigração e islamofobia
Na interação com a plateia, Clemente-Ruiz foi interrogada sobre alguns temas especialmente tensionados no mundo contemporâneo. Sobre sua atuação anterior como diretora do Institut du Monde Arabe e o papel que as exposições organizadas pelo instituto desempenharam em contraponto à islamofobia, ela destacou a importância da mediação cultural no combate aos preconceitos.
“Durante os oito anos em que dirigi o Departamento de Exposições, procuramos, em cada projeto, combater as ideias preconcebidas tanto sobre o mundo árabe quanto sobre o Islã. Em determinado momento, a Península Arábica esteve no centro do mundo, conectando Europa, África e Ásia. Buscamos, portanto, oferecer um outro olhar sobre essa cultura e a história desses países”, resumiu.
E detalhou: “Organizei um ciclo de três grandes exposições para enfrentar diretamente a questão. A primeira foi sobre a religião muçulmana, em torno da peregrinação a Meca. Dois anos depois, uma exposição intitulada ‘Cristãos do Oriente’, mostrando as comunidades cristãs da região. E, após outros dois anos, a exposição ‘Judeus do Oriente’, abordando também as comunidades judaicas. Tudo isso para desconstruir a ideia de que a cultura islâmica estaria fechada em si mesma”.
Também sobre o tema imigração, que está hoje no centro da arena política francesa, Clemente-Ruiz apresentou exemplos de atuação concreta: “No ano passado, apresentamos uma exposição temporária intitulada ‘Migração, uma Odisseia Humana’. Para tratar dos fluxos migratórios, partimos de dados científicos, de modo a construir uma exposição irrepreensível sobre um tema que pode ser politicamente muito sensível. A partir desses dados, pudemos construir uma narrativa. E, dentro dela, propusemos dar a palavra a diferentes pessoas em situação de migração, com perfis muito diversos. Não queríamos que nós, enquanto instituição, falássemos no lugar dessas pessoas. Fosse qual fosse a situação – migrantes em situação irregular, expatriados, estudantes que vieram estudar na França –, tratava-se sempre de lhes dar a palavra, para que o museu não falasse por elas. Ao mesmo tempo, coube a nós assumir e sustentar o discurso científico. Foi assim, muito concretamente, que tratamos essa questão. E é assim, de modo geral, que buscamos trabalhar”.
Estas e outras intervenções compuseram um subtema que atravessou toda a conferência: o da contribuição que os museus podem dar para a construção do pertencimento, em sociedades cada vez mais diversas.
“Vivemos um momento de desconstrução e reconstrução das narrativas dos museus. Precisamos integrar outras vozes, outros discursos, outras perspectivas. Fala-se muito em descolonização. Eu prefiro falar em desconstrução dos vieses. Porque não se trata apenas da colonização, é algo mais amplo. O difícil não é dar voz a diferentes perspectivas. O difícil é criar uma narrativa que integre essa pluralidade”, disse Clemente-Ruiz (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)
Aurélie Clemente-Ruiz é historiadora da arte formada pela École du Louvre, com especialização no mundo islâmico. Sua trajetória profissional desenvolveu-se principalmente no Institut du Monde Arabe, onde atuou como diretora de exposições, responsável por projetos de grande alcance internacional voltados ao diálogo intercultural. Paralelamente, exerceu atividades acadêmicas como professora em instituições como a Sorbonne Abu Dhabi e a própria École du Louvre, articulando curadoria, pesquisa e formação.
Em 2021, ingressou no Musée de l’Homme como diretora de exposições e, em 2022, assumiu a direção geral da instituição, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo desde a criação do museu, em 1938. Sua atuação caracteriza-se pela defesa de uma museologia engajada, na qual o museu deixa de ser apenas um espaço de conservação para se tornar um agente social. Essa perspectiva está sistematizada em seu livro Pour un musée engagé – Transmettre, interroger, inspirer, no qual propõe que os museus atuem como espaços de diálogo, produção de sentido e formação cidadã, capazes de enfrentar temas como desigualdade, diversidade cultural e sustentabilidade.
A 1ª Conferência FAPESP 2026, “Por um Museu Comprometido”, teve a moderação de Renata Vieira da Motta, diretora-executiva do Museu da Língua Portuguesa. Referindo-se ao conjunto de questões ligadas à redefinição do papel social dos museus, Vieira da Motta ressaltou que essa agenda se torna ainda mais urgente diante da fragmentação dos laços sociais, do avanço dos extremismos e das transformações trazidas pelas mídias digitais: “Onde podem os museus atuar na reconstrução desses laços? Como podem contribuir para a escuta e a construção de sentidos compartilhados?”, indagou.
A mesa de abertura teve a participação do professor Oswaldo Baffa Filho, coordenador das Conferências FAPESP 2026, e de Maria Arminda do Nascimento Arruda, vice-reitora da Universidade de São Paulo no período entre 2022 e 2026 e integrante do Conselho Superior da FAPESP. Baffa apresentou as conferências que deverão ocorrer neste primeiro semestre de 2026 e contou um pouco de sua experiência pessoal como visitante de museus.
Nascimento Arruda destacou o papel dos museus “em um mundo dominado pelas plataformas digitais, pelas redes sociais, pelas falsas informações e por formas virtuais de interação”, que nos colocam “à beira de um colapso das referências que estruturaram a modernidade”.
“Nesse contexto conturbado, as instituições dedicadas à preservação do patrimônio material e imaterial, assim como à produção artística em suas diversas linguagens, são constrangidas a repensar os próprios fundamentos de sua existência e a redefinir seu papel na sociedade contemporânea”, sublinhou.
O evento teve ainda, na plateia, a presença do professor Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP.
A 1ª Conferência FAPESP 2026, “Por um Museu Comprometido”, pode ser assistida na íntegra em youtu.be/hktDtjHcWAs.
Fonte ==> Folha SP