Em 2014, a Amazon lançou seu primeiro smartphone, na esperança de competir com Apple e Samsung. Em vez disso, o Fire Phone —supervisionado diretamente pelo fundador Jeff Bezos— foi descontinuado em pouco mais de um ano, tornando-se um dos fracassos mais notórios da Amazon.
Agora, a Amazon está desenvolvendo um novo telefone. Conhecido internamente como “Transformer”, projeto está sendo desenvolvido dentro da unidade de dispositivos e serviços, segundo quatro pessoas familiarizadas com o assunto.
O produto é visto como dispositivo móvel capaz de ser sincronizado com a assistente de voz Alexa e de servir como um canal de conexão com os clientes da Amazon ao longo do dia, disseram as fontes.
A iniciativa é o mais novo capítulo de um esforço de anos para concretizar a visão de longa data de Bezos de uma assistente de computação por voz onipresente, semelhante ao computador controlado por voz da série de ficção científica “Star Trek”.
Bezos havia imaginado um smartphone focado em compras que pudesse competir com a Apple oferecendo conveniência de entrega e descontos por meio da assinatura Prime. Ao longo do caminho, a Amazon poderia obter novos dados sobre usuários, disponíveis apenas através de telefones celulares, combinados com histórico de compras e preferências de conteúdo.
A iniciativa do novo smartphone não havia sido divulgada anteriormente. A Reuters não conseguiu determinar alguns detalhes, como o preço previsto, a receita que a Amazon espera gerar ou o compromisso financeiro que assumido com o projeto.
O cronograma do projeto também não está claro, e as fontes alertaram que ele pode ser cancelado se a estratégia mudar ou devido a preocupações financeiras.
Um porta-voz da Amazon se recusou a comentar a reportagem.
Segundo as fontes, os recursos de personalização do novo telefone facilitariam comprar na Amazon, assistir ao Prime Video, ouvir Prime Music ou pedir comida de parceiros como o Grubhub. Elas pediram anonimato porque não estavam autorizadas a discutir o projeto.
Um foco principal do projeto tem sido integrar capacidades de IA (inteligência artificial) ao dispositivo, acrescentaram as fontes, sistema que dispensaria lojas tradicionais de aplicativos. A Alexa provavelmente seria um recurso central, mas não necessariamente o sistema operacional principal do smartphone, acrescentaram as pessoas.
A curta história de hardware com IA nativa é marcada por fracassos, incluindo o broche Humane AI e o assistente Rabbit R1, que buscavam disponibilizar IA generativa sem a necessidade de fazer login em computadores ou telefones celulares. Ambos tiveram críticas ruins, e o broche inteligente foi descontinuado.
Isso não impediu outros de buscar dispositivos nativos de IA que dispensam a linguagem visual baseada em aplicativos dos smartphones. A OpenAI está trabalhando com o ex-chefe de design da Apple, Jony Ive, em vários protótipos de hardware, enquanto Apple, Google e Meta estão desenvolvendo novos óculos com IA e outros dispositivos, como relógios e fones de ouvido.
“A Amazon pode ter uma oportunidade”, escreveu Francisco Jeronimo, vice-presidente de dados e análises da International Data Corporation, em uma nota nesta sexta-feira (20). A empresa “reúne um poderoso ecossistema de serviços que abrange comércio, conteúdo, nuvem e uma base de IA existente com a Alexa, além de profunda expertise em engajamento de clientes orientado por dados”.
Mas “a janela de oportunidade é minúscula”, escreveu ele. “Todos os grandes players estão se movendo na mesma direção.”
Embora a AWS da Amazon seja dominante no fornecimento de infraestrutura global de computação em nuvem, a empresa tem buscado superar a reputação de estar atrasada na oferta de aplicações de IA enquanto rivais avançaram rapidamente.
A Alexa, que passou por uma reformulação de vários anos liderada por IA antes do novo lançamento em 2025, é vista internamente como fundamental para o futuro da Amazon em serviços voltados ao consumidor. O telefone, disseram as fontes, é mais uma tentativa da Amazon de acelerar o uso de IA pelos clientes, seja no dispositivo ou através da Alexa.
FRACASSO NO PASSADO
A entrada inicial da empresa no mercado de smartphones em 2014 incluía recursos como uma ferramenta de compras baseada em câmera que reconhecia produtos, os encontrava à venda na Amazon e os colocava no carrinho online dos clientes.
O Fire OS, sistema do Fire Phone, carecia de aplicativos populares disponíveis nas lojas de aplicativos Android e iOS, e tinha um complicado sistema de tela com múltiplas câmeras para exibir imagens 3D que consumia tanta bateria que o aparelho frequentemente superaquecia.
A Amazon incluiu um ano grátis de Amazon Prime com o Fire Phone, mas mesmo assim ele vendeu pouco. A Amazon cortou o preço de US$ 649 para US$ 159 e acabou cancelando o telefone após 14 meses, assumindo um prejuízo de US$ 170 milhões em estoque não vendido.
Folha Mercado
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Como fez há mais de uma década, a Amazon enfrenta a assustadora tarefa de destronar os líderes de mercado Apple e Samsung, que juntos comandaram cerca de 40% das vendas globais no ano passado, segundo a firma de pesquisa Counterpoint Research.
GADGETS ‘REVOLUCIONÁRIOS’
A ordem para o grupo que chefia o novo smartphone é criar gadgets revolucionários, disseram as fontes. O ZeroOne é liderado por J Allard, um ex-executivo da Microsoft envolvido em dispositivos como o tocador de música Zune e o console de jogos Xbox.
O chefe da unidade de dispositivos e serviços da Amazon, Panos Panay, tem trabalhado para reverter anos de falta de lucratividade na divisão. Isso inclui um tablet que será lançado em breve e que —pela primeira vez— rodará Android em vez de Fire OS e poderá ser vendido por cerca de US$ 400.
Três pessoas que trabalharam no projeto Transformer disseram que o telefone ainda está em desenvolvimento. A empresa explorou tanto um smartphone tradicional quanto um chamado “dumbphone” com recursos mais limitados que poderia ajudar a combater o vício em telas. A Amazon ainda não buscou parceiros de telefonia móvel para o dispositivo, disseram as pessoas.
Uma inspiração para o novo telefone tem sido o Light Phone, disseram duas das fontes, um smartphone minimalista de US$ 700 com câmera, mapa, calendário e pouco mais, como loja de aplicativos ou navegador web.
Um dumbphone ou feature phone também poderia ajudar a Amazon a comercializá-lo como um potencial segundo aparelho para acompanhar iPhones e Samsung Galaxies, afirmaram as fontes. Aparelhos como o Light Phone e telefones flip representaram 15% das vendas globais de celulares em 2025, segundo a Counterpoint Research.
Fonte ==> Folha SP – TEC