Biotecnologia
Resíduo de lúpulo usado na fabricação de cerveja é incorporado a protetor solar
Aproveitamento dos resíduos da indústria pode possibilitar a produção de cosméticos mais sustentáveis e acessíveis ao consumidor
Biotecnologia
Resíduo de lúpulo usado na fabricação de cerveja é incorporado a protetor solar
Aproveitamento dos resíduos da indústria pode possibilitar a produção de cosméticos mais sustentáveis e acessíveis ao consumidor
“Quando comparamos o lúpulo de resíduo e o lúpulo sem ter passado pelo processo de fabricação de cerveja, vimos que a substância de reuso é mais ativa, provavelmente por causa da eliminação das substâncias voláteis”, diz Daniel Pecoraro Demarque, da FCF-USP (imagem: André Rolim Baby/FCF-USP)
Thais Szegö | Agência FAPESP – Trabalho realizado na Universidade de São Paulo (USP) revelou que resíduos industriais do lúpulo (Humulus lupulus L.) utilizado na indústria cervejeira são boas opções para a fabricação de fórmulas de cosméticos fotoprotetores.
A grande quantidade de resíduo da substância gerada e descartada na produção da bebida foi o ponto de partida do estudo multidisciplinar, que envolveu pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, reunindo expertises complementares em produtos naturais e fotoproteção bioativa.
O lúpulo é adicionado ao preparo da cerveja em dois momentos, durante a fervura do mosto e, em algumas receitas, após a fermentação, etapa conhecida como dry hopping. Essa segunda fase tem como objetivo conferir aroma à bebida e nem todas as substâncias presentes nos pellets (flores de lúpulo secas, moídas e prensadas) são extraídas. Assim, uma fração relevante de compostos bioativos permanece no material descartado.
Isso faz com que ele seja uma rica fonte de compostos bioativos, como ácidos amargos, polifenóis e óleos essenciais. Entre eles, os polifenóis têm atraído especial atenção por suas fortes propriedades antioxidantes, o que faz com que tenham potencial para proteger a pele da ação prejudicial provocada pelos raios ultravioleta.
Por isso, a biomassa proveniente da indústria cervejeira se tornou alvo da pesquisa, que foi apoiada pela FAPESP (projetos 24/01920-0 e 22/08191-9) e descrita em artigo publicado na revista Photochem.
Na etapa conduzida pelo Laboratório de Farmacognosia, o resíduo de lúpulo foi submetido à extração com etanol, seguido da secagem do extrato e análises químicas. Também foi preparado um segundo extrato a partir de lúpulo que não havia passado pelo processo de fabricação da cerveja, permitindo a comparação entre o material “puro” e o reutilizado.
No Laboratório de Cosmetologia os extratos foram incorporados, isoladamente (na concentração de 10%), em formulações fotoprotetoras em creme que continham dois filtros solares tradicionais, um com proteção UVB e o outro UVA. “Também foram avaliadas diferentes combinações com ingredientes cosméticos comumente utilizados em protetores solares, como água purificada e emolientes, como miristato de isopropila, palmitato de isopropila e triglicerídeos do ácido cáprico-caprílico, a fim de investigar qual composição proporcionaria melhor desempenho”, conta André Rolim Baby, professor associado da FCF-USP e um dos coordenadores do estudo.
A eficácia fotoprotetora foi determinada por um dos métodos in vitro mais robustos e reconhecidos internacionalmente, a espectrofotometria de refletância difusa com esfera de integração. Essa tecnologia é capaz de calcular o fator de proteção solar (FPS) e demais parâmetros relacionados à proteção solar, como a proteção de amplo espectro.
“Quando comparamos o lúpulo de resíduo e o lúpulo sem ter passado pelo processo de fabricação de cerveja, vimos que a substância de reuso é mais ativa. Isso acontece provavelmente por causa da eliminação das substâncias voláteis envolvidas na fabricação da cerveja, deixando compostos que têm ligações químicas necessárias para a fotoproteção”, diz Daniel Pecoraro Demarque, também do FCF-USP, participante da investigação que integrou o projeto de mestrado de Ana Gabriela Urbanin Batista de Lima, do Programa de Pós-Graduação em Fármacos e Medicamentos da faculdade.
De acordo com Baby, embora os resultados tenham sido obtidos no ensaio in vitro, a investigação representa uma prova de conceito promissora. “Mas, para essa ideia chegar ao mercado, são necessários estudos e validações complementares, como a estabilidade em longo prazo do protetor solar, padronização dos compostos bioativos e avaliação clínica de segurança e eficácia”, afirma.
O artigo Valorization of hop (Humulus lupulus L.) brewing residue as a natural photoprotective adjuvant pode ser lido em mdpi.com/2673-7256/6/1/8.
Fonte ==> Folha SP