Nosso cérebro evoluiu para nos ajudar a permanecer vivos o maior tempo possível. Por isso, nos tornamos muito bons em perceber a presença de coisas em geral. Afinal, para nossos ancestrais primitivos na savana africana, detectar e processar rapidamente a presença de leopardos famintos ou de frutos suculentos era caso de vida ou de morte, literalmente.
Mas o cérebro humano também é capaz de perceber o vazio, a ausência de objetos: na verdade, isso forma boa parte de nossa atividade consciente. A dinâmica da percepção da presença está razoavelmente bem entendida: quando um objeto entra no nosso campo visual isso ativa neurônios no córtex visual. E a ausência, como ela é compreendida pelo nosso cérebro? Benjy Barnett, pesquisador do Departamento de Neurociência da Imagem da University College de Londres, defende que podemos avançar nesta questão investigando o modo como o cérebro representa o número zero.
Assim como temos mais dificuldade para entender o zero do que os números positivos, também somos piores na compreensão da ausência do que da presença. Bebês familiarizados com a letra F ficam surpresos quando ela é substituída pela letra E. Mas, se invertemos a troca, os bebês não reagem: a ausência do tracinho extra em baixo passa despercebida. Adultos não são diferentes: qualquer um que já revisou um texto sabe que é bem mais difícil notar a omissão de uma palavra do que a inserção de outra que não pertence ao texto. Aliás, o mesmo tipo de fenômeno também já foi observado no comportamento de animais.
Conforme comentei aqui na semana passada, o nosso cérebro contém neurônios “especializados em zero”, que reagem exclusivamente, ou pelo menos preferencialmente, quando observamos conjuntos vazios ou a própria representação do número zero pelo símbolo “0”.
Analogamente, experimentos recentes indicam que os cérebros de humanos, de macacos e de alguns pássaros também contêm neurônios que são ativados em situações de ausência. Embora o papel que esses neurônios desempenham nos processos mentais ainda não esteja bem compreendido, a sua presença já indica que o modo como percebemos a ausência não é pela mera falta da atividade neuronal associada à presença do objeto: as ideias de “ausência” e de “presença” parecem envolver mecanismos mentais essencialmente distintos.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Segundo a teoria proposta pelo neurocientista Matan Mazor, da Universidade de Oxford, para percebermos a ausência precisamos desenvolver um raciocínio por contradição do tipo “se o objeto estivesse lá eu o veria; o fato de que não vejo indica que ele está ausente”. Essa explicação está longe de ser inocente, pois ela implica que o cérebro tenha consciência dos nossos processos sensoriais e saiba avaliar se eles estão funcionando normalmente: quem diz que o fato de não ver o objeto não resulta, simplesmente, de não estar suficientemente alerta?
Se a teoria estiver correta (há evidências favoráveis) e se, como acreditam vários especialistas, as representações neurológicas de “ausência” e de “zero” são essencialmente análogas, a pesquisa do modo como compreendemos o número zero pode dar pistas cruciais para resolver o maior mistério da ciência dos nossos dias: o que é a consciência?
Fonte ==> Folha SP – TEC