Novo fungo ‘zumbi’ é registrado pela primeira vez no Brasil; entenda

As imagens do corpo de uma aranha parasitado por um “fungo zumbi” registrado pela primeira vez no Brasil viralizaram nas redes sociais no início de 2026. Compartilhadas por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), elas foram feitas na Reserva Ducke, perto de Manaus (AM).

O registro despertou a curiosidade dos fãs da série The Last of Us, da HBO, baseada no jogo de mesmo nome. Na trama que se passa em um mundo pós-apocalíptico, organismos fictícios semelhantes aos encontrados na Amazônia parasitam humanos, tornando-os agressivos.

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Definição de fungo “zumbi”

O termo que ganhou fama a partir do game e do seriado se refere a fungos com capacidade de infectar outros organismos e transformar seu comportamento. Eles fazem parte do gênero Cordyceps, que possui muitos integrantes atuando como endoparasitas de artrópodes.

Incluídos na divisão Ascomycota, são encontrados em regiões tropicais e subtropicais, em sua maioria, podendo infectar aranhas, formigas, lagartas, besouros, gafanhotos e grilos, entre outros animais. Os micro-organismos chegam ao hospedeiro por meio de esporos e se desenvolvem no corpo dele.

Com o passar do tempo, começam a crescer as estruturas reprodutivas macroscópicas (ascomas) e os esporos (ascósporos), concluindo o ciclo reprodutivo do fungo. O passo seguinte, após se espalhar pelo organismo, é a chegada ao sistema nervoso central do artrópode.

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Aranha infectada por fungo zumbi encontrada na Amazônia. (Imagem: UFSC/Divulgação)

Nas formigas, a infecção por Cordyceps leva a convulsões, deixando o corpo trêmulo e resultando em um comportamento estranho, como se elas estivessem se movimentando sem destino. Vem daí o nome zumbi, uma referência aos mortos-vivos da ficção.

O objetivo da transformação, que leva a formiga à morte, é fazê-la liberar esporos para infectar outras da mesma espécie. Isso acontece com a sua fixação às folhas ou outras partes de plantas e árvores, por meio das mandíbulas.

Novo fungo “zumbi” encontrado na Amazônia

O caso de fungo parasita que viralizou nas redes sociais envolve uma espécie rara, Cordyceps caloceroides. O micro-organismo estava no corpo mumificado de uma tarântula gigante, com aspecto diferente do normal após passar pelo processo de “zumbificação”.

As modificações na aranha da espécie Theraphosa blondii incluíam estruturas enormes crescendo em direção à área externa do corpo. Foram esses filamentos que repercutiram entre os fãs de The Last of Us, devido às semelhanças com as mutações da série.

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O caso de parasitismo recém-descoberto tem um dos registros mais bem preservados do Brasil. (Imagem: UFSC/Divulgação)

Tais ramificações que surgiram após o rompimento do exoesqueleto são as responsáveis por espalhar novos esporos no ambiente, em busca de mais hospedeiros. Eles se localizam nas pontas dos filamentos.

Esse flagrante de parasitismo na Amazônia também ganhou importância devido às condições ambientais e à raridade da infecção entre os aracnídeos. Ainda há dúvidas sobre como acontece o contato entre aranhas e fungos.

Como o fungo foi descoberto

A aranha parasitada pelo fungo Cordyceps caloceroides foi achada durante pesquisa científica na Reserva Ducke, em uma área perto da capital do Amazonas. A expedição contou com a participação de cientistas do Brasil e da Dinamarca.

Durante o trabalho organizado pelo biólogo e professor da Universidade de Copenhague (UCPH), João Araújo, que também envolveu pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a estudante de Ciências Ambientais da UCPH, Lara Fritzche, localizou a tarântula infectada pelo fungo zumbi.

“Isso na verdade é uma tarântula, aranha gigante que existe na Amazônia e foi infectada por um fungo que produz essa estrutura alaranjada, meio avermelhada nas pontas, onde estão sendo produzidos os esporos”, diz o pesquisador da UFSC, Elisandro Ricardo Dreschler-Santos, no vídeo. Enquanto fala, ele segura o aracnídeo.

Na sequência da gravação, ele explica que os esporos são liberados pelo corpo zumbificado para infectar mais tarântulas. Para tanto, a aranha se enterra no solo, ficando escondida entre folhas e matéria orgânica.

Há risco para seres humanos?

Ao contrário do que é mostrado na produção estrelada por Bella Ramsey e Pedro Pascal, o fungo zumbi não é perigoso para os humanos. Entrar em contato com os esporos não transforma as pessoas em mortos-vivos.

Conforme o professor da UFSC, que divulgou o vídeo da tarântula, o Cordyceps infecta apenas hospedeiros específicos, entre os quais insetos e aracnídeos. Eles são dependentes desses organismos para concluir seu ciclo de vida.

Em entrevista ao g1, Elisandro explicou que temos contato com milhares de esporos a cada dia, de diferentes espécies de fungos, e eles não causam doenças. “A gente respira mais de 10 mil esporos a cada inspiração e não se contamina. Esse grupo de fungos é altamente especializado em insetos e aracnídeos”, tranquilizou o cientista, em relação à infecção fúngica.

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Diferente da ficção, os fungos zumbis reais parasitam insetos e aracnídeos. (Imagem: Ian_Redding/Getty Images)

Ainda de acordo com ele, fungos e hospedeiros possuem uma relação existente há milhões de anos. Os micro-organismos desempenham papel fundamental nos ecossistemas terrestres, bem como são importantes para a medicina e as indústrias farmacêutica e alimentícia.

No Brasil, que abriga em torno de 10% da biodiversidade global, existem espécies de fungos exclusivas e o país passou a reconhecê-los como um grupo próprio, ao lado da fauna e da flora. O pesquisador também destacou que o exemplar encontrado na Amazônia está entre os registros mais bem preservados.

Outros casos de fungos “zumbis” no mundo

Citado no início do texto, o caso da formiga zumbi é um dos mais famosos. Ele envolve o fungo Ophiocordyceps unilateralis, que usa o corpo do inseto para autopropagação e dispersão, se alimentando de suas entranhas até chegar ao estágio final.

Durante o período de incubação, as formigas infectadas se parecem normais e continuam vivendo na colônia. Cientistas acreditam que o fungo usa compostos bioativos para interferir no sistema nervoso delas, levando à manipulação comportamental.

Com mais de 200 espécies identificadas até o momento, o Ophiocordyceps infecta ao menos 10 ordens de insetos, além de aracnídeos, embora nem todas transformem o comportamento do hospedeiro. Há registros de infecções em lagartas da mariposa-fantasma e cigarras japonesas.

Entre os casos de fungos parasitantes, também vale destacar o Entomophthora muscae, que infecta moscas fazendo-as assumir a “pose da morte”, após serem transformadas em zumbis, e a Massospora cicadina, fungo alucinógeno que modifica o comportamento de cigarras.

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Uma aranha parasita por fungo zumbi também foi achada em Nova Friburgo. (Imagem: IMA Fungus/Reprodução)

Outro registro que repercutiu recentemente é o da aranha de alçapão da Mata Atlântica, que resultou na descoberta de uma nova espécie de fungo zumbi em Nova Friburgo (RJ), em 2025.

Batizado de Purpureocillium atlanticum, o micro-organismo foi flagrado emergindo do corpo de aracnídeos que vivem no solo, formando um estroma na cor púrpura para liberação dos esporos.

Também vale destacar as aranhas infectadas por fungos em cavernas na Irlanda, identificadas pela primeira vez em 2021. Trata-se da Gibellula attenboroughii, que usa dopamina para fazer o hospedeiro priorizar a dispersão dos esporos, morrendo exposto nas paredes e no teto do local.

Cordyceps: o fungo “zumbi” mais popular

Por causa do seriado, o gênero Cordyceps se tornou o mais famoso entre os fungos zumbi. Na história, ele passa por mutação para infectar humanos e os transforma em mortos-vivos que fazem o mesmo com outras pessoas por meio de mordidas ou esporos, levando a uma pandemia fúngica.

Na vida real, é um endoparasita de artrópodes, como vimos acima, que não infecta pessoas. Algumas espécies são usadas em cuidados com a saúde humana, na medicina chinesa, em tratamentos de distúrbios respiratórios, fadiga crônica e disfunção sexual.

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Formigas infectadas por Cordyceps estão entre os exemplos mais famosos desse tipo de parasitismo. (Imagem: Reza Saputra/Getty Images)

Apesar de inofensivos aos humanos, é recomendável cautela ao manipular esses fungos, principalmente em caso de pessoas alérgicas.

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Fonte ==> TecMundo

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