Para provar que ciência e literatura não são duas culturas incomunicáveis, o tema de hoje fica com o romance “Os Imortais”, de Paulliny Tort (Fósforo Editora, da qual também sou autor). A escritora brasiliense se arriscou a narrar uma história de encontro entre neandertais e sapiens, um lugar de fala impossível, e sobreviveu.
Os dois grupos conviveram por 6.000 ou 7.000 mil anos, cerca de 50 mil anos atrás. É o que sugere a análise comparativa dos genes das duas espécies, entre as quais houve intercruzamentos com traços deixados nos genomas da população atual.
Tort demonstra coragem ao contar a epopeia de uma gente sobre a qual não há documentos, só escassos vestígios arqueológicos. Não inventou uma linguagem neandertal para pôr os personagens a falar; usa termos e conceitos do presente para narrar, em terceira pessoa, o que vai nos corações e mentes dos personagens.
As paixões que afloram são as que conhecemos: piedade, ciúme, intriga, inveja, desejo, luto. Fome, o tempo todo. Detalhes verossímeis de como neandertais fabricavam ferramentas e cozinhavam. O livro caminha firme, contra todas as probabilidades.
A menina, minúscula assim, acaba poupada do massacre para tomada de uma caverna dos sapiens pelos neandertais. Sobrevive pela compaixão maiúscula da Mulher (guardiã do Fogo) e do Homem (guia das caçadas), mas sempre discriminada por ter a pele clara, os membros delgados, o rosto alongado, os pelos escassos.
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Será preciso ler até o fim para descobrir se ela engravida ou não de um neandertal e se deixa descendentes. Mas é fato, não ficção, que as duas espécies se encontraram e se reproduziram entre si, o que só se tornou factível comprovar quando o genoma de espécimes neandertais foi decifrado em 2010.
Boa parte dos humanos de hoje carrega em média 2% a 4% de genes neandertais. São sequências de DNA preservadas porque ajudaram os sapiens a enfrentar patógenos desconhecidos e novas condições ambientais, como o frio, ao se espalharem pelos continentes onde já se achavam adaptados os neandertais.
A narrativa mais óbvia seria que brutamontes neandertais tenham forçado mulheres sapiens a copular com eles, o que decerto terá acontecido. Curiosamente, o cromossomo Y deles não vingou até os dias de hoje, especula-se que por força de alguma incompatibilidade entre fetos masculinos e a gestação por fêmeas sapiens.
Em 2019, descobri 1,58% de DNA com origem neandertal em meio ao meu palheiro de genes 49% europeus, 32% indígenas e 19% africanos. Entre 3 bilhões de letras (bases A, T, C e G) do genoma humano, no meu caso havia 49 milhões de caracteres herdados dos parentes do Homem e da Mulher, quem sabe da menina.
Outras informações interessantes estavam nesse acervo pessoal, embora nenhuma de relevância para a saúde atual ou futura. O impacto maior foi simbólico: descobrir-se meio europeu, meio africano-ameríndio. Segundo Sandro de Souza, que compartilhou a análise com Sérgio Danilo Pena, uma ancestralidade indígena em proporção um pouco maior que a média brasileira, mais típica da região Norte.
Como diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, no Brasil todo mundo é índio –exceto quem não é.
Fonte ==> Folha SP – TEC