Quando este artigo for publicado, o Irã estará no início da sua terceira semana sem internet no país. Desde o dia 8 de janeiro o governo enviou comandos aos provedores e backbones paralisando todo o funcionamento da rede localmente. Além disso, interrompeu também protocolos de borda, fazendo com que o país desaparecesse para o mundo. Por exemplo, tentei no sábado acessar o site do jornal Iran Daily (www.newspaper.irandaily.ir) e recebi um erro 504, que significa que o pedido de conexão externo não está sendo atendido.
É curioso que o serviço da Starlink, de conexão por satélites de baixa órbita, também não funciona mais no país. Por três dias ele até funcionou, de 8 a 11 de janeiro. Mas logo o governo adotou medidas que passaram a inviabilizar seu acesso. Dentre elas, o uso de equipamentos de interferência no sinal dos satélites, a apreensão dos equipamentos e a prisão de usuários. O uso de VPNs foi também bloqueado, usado técnicas como inspeção profunda dos pacotes de dados, algo que o Marco Civil da Internet proíbe expressamente que seja feito no Brasil.
Derrubar a internet em qualquer lugar é um ato extremo. Boa parte da vida humana passa hoje pela rede: pagar contas, comunicar-se com a família, acessar serviços públicos, ler notícias, organizar viagens, pedir comida ou fazer compras.
O Irã entrou para o clube dos mais longos bloqueios nacionais da internet até agora. Por exemplo, célebre bloqueio por parte do Egito, que chocou o mundo na época da chamada “Primavera Árabe”, durou cinco dias.
É nesse contexto que começou a ser usado no país o aplicativo Bitchat. Trata-se de um app criado por Jack Dorsey, o fundador original do Twitter e lançado em julho de 2025. O aplicativo funciona como uma espécie de whatsapp que não precisa de conexão com a internet. Ele usa o bluetooth do celular para encontrar outros aparelhos próximos, que por sua vez buscam outros aparelhos, formando uma rede no estilo “malha” (mesh).
Isso significa que mesmo com a rede totalmente cortada, é possível para quem tem um celular participar de uma outra rede de comunicação que surge com o uso do aplicativo, especialmente nas áreas mais densas e populosas. Baixei o aplicativo e testei o seu uso próximo à avenida Paulista. Não havia ninguém conectado. Pelo visto o Brasil não precisa (ainda) de uma rede paralela à internet para preservar o direito à comunicação.
Outra vantagem do aplicativo é que ele é totalmente privado. As mensagens são criptografadas, nenhum dado dos usuários é coletado ou guardado. Além disso, ele tem funcionalidades de emergência. O usuário tem um recurso de clicar três vezes em um botão que apaga imediatamente todas as mensagens enviadas e recebidas. Além disso, o aplicativo é de código aberto (open source). O que permite ser auditado e que qualquer pessoa crie versões customizadas do app. No Irã mesmo uma versão local chamada Noghteha, tem ganhado popularidade nos últimos dias.
Em suma, a internet que foi concebida para ser a tecnologia à prova da intervenção está com sua infraestrutura cada vez mais controlável.
Já era – infraestrutura da internet à prova de intervenções
Já é – infraestrutura da internet mudando para facilitar cada vez mais intervenções
Já vem – avanço de tecnologias à prova de intervenção, como Bitchat, Firechat e outros
Fonte ==> Folha SP – TEC