O leitor que pode se dar ao luxo de levar uma vida menos cronicamente online que a minha talvez não tenha reparado, mas já faz anos que se consolidou todo um nicho de mercado internético que se baseia no suposto “resgate das glórias da história brasileira”.
Os mascates dessa mercadoria nos meios digitais afirmam que gerações de professores de história doutrinadores, unidos numa conjura infernal, decidiram destruir a autoestima dos filhos desta Mãe Gentil. Resolveram enxovalhar a reputação dos heróis pátrios, apagar nossas vitórias gloriosas, a grandeza do Brasil. É preciso ter orgulho do nosso passado, senhoras e senhores!
Toda vez que ouço essa conversa –e não há sinais de que ela vá arrefecer tão cedo–, eu me lembro de algumas coisinhas.
Como jornalista de ciência, o primeiro desses detalhezinhos que me vem à cabeça tem a ver com genômica. É o seguinte: de cada 100 brasileiros do sexo masculino, apenas 2 carregam um cromossomo Y (aquele pedaço do DNA que, em geral, está presente nos homens) de origem indígena.
Outros 25 brasileiros, dentre esses 100, têm um cromossomo Y de origem africana. Quase todos os outros têm um Y europeu. Quando se olha o conjunto do DNA, as proporções contribuídas por cada componente étnico são um pouco mais equilibradas, mas não tanto. Somos uma população marcada pela miscigenação, mas o brasileiro médio é geneticamente muito mais europeu do que africano ou indígena, independentemente da cor da sua pele ou da textura de seu cabelo.
E aí entram outros números na equação. Temos as estimativas, baseadas em registros oficiais, de que mais ou menos 5 milhões de africanos escravizados foram trazidos para cá entre 1500 e 1850, e que também uns 5 milhões de europeus cruzaram o mar para se fixar aqui (em geral de forma bem mais voluntária…). Estima-se ainda que cerca de 10 milhões de indígenas viviam em todo o território brasileiro antes da invasão europeia.
Faça as contas e você verá que algo não está batendo. Se a mistura tivesse sido proporcional e igualitária, a contribuição europeia para o DNA dos brasileiros de hoje deveria ser, arredondando, entre metade e um terço da que é.
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Tudo isso só se explica pelo fator inescapável e estruturante por trás desse desequilíbrio: o Brasil colonial e o Brasil imperial –todo o período que vai de 1500 a 1888– foi projetado para funcionar como um moedor de carne humana.
A escravização de indígenas e de africanos e seus descendentes foi, por decisão de dois Estados imperiais, o português e o brasileiro, a base da economia e da sociedade deste país por quase quatro séculos, com todo o custo gigantesco em desumanização que isso implica. Não é por acaso que a maioria dos membros de ambas dessas populações não conseguiu deixar descendentes.
Isso significa que valorizar “heróis” do passado brasileiro, caso esses “vultos” (como se dizia outrora) pertencessem às camadas que giravam a manivela do moedor de carne, equivale a, quase sempre, ajoelhar-se diante do altar da Morte.
Por outro lado, é claro que temos heróis nesse passado –José do Patrocínio e André Rebouças, Sepé Tiaraju e Joaquim Nabuco, entre tantos outros. Mas a única forma de honrá-los é participar, como eles, da luta para desmontar a engrenagem, em vez de perpetuá-la. Eis a única declaração de amor ao Brasil digna do nome: o compromisso de transformá-lo. O resto é lacração pra algoritmo ver.
Fonte ==> Folha SP – TEC