Corais-de-fogo do Brasil podem estar sofrendo extinção silenciosa, afirmam especialistas

Corais-de-fogo do Brasil podem estar sofrendo extinção silenciosa, afirmam especialistas

Conservação

Corais-de-fogo do Brasil podem estar sofrendo extinção silenciosa, afirmam especialistas

Também conhecidas como hidrocorais, quatro espécies presentes no país, três delas endêmicas, foram historicamente negligenciadas em monitoramentos de recifes. Pesquisadores relatam a morte de 100% das colônias monitoradas de uma das espécies estudadas

Conservação

Corais-de-fogo do Brasil podem estar sofrendo extinção silenciosa, afirmam especialistas

Também conhecidas como hidrocorais, quatro espécies presentes no país, três delas endêmicas, foram historicamente negligenciadas em monitoramentos de recifes. Pesquisadores relatam a morte de 100% das colônias monitoradas de uma das espécies estudadas

Colônia de Millepora nitida em Recife de Fora, sul da Bahia, parcialmente branqueada após onda de calor de 2023 (foto: Ralf Cordeiro/UFRPE)

André Julião | Agência FAPESP – Os corais-de-fogo podem estar sofrendo uma “extinção silenciosa”, afirmam autores de estudo apoiado pela FAPESP e publicado na revista Coral Reefs. Os dados foram obtidos durante monitoramento dos corais-de-fogo realizado pelo Instituto Coral Vivo, com apoio da Petrobras, que começou após a primeira onda de branqueamento que afetou severamente o Brasil, em 2019.

O branqueamento de corais é um fenômeno que ocorre quando a temperatura da água do mar se eleva e as zooxantelas, microalgas que vivem dentro do esqueleto dos corais e fornecem alimentos para eles, passam a produzir compostos danosos e são expelidas. Como resultado, os corais ficam brancos e podem morrer por falta de energia.

O monitoramento foi realizado antes, durante e depois do mais recente evento de branqueamento, ocorrido durante uma onda de calor no início de 2024, consequência do fenômeno El Niño-Oscilação Sul.

O trabalho aponta que a espécie Millepora braziliensis, que só ocorre no país, sofreu branqueamento de 100% e perdeu toda a cobertura viva nas colônias monitoradas, no município de Tamandaré (PE). A espécie é listada como criticamente ameaçada de extinção pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Por sua vez, outra espécie endêmica, Millepora nitida, sofreu branqueamento de 40%, mas sem perdas significativas de cobertura.

“Os resultados reforçam a necessidade de medidas de conservação para proteger os corais, principalmente as populações de M. braziliensis, que enfrentam risco elevado de extinção por conta de ondas de calor provocadas por fenômenos como a fase quente do El Niño-Oscilação Sul, em convergência com o aquecimento global ocasionado pela emissão de gases de efeito estufa”, explica Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e um dos coordenadores do estudo.

O pesquisador coordena ainda o projeto “O histórico global de impactos das mudanças climáticas em recifes de corais: o papel de refúgios e atributos oceanográficos e funcionais”, apoiado pela FAPESP.

Os corais-de-fogo são historicamente negligenciados em monitoramentos desse tipo. Em parte, isso se deve, em algumas espécies, tanto ao difícil acesso às colônias quanto à sua posição nas bordas do recife. Outro fator que influencia a atenção diferenciada dada a eles é a menor abundância de três das espécies de corais-de-fogo que ocorrem no Brasil em comparação aos chamados corais verdadeiros.

“No entanto, os corais-de-fogo possuem importância ecológica comparável aos corais verdadeiros, uma vez que contribuem para a complexidade do ecossistema, oferecendo abrigo e esconderijo para outras espécies animais”, explica o pesquisador, que é também diretor científico do Instituto Coral Vivo.

O trabalho tem como primeiros autores Laura Marangoni, do Instituto Coral Vivo, e Tarciso Roberto Sena da Silva, que realiza mestrado na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) sob orientação de Ralf Cordeiro, que coordenou o monitoramento dos corais-de-fogo.

O branqueamento é a maior ameaça aos recifes de coral do mundo. O evento de 2023-2024 foi a quarta ocorrência global do tipo e também afetou os chamados corais verdadeiros da costa brasileira, como relata outro estudo do grupo, publicado em setembro de 2025.

Em Maragogi (AL), por exemplo, o branqueamento chegou a 96% e em Porto de Galinhas (PE), 84%. No mundo inteiro, 84% dos recifes de corais foram afetados no mesmo período pelo branqueamento.

Extinção silenciosa

Os corais-de-fogo da espécie M. nitida foram monitorados em três pontos de Recife de Fora, no município de Porto Seguro (BA). A espécie M. braziliensis foi analisada em colônias em Tamandaré (PE), parte da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, que vai daquele município até Maceió (AL).

Outras duas espécies de coral-de-fogo ocorrem no Brasil. A M. alcicornis, presente também no Caribe, é bastante monitorada e mais abundante, embora também inspire preocupação.

M. laboreli, a terceira espécie endêmica do Brasil, é restrita ao Parcel do Manuel Luís, na costa do Maranhão. O local é de difícil acesso, o que faz com que haja uma grande lacuna de informações sobre seu estado de conservação.

“As últimas notícias que tivemos, de um grupo que esteve ali em 2022, é que havia poucas colônias vivas. A situação pode ter piorado após a onda de calor de 2023-2024. Porém, não temos dados suficientes para afirmar com precisão”, conta Mies.

O pesquisador não hesita em afirmar, porém, que essas espécies podem ser extintas nos próximos anos, em novos eventos de branqueamento que certamente virão. Por enquanto, qualquer solução imediata para o problema parece impossível sem a redução da emissão de gases de efeito estufa que aquecem o planeta e favorecem eventos como as ondas de calor.

Iniciativas de restauração, em que os corais são cultivados em laboratório e introduzidos na natureza, ainda não se mostraram bem-sucedidas. A prática custa caro, competindo por recursos com outras iniciativas de conservação, e os corais introduzidos morrem em ondas de branqueamento subsequentes.

No entanto, os pesquisadores lembram que estudos já apontaram que corais em unidades de conservação tendem a sofrer menos com o branqueamento do que os que estão fora dessas áreas protegidas.

“Diferentemente do branqueamento de 2019, em que não estávamos preparados, o que está ocorrendo agora está sendo bem documentado, a fim de subsidiar políticas públicas. Precisamos fortalecer as ações de conservação e aumentar a conscientização sobre a importância de conter as mudanças climáticas”, encerra Mies.

O artigo A fragile branch: the silent decline of neglected Brazilian milleporids amid the fourth global bleaching event pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s00338-025-02793-9.

 



Fonte ==> Folha SP

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