Bolha da inteligência artificial está mais perto de estourar – 29/01/2026 – Economia

Rack de servidores com múltiplos módulos de hardware conectados por cabos amarelos de fibra óptica. Luzes indicadoras vermelhas e verdes estão acesas nos equipamentos, indicando atividade. O ambiente é interno, com estrutura metálica e organização técnica visível.

A inteligência artificial vem puxando o índice S&P 500 e a economia americana como um todo. Os CEOs de um pequeno grupo de empresas dominantes se tornaram celebridades, com fãs e mercados atentos a cada palavra e a cada balanço trimestral. A linha entre entusiasmo e realidade ficou turva.

Mas o que pode furar a bolha da IA não são as preocupações já conhecidas —como financiamento circular, endividamento crescente ou a concorrência chinesa. O risco maior pode vir de fatores menos esperados: o impacto das tarifas comerciais e a redução no número de imigrantes nos Estados Unidos, que podem trazer essas campeãs da tecnologia de volta ao chão.

O presidente Donald Trump prometeu fazer “o que for preciso” para liderar o mundo em inteligência artificial, mobilizando o governo federal e acionando instrumentos de política industrial.

O governo vem liberando terras federais para a construção de data centers e usinas de energia, acelerando licenças e análises ambientais. O governo também adquiriu participações acionárias na fabricante de chips Intel e na startup de equipamentos de litografia x-Light, além de empresas de minerais críticos usados na produção de eletrônicos essenciais ao setor.

Ao mesmo tempo, enfrenta regulações estaduais sobre IA e usa poderes executivos para reduzir exigências e fiscalização. A Casa Branca ainda isentou servidores, semicondutores, placas de circuito e outros componentes —que representam cerca de um terço do custo dos data centers— das tarifas de importação, embora materiais de construção sigam sendo taxados.

Esse conjunto de políticas favorece a inteligência artificial em relação à indústria tradicional e a outros setores da economia, impulsionando o aumento do interesse e dos investimentos anunciados em capital.

Como resultado, grandes empresas de tecnologia despejam centenas de bilhões de dólares em fileiras intermináveis de servidores, cabos e roteadores dentro de enormes data centers, destinados a sustentar seus modelos e sistemas. A capacidade computacional deve ao menos dobrar até 2030.

Com a proliferação dos data centers, cresce também a demanda por eletricidade. A consultoria McKinsey estima que as novas instalações previstas até 2030 consumirão mais de 600 terawatts-hora —energia suficiente para abastecer quase 60 milhões de residências.

À medida que a pressão sobre as concessionárias aumenta, os custos de construção também disparam. Os preços de insumos já vinham subindo, com encomendas de transformadores, disjuntores e equipamentos de transmissão superando a capacidade das fábricas após anos de baixa demanda.

Em 2025, as tarifas elevaram ainda mais o custo de produtos e equipamentos importados. Alíquotas punitivas de 50% sobre aço, alumínio e fios de cobre atingem com força transformadores, linhas de energia e torres de transmissão. As baterias de armazenamento usadas pelas concessionárias, em sua maioria importadas da China, enfrentam taxas ainda mais elevadas.

As políticas migratórias de Trump também tornam a expansão da IA mais lenta e cara. Executivos de tecnologia alertam para a escassez de cientistas, pesquisadores e engenheiros altamente qualificados, diante da dificuldade crescente de obter vistos H-1B, hoje mais caros e restritos. Mas a vulnerabilidade do setor começa no canteiro de obras.

Cerca de 25% dos trabalhadores da construção civil são estrangeiros, e um em cada sete não tem documentos. Com fronteiras mais rígidas, operações do ICE e deportações intensificadas, tornou-se raro encontrar mão de obra extra disponível —ou mesmo equipes completas— em várias regiões do país.

Pesquisas com empreiteiros indicam que mais de 80% enfrentam vagas em aberto, cada vez mais difíceis de preencher. A falta de trabalhadores é hoje a principal causa de atrasos em projetos, mesmo com a desaceleração de outras frentes da construção: os lançamentos residenciais caíram quase 10%, ao menor nível em cinco anos, enquanto a construção comercial recuou 13%.

Para empresas de IA e de data centers, os centenas de bilhões de dólares já comprometidos em investimentos não rendem tanto quanto poderiam. A tendência é que esse cenário piore em 2026. Com a questão da acessibilidade ganhando destaque na corrida para as eleições de meio de mandato, a Casa Branca passou a mirar o setor habitacional.

Até agora, as propostas se concentraram em reduzir taxas hipotecárias e limitar a compra de imóveis por investidores institucionais, mas um impulso à construção de moradias parece iminente.

O secretário de Comércio, Howard Lutnick, reuniu-se recentemente com grandes construtoras para discutir as expectativas do governo. Isso significará mais projetos residenciais disputando o mesmo contingente cada vez menor de eletricistas, técnicos de HVAC, soldadores e outros profissionais especializados.

O governo americano precisa prestar tanta atenção a eletricistas e soldadores quanto a engenheiros. Programas de treinamento e estágios podem ajudar no longo prazo, mas a indústria enfrenta uma escassez imediata de mão de obra qualificada.

Uma saída seria ampliar os vistos H-2B, acelerar a concessão de vistos EB-3 para trabalhadores da construção civil e criar um programa temporário específico para o setor, aplicável tanto a estrangeiros quanto a imigrantes já nos EUA.

O sucesso ou fracasso da inteligência artificial dependerá de sua capacidade de demonstrar o valor dos investimentos gigantescos feitos até agora. Mas mesmo que transforme diversos setores da economia, custos e prazos definirão quem se beneficia —e quando. E, hoje, as tarifas comerciais e as políticas migratórias do governo Trump são parte central dos fatores que limitam o avanço das empresas e modelos de IA nos Estados Unidos.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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