Babuínos sentem ciúmes dos irmãos, diz estudo – 16/02/2026 – Ciência

Quatro babuínos sentados próximos em área seca com vegetação rala. Um filhote toca o rosto de um adulto, enquanto outro adulto observa com olhos semicerrados. Fundo desfocado com luz natural.

Já teve ciúmes do seu irmão por achar que ele recebeu atenção demais dos seus pais? Na avaliação de cientistas, talvez você não seja a única criatura no reino animal a se sentir assim.

Uma equipe de pesquisadores finlandeses passou a maior parte de 2021 no parque de Tsaobis, na Namíbia, seguindo, do amanhecer ao anoitecer, famílias da espécie babuíno-chacma (Papio ursinus). Todos os dias, eles observavam espécimes adolescentes tentando roubar a atenção da mãe enquanto um irmão, geralmente mais novo, passava pelo processo de catação, que envolve a remoção de insetos e sujeira do pelo de outro indivíduo.

Alguns reagiam com birra ou tentavam se enfiar entre a mãe e o irmão. Outros, mais espertos, recorriam a truques. Em uma ocasião, uma jovem atraiu sua irmã para longe da mãe com a promessa de brincar e, então, tomou o lugar dela nos braços da mãe. A cena foi descrita pela ecóloga comportamental Axelle Delaunay, da Universidade de Turku (Finlândia).

“A irmã brincou com a outra por cerca de dez segundos, tempo suficiente para afastá-la da mãe”, afirmou Delaunay, que concluiu sua pesquisa na Universidade de Montpellier (França) com colegas de instituições da Namíbia e do Reino Unido. “Aquilo me pareceu realmente estratégico.”

“É totalmente identificável”, disse Joan Silk, primatologista da Universidade Estadual do Arizona (Estados Unidos) que não participou do estudo. “Tenho duas irmãs e dois filhos, então consigo me identificar, mas o fato de ser identificável nem sempre significa que é verdade.”

Em um estudo publicado na última quarta-feira (11) na revista Proceedings of the Royal Society B, cientistas levantaram hipóteses sobre a motivação para esse comportamento, que pode ser considerado irritante.

Como aqueles que têm irmãos ou filhos podem imaginar, a resposta é ciúme.

Há muito tempo, cientistas debatem se outros primatas são capazes de experimentar emoções complexas. E o novo estudo oferece algumas das evidências mais fortes até o momento.

Nesse caso, de acordo com Silk, as evidências falam por si. “Esse grupo de pesquisadores ampliou os limites do que sabemos sobre as relações entre indivíduos.”

O estudo também levanta novas questões sobre o valor evolutivo da inveja.

Encontrados no sul da África, os babuínos-chacma são uma espécie altamente social. Com tamanho aproximado ao de um cão da raça dobermann, esses macacos vivem em grupos multifamiliares muito unidos.

Os machos abandonam o grupo ao atingir a maturidade sexual. As fêmeas permanecem nele por toda a vida, dando à luz um filhote a cada 1,5 a 2 anos.

Com tantos irmãos símios crescendo lado a lado, rivalidades entre irmãos surgem com frequência. Mas, se essas rivalidades se assemelham às dos humanos, tem sido um mistério há muito tempo.

O ciúme é bem estudado entre humanos, contudo apenas um punhado de estudos foi realizado para determinar se outros primatas sentem ciúme, todos conduzidos com um pequeno número de animais em cativeiro.

Durante o trabalho de campo, os pesquisadores observaram irmãos competindo pela atenção materna centenas de vezes. Grande parte do comportamento ocorreu no contexto da catação. Isso fortalece os laços sociais, assim como ocorre com os abraços entre humanos.

Os babuínos jovens incomodavam suas mães com muito mais frequência quando ela estava em um ato de catação um irmão do que quando ela estava livre.

Além disso, os espécimes tinham duas vezes mais chances de interferir quando o irmão que recebia a catação era mais novo. Eles também interrompiam mais a catação quando um irmão do mesmo sexo era o beneficiado.

Os pesquisadores descobriram ainda que, quanto mais velho um babuíno fica, menor a probabilidade de ele interromper o momento a sós de um irmão com a mãe.

Delaunay e seus colegas propuseram várias teorias sobre o que poderia estar motivando esse comportamento, incluindo um desejo de interação entre irmãos. No entanto, depois da análise dos números, a única teoria que fazia sentido era o ciúme.

A descoberta fornece algumas das evidências mais fortes até agora de que primatas podem sentir emoções complexas. Isso também levanta questões sobre por que primatas não humanos podem sentir essas emoções.

Embora os pesquisadores tenham observado babuínos demonstrando ciúme centenas de vezes, esse comportamento foi recompensado em apenas algumas ocasiões. Menos de 10% das interrupções resultaram em catação para o interruptor. Na grande maioria das vezes, o interruptor foi ignorado e a catação do irmão continuou.

“Na maioria das vezes, a interferência não funciona de verdade”, afirmou Delaunay. “Então quais são os benefícios?” Ela e seus colegas esperam que pesquisas futuras respondam a essa pergunta. Eles também têm a expectativa de que mais cientistas dediquem tempo para estudar a diversidade de emoções que os primatas possuem.

“Embora não possamos perguntar a eles como se sentem, sabemos que as emoções provocam mudanças fisiológicas, comportamentais e cognitivas. Isso é possível medir”, disse Delaunay.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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