A missão Artemis 2 da Nasa, a primeira viagem de astronautas à Lua em mais de meio século, cativou americanos jovens e idosos de diferentes espectros políticos, resultando em admiração, esperança e orgulho em uma nação dilacerada por rancor partidário e guerra.
De uma profusão de festas para assistir ao lançamento do foguete e aulas especiais sobre o espaço, a um aumento nas visitas a planetários e um impulso no varejo de roupas com temas da Nasa e da Artemis, abundam sinais do fascínio público pelos quatro astronautas que voaram até o lado oculto da Lua.
A missão de dez dias, um ensaio geral fundamental para uma tentativa planejada ainda nesta década de pousar astronautas na Lua pela primeira vez desde a Apollo 17, no final de 1972, deve ser concluída na sexta-feira (10) com a amerissagem da tripulação da Artemis 2 no oceano Pacífico, na costa da Califórnia.
Espera-se que o retorno dos astronautas à Terra seja acompanhado pelo público e pela mídia com a mesma atenção dedicada ao lançamento, em 1º de abril, da cápsula Orion no topo do foguete Space Launch System (SLS), a partir de Cabo Canaveral, na Flórida.
“Todos podem se empolgar com humanos expandindo suas capacidades, aprendendo coisas novas e fazendo isso de forma positiva e pacífica”, disse Gaza Gyuk, astrônomo sênior do planetário Adler de Chicago, onde ele disse que centenas de visitantes compareceram para assistir ao lançamento da Artemis 2 e aprender sobre a missão.
O fascínio nacional pela Artemis, sucessora do programa lunar Apollo da era da Guerra Fria nas décadas de 1960 e 1970, foi refletido em dados de pesquisas.
Cerca de 69% dos americanos disseram estar empolgados com a exploração espacial, e aproximadamente 80% expressaram uma visão favorável da Nasa, incluindo grandes maiorias tanto de republicanos quanto de democratas, de acordo com uma pesquisa de três dias da Reuters/Ipsos realizada durante a missão Artemis 2. Da mesma forma, 69% dos entrevistados disseram que era importante enviar astronautas de volta à Lua.
Como aconteceu durante o programa Apollo, as mais recentes ambições lunares da Nasa estão sendo perseguidas em um momento de turbulência política e social, incluindo um conflito militar dos Estados Unidos que se mostrou impopular internamente.
A agitação pode ajudar a explicar o apelo da Artemis 2 tanto como uma distração bem-vinda da rotina de notícias políticas que muitos consideram incômodas, quanto como uma afirmação das conquistas científicas e técnicas dos EUA.
Trajes espaciais e meias
Aproveitando o entusiasmo lunar, varejistas e marcas independentes ofereceram mercadorias relacionadas à Artemis, desde roupas oficialmente licenciadas pela Nasa até acessórios personalizados inspirados na missão.
Uma empresa chamada Rock’Em Socks estava vendendo meias da Artemis 2 por US$ 14,99 o par (cerca de R$ 76), estampadas com o foguete SLS contra um céu estrelado.
A Nasa estava vendendo diversos itens com tema da Artemis, incluindo um boné de beisebol “I AM ARTEMIS”, um pin da missão, uma jaqueta bomber feminina e baralhos de cartas.
No site de e-commerce Etsy, entusiastas do espaço podiam comprar chaveiros, pôsteres, arte em tela e brincos 3D “pendentes” feitos sob encomenda por US$ 135 (aproximadamente R$ 690), inspirados na cápsula espacial Orion em formato de gota.
No subúrbio de Elkins Park, na Filadélfia, o amante de astronomia Hector Ybe, 38, reuniu 225 pessoas, incluindo famílias com crianças, para uma festa de lançamento da Artemis 2 na semana passada.
“Por duas horas, todo mundo esqueceu o que estava acontecendo lá fora no mundo, todo mundo estava falando sobre o espaço”, disse ele, acrescentando que os participantes representavam uma variedade de origens étnicas, religiosas e raciais.
Crianças pequenas vestidas com trajes de astronauta se maravilharam com o lançamento, enquanto uma geração mais velha relembrava ter assistido ao primeiro pouso na Lua em 1969.
Imagens de ‘estamos juntos nessa’
A missão ofereceu um contraponto à visão de muitos americanos de que a ciência baseada em fatos está sob ataque, ou de que a tecnologia —como inteligência artificial e redes sociais— deve ser desconfiada, até mesmo temida.
Gyuk apontou para novas imagens da Terra capturadas pela tripulação da Artemis do espaço, mostrando oceanos e massas de terra sem fronteiras, um lembrete da humanidade comum.
“Isso ajuda as pessoas a perceberem que estamos todos juntos nessa”, disse ele.
Educadores de todo o país têm incorporado a Artemis 2 em seus planos de aula.
Na escola pública Stem Lab em Northglenn, Colorado (EUA), a professora de engenharia Erin Brabant decorou um corredor com pôsteres do foguete SLS, astronautas e uma linha do tempo da missão. Ela designou aos alunos a construção de modelos de seus próprios módulos de pouso lunar.
“Quando falamos sobre a Artemis 2, é como se todas as crianças parassem o que estão fazendo”, disse Brabant. “Suas conversas paralelas param, e elas têm perguntas.”
A diversidade da tripulação da Artemis —o piloto Victor Glover, 49, é o primeiro astronauta negro e a especialista de missão Christina Koch, 47, é a primeira mulher enviada à Lua— também inspirou estudantes negros e meninas que podem querer seguir carreiras em engenharia, disse Brabant.
Na semana passada, em Pilot Mountain, Carolina do Norte, 15 escoteiras com idades entre 5 e 11 anos assistiram ao lançamento ao vivo em sua reunião de tropa.
Elas estavam trabalhando em apresentações sobre escoteiras famosas para o Mês da História da Mulher, e o lançamento chamou a atenção delas para Koch, ela própria uma ex-escoteira, de acordo com Heather Willard, líder da tropa.
“Todas as meninas ficaram hipnotizadas”, disse Willard.
Fonte ==> Folha SP – TEC