Arquólogos descobrem ferramenta de madeira de 430 mil anos – 30/01/2026 – Ciência

Quatro fragmentos de carvão vegetal dispostos em linha, mostrando diferentes ângulos e texturas. A escala abaixo indica 5 centímetros para referência de tamanho.

Na Europa, ancestrais do ser humano já usavam matérias-primas para criar ferramentas centenas de milhares de anos antes da chegada do Homo sapiens, indicam dois novos estudos.

Entre as evidências estão um martelo de 500 mil anos feito de osso de elefante ou de mamute, escavado no sul da Inglaterra, e ferramentas de madeira de 430 mil anos encontradas no sul da Grécia —estas últimas são as ferramentas de madeira mais antigas já registradas.

As descobertas sugerem que os primeiros humanos possuíam habilidades tecnológicas sofisticadas.

A paleoantropóloga Katerina Harvati, da Universidade de Tübingen (Alemanha), afirmou que as descobertas fornecem pistas sobre as origens pré-históricas da inteligência humana. Ela é autora principal do artigo sobre as ferramentas de madeira e que saiu na revista PNAS na última segunda-feira (26).

A avaliação é a mesma feita pela também paleoantropóloga Silvia Bello, do Museu de História Natural de Londres (Inglaterra). Ela é autora do estudo sobre o osso de elefante ou mamute publicado no dia 21 no periódico Science Advances.

Os artefatos em ambos os estudos, recuperados de locais de minas de carvão, foram provavelmente produzidos por neandertais ou por uma espécie anterior, o Homo heidelbergensis.

O Homo sapiens surgiu na África há mais de 300 mil anos, e a evidência mais antiga deles na Europa é um fóssil de 210 mil anos desenterrado na Grécia. Quando a nossa espécie se estabeleceu na Grã-Bretanha há 40 mil anos, outros hominínios já viviam lá por quase 1 milhão de anos.

Paus e pedras

A evidência mais antiga conhecida de humanos primitivos moldando intencionalmente madeira para fins estruturais foi encontrada em 2019 nas Cataratas de Kalambo, na Zâmbia, e data de 476 mil anos atrás. São dois troncos de salgueiro-arbustivo entalhados e interligados que parecem ter formado parte de uma habitação ou plataforma.

“Artefatos orgânicos, especialmente aqueles derivados de plantas, são muito mais frágeis e mais difíceis de encontrar do que aqueles feitos de pedra”, disse Havarti.

As relíquias descritas no novo estudo sobre ferramentas de madeira foram escavadas de uma camada profunda no sítio de Marathousa 1, uma antiga margem de lago minerada na bacia de Megalópolis, na Grécia. Elas datam da idade do Pleistoceno Médio, que durou aproximadamente de 478 mil a 424 mil anos atrás.

No local, arqueólogos descobriram o esqueleto parcial de um elefante de presas retas, além de restos de tartarugas, aves, roedores e hipopótamos e ferramentas de pedra usadas para o abate.

Entre as dezenas de fragmentos de madeira incrustados nos detritos, dois —um fragmento de amieiro trabalhado para escavação e um galho de choupo ou salgueiro esculpido— haviam sido usados como ferramentas.

“Encontramos marcas de corte e entalhe em ambos os objetos, sinais claros de que humanos os moldaram”, afirmou a arqueóloga Annemieke Milks, da Universidade de Reading (Inglaterra). Uma das autoras principais do estudo, ela conduziu análises microscópicas e tomografias computadorizadas dos itens.

O bastão de escavação foi encontrado entre os ossos de elefante. Será que ele poderia ter sido usado para cortar e retirar carne da carcaça?

“Nunca tentei cortar uma carcaça de elefante, então não sei”, disse Havarti. “Presumo que não seja tão fácil, mas acho que é possível.”

Ossos

Não existe conjunto mais antigo ou mais abrangente de ferramentas de osso de elefante esculpidas e afiadas do que a coleção descoberta na última década na Garganta de Olduvai, na Tanzânia, que data de 1,5 milhão de anos.

Anteriormente, acreditava-se que as ferramentas europeias de osso de elefante estavam limitadas ao sul mais quente e teriam surgido nos últimos 450 mil anos. Mas um martelo feito de osso de elefante ou de mamute, descoberto no sítio arqueológico de Boxgrove, em West Sussex, na Inglaterra, durante a década de 1990 e identificado apenas recentemente, derruba essa suposição.

O local é rico em fósseis de sílex, osso e chifre, mas essa foi a primeira ferramenta de osso de elefante descoberta ali. Deformidades em sua superfície indicam que foi criada e utilizada enquanto o osso ainda estava fresco, levando os pesquisadores a especular se o antigo elefante foi caçado ou encontrado após sua morte.

Bello disse que a ferramenta, com dez centímetros de comprimento e formato triangular, era usada para lascamento, o processo de quebrar lascas de uma pedra para produzir ferramentas como machados de mão.

Os pesquisadores encontraram entalhes e marcas distintivas no fragmento de osso. “O martelo foi golpeado contra pedra, repetidamente”, afirmou Bello. “Os pequenos pedaços de sílex encontrados incrustados no osso confirmam que ele foi usado para esse propósito especializado.”

A pesquisadora do museu londrino sugeriu que a aparente escassez de ferramentas primitivas resultou da má preservação ou dificuldades na identificação.

Thomas Terberger, especialista em análise de artefatos antigos do Escritório Estadual do Patrimônio Cultural da Baixa Saxônia em Hannover, Alemanha, concordou. “Mais provas podem ser encontradas em sítios ainda não descobertos ou em coleções de museus existentes.”

O especialista observou que os novos estudos destacaram a diversidade de matérias-primas que os povos pré-históricos adotavam para fabricação de ferramentas.

“O sílex era mais comum, mas osso e madeira provavelmente eram mais valiosos para nossos ancestrais antigos,” disse ele. “Imagine quantas ferramentas você pode fazer a partir de um único osso grande de um elefante.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

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