Agentic Commerce é um tema que tem me fascinado nos últimos meses. Não apenas pelo avanço tecnológico em si, mas pelo impacto potencial que esse movimento pode gerar para pequenas e médias empresas, especialmente aquelas que historicamente tiveram menos acesso a canais eficientes, tecnologia e capital.
Sempre que uma mudança estrutural reduz fricção, simplifica decisões e redistribui poder, vale prestar atenção. E é exatamente isso que começa a acontecer quando agentes passam a atuar de forma ativa na jornada de compra.
Esse interesse não é isolado. O Agentic Commerce vem ganhando tração rapidamente no debate global, à medida que grandes empresas de tecnologia passam a tratar agentes não mais como assistentes, mas como participantes efetivos do fluxo econômico.
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Discussões sobre agentes capazes de pesquisar, negociar e executar compras em nome de usuários deixaram de ser experimentais e passaram a ocupar espaço central nas estratégias de quem constrói a infraestrutura da internet.
Um sinal claro desse movimento veio recentemente da Google, que anunciou um novo protocolo voltado a facilitar transações comerciais realizadas por agentes de inteligência artificial. A proposta é criar um padrão que permita que agentes acessem catálogos, consultem disponibilidade, verifiquem condições comerciais e iniciem compras de forma estruturada, segura e interoperável.
Em vez de depender de navegação em interfaces pensadas para humanos, os agentes passam a se conectar diretamente às bases que sustentam o comércio digital.
É um passo relevante porque desloca o centro da experiência da vitrine para a infraestrutura de dados.
Durante anos, comprar online seguiu um roteiro previsível. O consumidor entra em um site ou marketplace, pesquisa um produto, compara opções, avalia preço, marca e reputação e, só então, decide. Esse modelo, baseado em navegação e escolha manual, parece tão natural que raramente é questionado.
Ainda hoje, comprar é um exercício cognitivo intenso. A responsabilidade de buscar, filtrar, comparar e decidir está concentrada em quem compra. Mesmo com filtros, reviews e recomendações, a jornada continua sendo essencialmente um processo de point and click.
O que surge agora com o Agentic Commerce é uma inversão dessa lógica. Em vez de navegar, o usuário delega. Ele define um objetivo, estabelece critérios e contexto, e um agente baseado em inteligência artificial passa a executar a busca, a comparação e a escolha em seu lugar.
Essa mudança é sutil na forma, mas estrutural no impacto. A experiência deixa de ser centrada em páginas, vitrines e rankings visuais e passa a ser orientada por intenção. O consumidor não precisa mais percorrer catálogos. O agente acessa dados, avalia alternativas em escala e executa a transação. Comprar deixa de ser uma sequência de cliques e passa a ser uma instrução.
Quando essa lógica se consolida, os agentes não se limitam a navegar experiências pensadas para humanos. Eles consultam bases estruturadas. Acessam catálogos completos, informações de estoque, prazos de entrega, histórico de confiabilidade e condições comerciais. A decisão deixa de ser guiada pelo que aparece primeiro na tela e passa a ser guiada pela qualidade, pela consistência e pela disponibilidade dos dados.
Isso gera uma mudança importante no papel dos canais tradicionais. Marketplaces e plataformas de ecommerce não desaparecem, mas deixam de ser o único ponto de descoberta e decisão. Em muitos casos, passam a operar como camadas de execução, pagamento, logística e garantia, enquanto a escolha acontece fora da vitrine, mediada por agentes. A intermediação continua existindo, mas a experiência de decisão se desloca do canal para a infraestrutura.
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Nesse novo contexto, os sistemas de gestão ganham um papel central. O ERP deixa de ser apenas um sistema de registro usado por pessoas e passa a ser uma fonte de verdade consumida por agentes. É ali que estão os dados de produto, preço, estoque, faturamento, logística e histórico operacional. Para um agente, o ERP não é backoffice. É contexto, critério e base de confiança.
Isso significa que dados estruturados deixam de ser apenas uma boa prática de gestão e passam a ser um ativo competitivo. Empresas com catálogos organizados, informações consistentes e integrações bem feitas se tornam legíveis para agentes. Empresas com dados fragmentados, processos manuais e informações desatualizadas simplesmente deixam de ser consideradas.
Para as pequenas e médias empresas, o impacto é direto. Hoje, muitas PMEs competem por atenção investindo em mídia, tentando melhorar posição em rankings ou disputando preço em marketplaces. Em um modelo orientado por agentes, a lógica muda. A vantagem não está apenas em aparecer, mas em executar bem.
Esse movimento pode, inclusive, reequilibrar a competição. PMEs que operam com eficiência, dados organizados e processos claros podem competir de forma mais justa com empresas maiores que hoje dominam a atenção pela escala ou pelo orçamento de marketing. A disputa deixa de ser apenas por visibilidade e passa a ser por capacidade operacional.
Ainda há muitas perguntas em aberto. Como esses agentes irão definir prioridades. Quais critérios de confiança serão adotados. Quem será responsável por garantir entrega, devolução e suporte quando a experiência não estiver centralizada em um único canal. Como em toda grande transição tecnológica, essas respostas não surgem prontas. Elas são construídas gradualmente pelo mercado.
O Agentic Commerce não representa uma ruptura imediata, mas um deslocamento consistente. Ele não elimina o ecommerce como conhecemos, mas adiciona uma nova camada de inteligência que muda onde e como as decisões são tomadas.
Para empresas, especialmente PMEs, entender essa lógica desde agora é fundamental. Não se trata apenas de adotar novas tecnologias, mas de tratar dados, sistemas e operação como infraestrutura estratégica para um comércio cada vez mais orientado por agentes.
Fonte ==> TecMundo