A mais antiga e estranha história da ressurreição de Jesus – 04/04/2026 – Reinaldo José Lopes

Leão alado com auréola dourada está em primeiro plano sobre terreno verde, segurando um livro aberto com inscrições em latim. Ao fundo, há árvores, construções renascentistas e navios ancorados em um corpo d

O problema de vivermos mergulhados há tantos séculos numa cultura nominalmente cristã é o mesmo que afeta o peixe incapaz de perceber que há água ao seu redor. Perdemos contato com a estranheza e o espanto primevos de narrativas como as que falam da ressurreição de Jesus. Gostaria, portanto, de explicar como é esquisita a mais antiga dessas histórias, presente no Evangelho de Marcos.

O autor que designamos com esse nome não é, claro, o mais antigo da Bíblia a falar do Jesus ressuscitado. Essa distinção cabe ao apóstolo Paulo –seus primeiros escritos vêm mais ou menos de 50 d.C., enquanto o evangelista escreve uns 20 anos depois. Paulo diz apenas que Jesus foi sepultado, ressuscitou e apareceu a seus seguidores; Marcos narra parte do que teria acontecido no túmulo.

Acontece que os manuscritos desse Evangelho que chegaram até nós costumam apresentar três finais diferentes. Dois deles –um brevíssimo, outro mais longo– mostram o esperado: aparições de Jesus aos discípulos, com a ordem de espalhar sua palavra pelo mundo.

Mas o outro final não traz isso –e ele está presente em dois dos manuscritos antigos mais importantes do século 4º, o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus. Muitos especialistas defendem que essa versão deve ter sido a forma original do texto de Marcos. Além disso, os outros dois finais têm um estilo muito diferente do resto do Evangelho e podem ter sido acrescentados depois.

A narrativa da ressurreição começa com a chegada de três mulheres –Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e Salomé– ao túmulo de Jesus. Elas carregam perfumes para ungir o corpo de seu mestre. Percebem, porém, que a pedra que tapava a entrada da sepultura tinha sido retirada.

Entram e enxergam, sentado à direita, um rapaz de túnica branca –não se afirma diretamente que ele é um anjo, como em outros textos. O jovem as tranquiliza, afirma que Jesus ressuscitou e ordena que elas transmitam uma mensagem aos apóstolos: seu Mestre foi na frente para a Galileia e os espera por lá.

É agora que vem a maior estranheza. Eis o final: “Elas saíram e fugiram do túmulo, pois um temor e um estupor se apossaram delas. E nada contaram a ninguém, pois tinham medo”. A frase é esquisitíssima inclusive no grego original, terminando com a palavra “gár”, equivalente ao nosso “pois” (não é errado, mas chama a atenção). Uma das traduções que consultei usou até reticências.

Como é possível que a história terminasse aí? Quanto a isso, vale a pena refletir sobre a natureza desses textos como criações literárias, e não apenas documentos históricos e/ou profissões de fé (embora, claro, eles sejam todas essas três coisas). A crença na ressurreição era fundamental para os primeiros cristãos, mas a maneira como isso é narrado varia bastante de acordo com as intenções de cada evangelista.

Para Marcos, a incompreensão e o mistério é algo que cerca toda a trajetória de Jesus. Ninguém consegue decifrar ou aceitar quem ele realmente é, nem mesmo os discípulos mais próximos, e a ironia é que o temor os afeta até nesse momento de triunfo. Mas o leitor do Evangelho, que agora tem acesso a toda a história de um ponto de vista privilegiado, sabe que seu dever é ir até onde o Ressuscitado o aguarda.

Não é preciso fé para reconhecer o talento literário por trás da estranheza de Marcos, e para entender como essa história ainda pode ser poderosa. Feliz Páscoa a todos!



Fonte ==> Folha SP – TEC

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