Pergunta básica sobre a vida: se a grande maioria dos animais vive suas vidas perfeitamente bem sem cérebro, por que três tipos de animais têm um? E ainda são completamente díspares: vertebrados (como nós), artrópodes (como a tal da mosquinha da banana) e cefalópodes (como o polvo). Por que só os três?
O problema do diabo dessa pergunta é que ela é usada tanto no sentido de “para quê” como no sentido de “como é possível que”. Crianças que perguntam “por que chove, mamãe?” não querem a resposta mecanicista sobre evaporação, condensação, o ciclo da água, essas coisas. Elas só se contentam quando ouvem que “é para fazer as plantas crescerem”.
Humanos adultos não são muito diferentes, e, pasmem, muitos biólogos também não, ainda que sua profissão consista em descobrir a parte do “como é possível que”. Leigos e cientistas tipicamente presumem que se existe um cérebro é porque ele deve servir para alguma coisa. Pergunte ao Google e sua IA pesa o conjunto de conhecimentos da humanidade e destila uma resposta: algo como um cérebro existe “quando o animal tem necessidade de se locomover”.
Besteira pura, e não é culpa da IA. A IA responde isso porque é assim que a maioria de meus colegas responde à pergunta, embora (1) a grande maioria dos animais se mova sem um cérebro e (2) isso não chegue nem perto de responder como um cérebro se forma para começo de conversa, e só em alguns animais.
Um cérebro é um aglomerado de um número tão grande de neurônios que eles se dividem em estruturas internas, que são grupos de neurônios com propriedades e funções diferentes. Com menos neurônios, tudo o que se tem são gânglios, pequenas massarocas de neurônios. Com ainda menos neurônios, tudo o que se tem é uma rede de neurônios espalhada pela superfície do corpo. Sem problemas: cada um desses animais funciona perfeitamente bem. Animais obviamente não precisam ter montes de neurônios.
Gerar neurônios custa muito caro em termos energéticos, porque multiplicar células só acontece conforme há energia disponível, e, ainda por cima, mesmo neurônios recém-nascidos são fominhas: mal se formam e já chupam toda a energia que recebem. Oras, por essa lógica, se alguns animais têm cérebro, só pode ser porque eles, e só eles, têm montes de energia circulando pelo corpo.
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Montes de energia vêm com montes de oxigênio chegando às células, o que não acontece se as células apenas ficam esperando sua difusão. Só há montes de oxigênio circulando quando há um sistema respiratório. Pergunta, então: seriam os únicos animais com cérebro também os únicos animais com um sistema respiratório?
Bingo! É isso mesmo. Todos os animais que circulam montes de oxigênio em um sistema respiratório têm montes de neurônios e portanto um cérebro pela simples razão de que… podem ter. O resto é consequência. Por que a IA não sabe dar essa resposta, quando já consta no conjunto de conhecimentos da humanidade que vertebrados, artrópodes e cefalópodes são os animais que têm cérebro, e também os únicos com um sistema respiratório?
Porque ninguém nunca juntou uma coisa com a outra, tanto porque nunca seguiu esse raciocínio, quanto porque quem estuda cérebro em geral não dá a mínima para respiração. Como IA só cospe requentado do que alguém alguma vez escreveu, meu trabalho de cientista, de pensar no que ninguém nunca pensou antes, ela não sabe fazer. Rá!
Referência
Herculano-Houzel S (2026). Brain evolution through novel affordances: a new story of the rise of behavioral flexibility, that is, intelligence, in animals. In Kaas JH, Herculano-Houzel S (eds), Evolution of the Nervous System, 3rd edition, Volume I (Herculano-Houzel S, ed.). Elsevier, London.
Fonte ==> Folha SP – TEC