Cientistas desenterraram na província de Nova Escócia, no Canadá, o crânio de uma criatura que data de cerca de 307 milhões de anos atrás e é um dos mais antigos vertebrados terrestres herbívoros conhecidos. O achado foi descrito em um artigo que saiu nesta terça-feira (10) na revista Nature Ecology and Evolution.
Batizada de Tyrannoroter heberti, a criatura possuía um crânio de formato um tanto triangular que facilitava a presença de grandes músculos nas bochechas para mastigar material vegetal resistente, com uma boca repleta de dentes especializados para esmagar, rasgar e triturar.
O espécime se parecia com um réptil, mas não está incluído nessa classe de animais. Embora os pesquisadores tenham descoberto só o crânio, eles estimam, com base na anatomia de animais aparentados, que o Tyrannoroter tinha cerca de 30,5 cm de comprimento, com uma constituição robusta semelhante à do lagarto-de-língua-azul atual.
O T. heberti viveu durante o Período Carbonífero e estava entre os primeiros membros de uma ampla linhagem de animais terrestres de quatro patas chamados tetrápodes, que foram precursores dos anfíbios, répteis, mamíferos e aves de hoje.
Esses tetrápodes pioneiros evoluíram de peixes com nadadeiras carnudas semelhantes a membros que se tornaram os primeiros vertebrados —animais com coluna vertebral— a emergir em terra firme. Os fósseis esqueléticos de tetrápodes mais antigos datam de aproximadamente 375 milhões de anos atrás.
Os primeiros tetrápodes eram carnívoros. Com o tempo, alguns aparentemente começaram a comer insetos e depois, como o Tyrannoroter ilustra, passaram a se alimentar de plantas.
“Isso é extremamente importante porque significa que os componentes essenciais dos ecossistemas terrestres que reconhecemos hoje existem e se mantêm desde o Período Carbonífero”, disse o paleontólogo Arjan Mann, do Museu Field de Chicago (Estados Unidos), coautor principal da pesquisa.
“O Tyrannoroter é o mais antigo e mais completo herbívoro vertebrado terrestre a apresentar adaptações capazes de processar material vegetal rico em fibras”, afirmou Mann.
O crânio do Tyrannoroter tinha cerca de dez centímetros de comprimento. “Ele é muito robusto”, afirmou a paleontóloga e coautora do estudo Hillary Maddin, da Universidade Carleton, em Ottawa.
“As características que indicam herbivoria incluem seu focinho voltado para baixo, posicionado de forma ideal para cortar plantas rasteiras, grandes câmaras para abrigar músculos poderosos para processar vegetais e, mais importante, uma boca cheia de campos dentários opostos —um no palato [céu da boca] que se oclui [se encaixa] com outro na mandíbula inferior”, explicou Maddin.
Para visualizar o interior do crânio, os pesquisadores fizeram uma tomografia computadorizada. O exame revelou dezenas de dentes cônicos no céu da boca.
O nome do gênero Tyrannoroter significa “escavador tirano”, refletindo seu tamanho relativamente grande para sua época e o fato de que se acredita ter sido um animal escavador. O nome da espécie, heberti, homenageia o colaborador de pesquisa Brian Hebert, que encontrou o crânio em um penhasco rochoso na Ilha Cape Breton, ao longo da costa atlântica da Nova Escócia.
Por muito tempo acreditou-se que os primeiros vertebrados verdadeiramente herbívoros não surgiram até o crepúsculo do Carbonífero, que terminou há cerca de 299 milhões de anos.
“Essa descoberta revela que os animais vertebrados se diversificaram em nichos semelhantes aos modernos, incluindo a herbivoria, muito mais rapidamente do que pensávamos”, disse Maddin.
O consumo de insetos pode ter sido um passo fundamental antes da alimentação à base de plantas. “O artigo reforça a ideia de que a insetivoria provavelmente foi uma pré-adaptação para a herbivoria e, ao se alimentarem de insetos herbívoros primitivos, os tetrápodes adquiriram secundariamente a flora intestinal necessária para processar material vegetal”, acrescentou o paleontólogo.
Fonte ==> Folha SP – TEC