Vênus tem túnel possivelmente formado por lava – 10/02/2026 – Ciência

Sonda espacial em órbita escaneia uma cratera profunda em um asteroide de superfície marrom avermelhada. A cratera revela uma cavidade interna com rochas azuis. A Terra aparece ao fundo no espaço negro.

Um fluxo de lava aparentemente criou uma grande cavidade em Vênus. Essa é a primeira estrutura subsuperficial já detectada no vizinho planetário da Terra. Sua identificação ocorreu a partir de uma nova análise de dados obtidos pela espaçonave Magellan, da Nasa, nos anos 1990.

A descoberta foi descrita em um estudo publicado na última segunda-feira (9) na revista Nature Communications.

Os autores da pesquisa afirmaram que os dados de radar eram consistentes com uma formação geológica chamada tubo de lava, encontrada em certas localidades vulcânicas na Terra.

Vênus tem guardado cuidadosamente seus segredos, com sua superfície encoberta por densas nuvens tóxicas. Mas o radar consegue superar esses obstáculos.

Cientistas já haviam levantado a hipótese de haver tubos de lava em Vênus, considerando seu histórico de vulcanismo.

“Passar da teoria para a observação direta representa um grande avanço, abrindo portas para linhas de pesquisa e fornecendo informações cruciais para missões destinadas a explorar o planeta”, disse Lorenzo Bruzzone, cientista especializado em radar e estudos planetários da Universidade de Trento, na Itália, autor do novo estudo.

Os pesquisadores analisaram dados coletados pelo instrumento de sensoriamento remoto de radar de abertura sintética da sonda Magellan entre 1990 e 1992, em locais que apresentavam sinais de colapsos superficiais localizados, sugestivos da existência de tubos de lava. Eles recorreram a um método de análise de dados desenvolvido recentemente, voltado para a identificação de cavidades subterrâneas como essas.

A estrutura que eles detectaram, interpretada como parte de um tubo de lava vazio, está no flanco ocidental do Nyx Mons, um vulcão amplo e de inclinação suave cuja forma geral se assemelha ao escudo de um guerreiro. Com cerca de 362 km de largura, ele fica no hemisfério norte do planeta. A área possui um grande número de crateras causadas por colapsos de superfície.

“Nosso conhecimento sobre Vênus ainda é limitado, e até agora nunca tivemos a oportunidade de observar diretamente os processos que ocorrem abaixo de sua superfície”, afirmou o cientista de radar Leonardo Carrer, da Universidade de Trento, autor principal do estudo.

O diâmetro de Vênus é de cerca de 12.000 km, pouco menor que o da Terra. Os dados da Magellan ajudaram a dar aos cientistas uma compreensão básica da superfície venusiana, que possui mais vulcões do que qualquer outro planeta do Sistema Solar e exibe extensas evidências de antigos fluxos de lava.

“Tubos de lava são túneis subterrâneos naturais criados pela atividade vulcânica. Eles geralmente se formam dentro de fluxos de lava basáltica, em que a lava de baixa viscosidade continua a se mover sob uma superfície em solidificação”, explicou Bruzzone.

A geometria de observação lateral do instrumento Magellan foi capaz de detectar reflexos de radar vindos de cavidades subterrâneas.

O aparente tubo de lava identificado tem um diâmetro médio estimado de cerca de 1 km, uma espessura de teto de pelo menos 150 metros e uma cavidade vazia que atinge uma altura de pelo menos 375 metros. Devido às limitações dos dados da Magellan, apenas a porção inicial da estrutura pôde ser observada diretamente. Suspeita-se que ela seja muito mais longa, estendendo-se talvez por quilômetros.

As dimensões tornam a estrutura mais larga e mais alta do que os tubos de lava encontrados na Terra ou previstos para Marte. Ela está no limite superior da faixa de tamanho esperada —e em um caso já observada— na Lua.

Na avaliação dos pesquisadores, o tamanho da estrutura não é totalmente surpreendente, considerando que os canais de lava observados na superfície venusiana são maiores e mais longos do que aqueles presentes em outros planetas e luas do Sistema Solar.

“Sabe-se que a intensa atividade vulcânica desempenhou um papel importante na formação da superfície e da geologia de Vênus, bem como nas trocas entre o interior do planeta e sua atmosfera. Estudos recentes sugerem que alguns vulcões ainda podem estar ativos hoje, uma possibilidade que futuras missões ao planeta devem esclarecer e delimitar melhor”, disse Bruzzone.

Por sua própria natureza, um tubo de lava não estaria relacionado a vulcanismo em andamento, ressaltou o cientista.

Segundo planeta a partir do Sol, Vênus teve muito menos atenção científica do que Marte, mas deve ser objeto de duas missões importantes: a Envision, da Agência Espacial Europeia (ESA), e a Veritas, da Nasa.

A ideia é que as espaçonaves das duas missões disponham de sistemas de radar avançados para capturar imagens de maior resolução. A Envision levará um radar orbital de penetração no solo capaz de sondar o subsolo venusiano a profundidades de várias centenas de metros.

“A próxima década promete ser decisiva para a pesquisa sobre Vênus”, afirmou Carrer.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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