A Amazônia é conhecida por sua exuberante floresta tropical, permeada por uma rede de milhares de quilômetros de rios colossais. Mas nem sempre foi assim.
Entre cerca de 24 milhões e 7 milhões de anos atrás, grande parte da atual Amazônia era composta de um conjunto de áreas alagadas —conhecido como Lago Pebas— que se desenvolveram na época geológica chamada de Mioceno, quando o clima global era mais quente, o nível do mar era mais elevado e a cordilheira dos Andes se elevava cada vez mais.
Sedimentos como lama e areia depositados no Lago Pebas guardam pistas químicas e biológicas de como era a Amazônia nesse passado distante. Hoje o cenário é outro: os sedimentos transportados pelo rio Amazonas e seus afluentes são carregados pela força da correnteza, que pode formar bancos de areia ou provocar a erosão das margens do rio, apagando partes da história geológica.
Já os sedimentos acumulados no Mioceno foram depositados em um ritmo muito mais tranquilo, com menor energia. As águas mais calmas desse lago aumentaram a chance de que a deposição lenta e relativamente contínua de camadas de lama registrasse as mudanças climáticas ocorridas há milhões de anos. Um prato cheio para nós, cientistas que estamos tentando desvendar como a Amazônia respondeu às alterações do clima do passado e compará-las com as projeções do futuro.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Chegamos mais perto de solucionar esse mistério com nosso estudo publicado recentemente, coordenado por Karlos G. D. Kochhann, pesquisador da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e do Geomar Helmholtz Centre for Ocean Research Kiel, da Alemanha. Mostramos que os sedimentos acumulados no Lago Pebas, entre 14 e 12 milhões de anos atrás, registraram oscilações climáticas que eram controladas por variações cíclicas na órbita da Terra, cuja forma ora fica mais circular, ora mais ovalada.
Também tinha impacto o movimento de precessão da Terra —ou seja, o movimento circular de seu eixo de rotação—, que lembra o balanço de um peão perdendo velocidade. Esses fenômenos influenciaram a quantidade de radiação solar que a Terra recebeu e foram fundamentais para o controle de variações sazonais do clima, regulando a intensidade das estações secas e chuvosas no passado geológico da região.
Após o resfriamento global e a expansão do manto de gelo na Antártica, há aproximadamente 14 milhões de anos, as oscilações entre períodos mais secos e mais úmidos passaram a ser controladas apenas pelos ciclos de precessão —um padrão mais parecido com o que vemos nas últimas centenas de milhares de anos. Tudo isso mostra como eventos climáticos ocorridos em áreas distantes, como nas regiões polares e na Amazônia, podem estar conectados.
Durante o Mioceno, as concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera eram parecidas com os níveis previstos para o próximo século. Por isso, os sedimentos podem nos ajudar a entender melhor como o aquecimento global de hoje pode afetar a Amazônia. Ao reconstruir a variabilidade climática neles preservada, podemos compreender impactos futuros na biodiversidade e na capacidade da floresta em armazenar carbono.
O Ciência Fundamental é editado pelo Serrapilheira, um instituto privado, sem fins lucrativos, de apoio à ciência no Brasil. Inscreva-se na newsletter do Serrapilheira para acompanhar as novidades do instituto e da coluna.
Texto revisado pelo pesquisador Karlos G. D. Kochhann, da Unisinos.
Fonte ==> Folha SP – TEC