Lagartos assexuados, nascimentos virginais e clones: as espécies exclusivamente femininas do reino animal – 23/05/2026 – Ciência

Lagartos assexuados, nascimentos virginais e clones: as espécies exclusivamente femininas do reino animal - 23/05/2026 - Ciência

Pode parecer bizarro demais para ser verdade, mas a molinésia-amazona (Poecilia formosa), um peixe que habita rios, lagos e pântanos no México e no Texas, existe em grande parte de sua área de distribuição em populações compostas 100% por fêmeas.

Em 1932, a molinésia-amazona tornou-se o primeiro vertebrado conhecido a se reproduzir por clonagem, produzindo populações exclusivamente femininas. Um novo estudo genético proporcionou aos cientistas insights sobre o mistério de longa data sobre como e por que isso acontece.

A proporção de mulheres na população humana é de aproximadamente 50%. Alguns países, como as Maldivas (38% de mulheres) e a Moldávia (54% de mulheres), divergem dessa média, mas essas diferenças podem ser explicadas, em grande parte, pela imigração e emigração masculina. Mas proporções entre sexos muito mais dramáticas são encontradas no reino animal. As populações dos passarinhos borrelho-de-coleira-interrompida (Anarhynchus alexandrinus), nas quais os machos cuidam da prole, compreendem apenas 14% de fêmeas, e as populações de tartarugas marinhas, nas quais o sexo é determinado pela temperatura, frequentemente excedem 75% de fêmeas.

A maioria das espécies animais se reproduz sexualmente. Isso envolve a fusão de dois gametas, o espermatozoide e o óvulo, que se desenvolvem em um embrião. Um processo, conhecido como recombinação, mistura aleatoriamente o material genético da mãe e do pai. Isso produz maior variabilidade na prole e novas combinações de características. A diversidade genética aumenta as chances de sobrevivência da espécie caso seu ambiente mude.

Mas a molinésia-amazona se reproduz assexuadamente, sem mistura de material genético. Isso reduz a diversidade genética, tornando as populações vulneráveis à extinção —se uma molinésia-amazona for suscetível a uma doença, todas são.

E há outro problema em serem idênticas. Espécies assexuadas são mais propensas a acumular mutações prejudiciais. Esse fenômeno, conhecido como catraca de Müller, prevê que os clones devem se extinguir em 10 mil anos. No entanto, a molinésia-amazona —um híbrido que surgiu por meio da reprodução sexual entre uma fêmea de molinésia do Atlântico (P. mexicana) e um macho de molinésia-de-barbatana-larga (P. latipinna)— sobrevive por mais de 100 mil anos.

Então, qual é o segredo de sua existência sustentada?

A conversão gênica é um processo em que uma versão de um gene é substituída por outra. Na maioria das espécies, como os seres humanos, ela é usada para reparar DNA danificado. Na molinésia-amazona, porém, a conversão gênica retardou a “catraca de Muller”. Um novo estudo descobriu que a conversão gênica parece desempenhar o mesmo papel que a recombinação. Isso essencialmente permite que o peixe elimine mutações prejudiciais e preserve as benéficas. De fato, apesar de se reproduzir assexuadamente, a molinésia-amazona apresenta diferenças na forma corporal entre populações, demonstrando evolução em resposta ao seu ambiente local.

A molinésia-amazona se reproduz por meio de um processo chamado partenogênese, também conhecido como “nascimento virginal”, no qual os filhotes são produzidos a partir de um gameta não fertilizado. Isso permite o rápido crescimento de genótipos bem-sucedidos, os planos genéticos dos organismos, já que todas as molinésias-amazonas podem se reproduzir sem encontrar um parceiro. Assim, os animais criados por nascimento virginal podem colonizar habitats rapidamente.

A partenogênese pode ser obrigatória, como na molinésia-amazona, onde é o único meio de reprodução. Mas também pode ser facultativa, quando as espécies podem alternar entre a reprodução sexual e a assexuada. O lagostim marmorizado, por exemplo, se reproduz sexualmente em sua área de distribuição nativa, mas se estabelece rapidamente em novos habitats de forma assexuada, muitas vezes a partir de uma única fêmea.

A molinésia-amazona possui um tipo de partenogênese conhecido como ginogênese, em que o esperma é necessário para estimular o desenvolvimento do óvulo não fertilizado. Assim, a molinésia-amazona ainda precisa “acoplar-se” cada vez que se reproduz, mas o esperma não é incorporado à prole.

A molinésia-amazona acasala com machos de espécies intimamente relacionadas a ela, que se reproduzem sexualmente. Embora os genes desses machos não sejam transmitidos à próxima geração, isso ainda é vantajoso para elas. Isso porque as fêmeas costumam seguir tendências na hora de escolher um parceiro. Portanto, quando as fêmeas de sua própria espécie veem os machos com uma molinésia-amazona, é mais provável que se acasalem com eles.

A partenogênese é comum em animais invertebrados, incluindo formigas, abelhas e vespas. É menos comum em vertebrados, mas já foi observada em outros peixes, anfíbios, répteis —incluindo o dragão de komodo—, aves como os condores da Califórnia e tubarões, por exemplo, tubarões-martelo.

Outros vertebrados partenogênicos exclusivamente femininos incluem os lagartos-chicote, em que quase um terço das espécies é composto exclusivamente por fêmeas. Os lagartos-chicote do Novo México (Aspidoscelis neomexicana) chegaram a se tornar um ícone queer. Ao contrário da molinésia-amazona, esses “lagartos lésbicos” não precisam do esperma de um macho para estimular o desenvolvimento dos óvulos. Eles só precisam se envolver em comportamentos de acasalamento para estimular a ovulação, ignorando completamente os machos.

Algumas salamandras de manchas azuis se reproduzem assexuadamente há vários milhões de anos. Embora as populações exclusivamente femininas das salamandras se reproduzam de maneira semelhante às molinésias, exigindo esperma para estimular o desenvolvimento, elas são cleptogênicas. Isso significa que elas substituem uma parte do DNA da mãe por uma parte do DNA do esperma do macho, incorporando uma pequena quantidade de seu material genético na prole. Isso facilita a diversidade genética que permitiu às salamandras sobreviver por tanto tempo.

Assim como a molinésia-amazona, a cobra-cega-brahmina (Indotyphlops braminus), também conhecida como cobra-do-vaso devido ao seu hábito de se enterrar em vasos de plantas, é o único outro vertebrado conhecido que se reproduz exclusivamente por partenogênese.

As cobras têm três cópias de cada cromossomo, em vez das duas habituais, provavelmente devido a um erro na divisão celular em algum momento da história evolutiva da espécie. Um número aumentado de cromossomos foi encontrado em muitas espécies, incluindo o salmão, com quatro cópias, e o esturjão, com oito cópias.

O aumento do número de cromossomos gera maior diversidade genética, o que provavelmente explica como os clones de cobras-cegas sobreviveram por tanto tempo.

Pode haver mais animais com populações exclusivamente de fêmeas por aí ainda a serem descobertos. Afinal, até alguns anos atrás, não sabíamos que as cobras fêmeas têm dois clitóris.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original em inglês.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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